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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Correio de Midgar nº 1


Risos e sonhos

Há pouco mais de um ano escrevo esporadicamente neste blog, arrebatando o olhar e o tempo de alguns pouquíssimos leitores que por aqui passam. Não tenho motivos para querer mais do que o retorno mais ou menos lacônico que venho recebendo, até porque eu escrevo, antes de mais nada, por necessidade e para mim próprio. Óbvio que, em alguns momentos dessa curta jornada que ainda se inicia, tive lá minhas grandes pequenas ambições megalomaníacas, mal escondendo o orgulho pelos poucos acertos que conseguia. Mas ao longo desse ano, ao mesmo tempo em que vinha adquirindo minha própria voz, também fui tomando consciência dos meus próprios limites e da minha própria inutilidade relativa. Aprendi a ser um pouco mais sutil e um pouco mais irônico diante dos resultados e efeitos que meus textos realizavam. E mais importante: deixei de idealizar a atividade de escrever, sabendo carnalmente de suas dificuldades particulares e da ingratidão inevitável que persegue a figura secular e tediosamente desinteressante do escritor. Contra isso, buscando mascarar o excesso de nervos que por vezes dediquei ao ofício, aprendi a dizer que escrever nunca passou de um hobbie. Se alguém acreditou nas minhas mentiras, talvez eu possa começar a cogitar a possibilidade de crescer na coisa.

O blog, desde o início, se propôs a ser “literário”, no sentido de: textos que eram um pouquinho mais elaborados do que a média comum, numa linguagem de estilo variado, por vezes poético, quase sempre prosaico, marcados pela impessoalidade de um narrador que quase nunca se declara como tal, e cheios de referências a coisas do universo ficcional e factual que preenche a minha vida.  Dito de outra forma, os textos eram crônicas, falando sobre coisas reais ou “irreais” que tinham alguma ligação, implícita ou não, com a data referente da postagem. E também eram crônicos, ou seja, sintomáticos do estado patológico persistente que chamamos geralmente pelo nome de “existir”. A Biblioteca de Midgar, portanto, não deixa de ser um diário desse autor que vos fala, disfarçado publicamente pelo viés da fabulação a narrar sobre coisas tão mundanas como respirar, comer, amar, nascer e morrer.

A literariedade de meus textos, se é que realmente existe, não está em fazer de minha vida uma coisa interessante , o que definitivamente não é o caso. O conjunto do blog depõe contra isso: escrevi-o enquanto fui escrevendo, simples assim. A literariedade está em persistir escrevendo essas coisas apesar do desinteresse geral. Transformando a negatividade do “apesar” numa espécie de motivo para riso, e aproveitando os meus quinze minutos de “celebridade” (que na era da internet devem ser na verdade menos de quinze segundos) para dizer o que tenho dito. A morte e o esquecimento são absolutos ironistas, a quem todos nós teremos o direito no tempo devido. Motivos para rir não me faltam, sendo privilegiada testemunha da nulidade dos meus sonhos. No entanto, no meu blog eu busquei guardar o riso para mim, e deixei os sonhos para os meus leitores...


 “Onde o ruído da metrópole ainda respira lembranças de Gaia”1

            Talvez não seja exatamente necessário dizer que a inspiração espiritual para o blog venha de Final Fantasy VII. Quem conhece, mesmo que vagamente, a saga Final Fantasy, sabe que Midgar é a cidade gigantesca, futurista e decadente onde se iniciam os eventos do sétimo jogo da série. Mas a maneira como essa inspiração aparece, se é que aparece, está longe de ser evidente, simplesmente porque não há nada em meus textos que remeta ao universo desse RPG virtual. O que pode ser dito quanto a isso é que, até agora, dois temas referentes vem se repetindo, de maneira oblíqua. Um é o tema da metrópole, e do caos nela presente, que faz calar aquilo que na cidade há de frágil e de sutil. Outro tema é o da vida numa escala planetária, de como os seres estão conectados de modo circular, e de como esse conjunto vital parece ter uma unidade orgânica. Em algumas fábulas da saga Final Fantasy, principalmente no sétimo jogo da série, esses dois temas estão interligados, constituindo um aspecto importante para o desenvolvimento do enredo. Mas no caso de meu blog, a metrópole a que eu eventualmente me refiro pode ser qualquer uma, como o Rio de Janeiro em que eu habito; e o tropo da vida se comporta muito mais como um tom poético, e muito menos como cosmovisão holística a conceber o planeta como um ser vivo. Portanto, no meu blog, mesmo os únicos temas que remetem implicitamente ao universo Final Fantasy dele se desprendem para atestar uma outra visão sobra a coisa. E o fato de eu manter ainda esse universo como pano de fundo espiritual tem mais a ver com um motivo estritamente pessoal: uma afetividade moldada ao longo de anos jogando e (re)fabulando em minha imaginação os jogos da saga.

Gaia, segundo a mitologia grega, é o nome da deusa Terra, uma das titânides da cosmogonia de Hesíodo, de onde provavelmente provem boa parte das associações na cultura ocidental que insistem em ver a natureza como uma grande mãe. Não saberia dizer de que maneira essa associação sobreviveu ao longo de séculos desvinculada do mito, mas a verdade é que, seguindo a onda new age dos anos 60, Gaia se tornou para muitos (e principalmente para muitas) uma espécie de símbolo renovado de um paganismo “moderno”, numa vontade de revalorizar o que há de caráter feminino na natureza, buscando nisso alguma coisa de sagrado e de religioso. Algumas vertentes do feminismo americano contribuíram bastante para essa visão simbólica, talvez mais preocupadas com o que havia nela de potencialmente político. No entanto, Gaia, como quase tudo que provem do new age, se tornou um símbolo requentado, impossível de caber contemporaneamente naquilo que a ciência conhece da natureza2, e portanto, em vias de parecer, quando muito, apenas uma visão poética sobre o planeta, senão como esquisitice da parte de quem decide tomá-la como verdade. Eu sempre tive consciência para o fato de que tomar Gaia como símbolo da natureza era pisar sobre esses cacos de vidro, e no entanto fui levado a fazer isso principalmente por causa de Final Fantasy: Spirits Within. Por mais que os fãs da saga Final Fantasy em geral odeiem com todas as suas forças esse filme, particularmente eu gostei bastante de como o símbolo Gaia aparece nele. Achei aquele final uma das coisas mais belas e melancólicas que eu já vi no cinema, e foi nisso em que geralmente me inspirei para falar no meu blog sobre a fragilidade da vida.

Meus leitores devem perceber que, ao longo desse ano inicial, uma leitura se avultou gradativamente no meu horizonte, que foi a leitura de Nietzsche. Em verdade, na época em que iniciei minhas postagens, eu estava lendo A Gaia Ciência do autor em questão. Muito do estilo caudaloso, cambiante e nervoso do filósofo alemão fala aos meus ouvidos toda vez que eu sento para escrever alguma coisa. Mas um equívoco imenso de minha parte, que eu só descobri muito recentemente, é que a “Gaia” de Nietzsche nada tem a ver com a “Gaia” que eu tomei como símbolo de um de meus temas principais. A “Gaia” de Nietzsche é um adjetivo da expressão “gai saber”, que designa a arte de versejar dos trovadores provençais do século XI ao XIII, e que numa tradução literal seria algo como “alegre sabedoria”. O fato é que, numa emulação desse modo de escrever do filósofo, muito de minha “alegria” foi direcionada para enxergar aquilo que na metrópole gritava sem ser ouvido por quase ninguém. Esse algo, segundo a inspiração no universo de Final Fantasy VII, poderia ser a voz do planeta e da vida que nele circula, e a sabedoria, encarnada na personagem de Aeris, seria saber ouvir essa voz ancestral que a metrópole abafa em seus ruídos incessantes. Meu equívoco, se por um lado não deixa de ser engraçado, por outro não deixou de ser produtivo. Mas Nietzsche, em seu elitismo por muitas vezes insuportável, talvez não gostasse de ver-se associado a um produto da cultura pop dos fins do século XX. Penso que, se a sua sabedoria é devidamente alegre, talvez, por outro lado, ele achasse nisso uma graça, e me perdoasse muito mais ligeiramente do que meus leitores devem me perdoar. Senão, “pago-lhe com um piparote”, largo seu livro raivoso num canto, e vou-me embora novamente para Midgar.


A biblioteca virtual

            A cidade de Midgar é, com certeza, uma das locações imaginárias mais incríveis que eu ainda terei a chance de conhecer nessa vida. E o fato de que eu venho revirando-a na minha cabeça desde pelo menos meus 12 anos de idade tem contribuído bastante para esse juízo demasiado parcial. Uma coisa ao longo desses anos eu tenho descoberto, de modo por vezes amargo: não sei falar sobre a coisa senão de dentro desta afetividade ingênua. Já não me incomodo com isso, antes a vejo como um daqueles pequenos fatos que nos definem muito mais do que grandes acontecimentos. A cidade de Midgar me parece tão real na minha memória quanto o bairro em que eu passei a minha infância, a Terra dos Ipês, na periferia de Pindamonhangaba, cidade do interior de São Paulo. Nenhum deles dizem respeito à metrópole em que eu agora moro, o Rio, com seus próprios dramas cotidianos, sua sociopolítica bastante complexa, e suas premências correspondentes. Mesmo assim, quixotescamente, eu insisto em falar sobre aquele imaginário persistente, sabendo que ele inevitavelmente importa muito mais a mim do que a qualquer outra pessoa. O fato de eu escrever pelo meio de um blog, nessa mistura arraigada de relato confessional e elaboração literária, talvez me redima parte de minha ingenuidade. A quem, bravamente paciente, estiver lendo ainda essas linhas, recomendo uma viagem renovada por Midgar, não a da minha imaginação, mas aquela virtual, do jogo Final Fantasy VII, que, apesar de um pouco envelhecido por mais de uma década de existência, ainda conserva seus próprios encantos, que eu não quero estragar contando aqui.

Até onde eu consigo me recordar, existe somente uma biblioteca em Midgar, que fica localizada no 62º andar do Shinra’s Building, sob responsabilidade do prefeito da cidade, que, sem mais nada para fazer, assume a função inócua de bibliotecário. No jogo, a biblioteca em si é bastante pequenina e pouco interessante, serve apenas para resolver um puzzle que o prefeito propõe, e nada mais. Outra biblioteca, que não está em Midgar, é mais interessante, aquela da cidade de Nibelheim, onde Sephiroth perde a sanidade após dias seguidos pesquisando seus volumes empoeirados em busca de descobrir o passado do planeta. Gosto de imaginar a existência de uma biblioteca destas em Midgar, num daqueles distritos não visitados pelos personagens, cercada pelos onipresentes aparatos mecânicos e eletrônicos, e pelo contraste entre pobreza e luxo inspirado no universo ciberpunk. Seria numa biblioteca como essa que eu estaria lendo e escrevendo os textos de meu blog, um lugar excessivamente particular e ao mesmo tempo vagamente plausível, pensando a loucura toda da metrópole ao redor.

A Biblioteca de Midgar está, portanto, aberta pra visitações, e é de lá de dentro que eu emito esse correio, a quem quer que se interesse pelo assunto. Algumas poucas coisas da nossa vida persistem ao longo de anos revirando a imaginação e propondo novas aventuras e experiências. No meu caso, uma delas se trata de um mundo virtual, ao lado de uma penca de outras coisas sobre as quais eu gosto falar naqueles raros momentos de conversa amiga. Como eu já disse, algumas minudências nos definem muito mais do que os grandes fatos da vida que em geral apresentamos como “credenciais”. Tudo o que é humano me interessa, e no entanto eu tenho de ser parcimonioso nas minhas escolhas. E eu prefiro relevar aquilo que, em mim e nas outras pessoas, inesperadamente me sorri com um sorriso de criança.


1 – Esse era o antigo subtítulo do meu blog, desde seu início em janeiro de 2011 até fevereiro de 2012, quando então o subtraí, sem nenhum dano, como se pode notar, para o tecido do espaço-tempo em nossa remota galáxia.

2 – No entanto, quanto a isso, talvez valha a pena frisar que o cientista ecologista britânico James E. Lovelook tem descrito, com uma licença poética enorme, os sistemas integrados do planeta a partir de sua “Hipótese de Gaia”.

Um comentário:

  1. Só vim aqui para aplaudir as minudências que te definem. De fato, são a cereja que deixa o bolo confuso de cada ser humano muito mais interessante!

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