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domingo, 11 de março de 2012

Solaris como horizonte da fé


         Os leitores de Borges devem se lembrar da aventura do legionário romano Flamínio Rufo, que, na busca da lendária Cidade dos Imortais, acaba por encontrar outra cidade póstuma, construída, com o crivo de Homero, sob o signo da loucura, cuja vertigem apavora o militar. Borges nos diz: “consta que, depois de cantar a guerra de Ílion, [Homero] cantou a guerra das rãs e dos ratos. Foi como um deus que criasse o cosmos e depois o caos” [19]. Muda-se radicalmente o cenário literário, o homem moderno lança-se contra as estrelas em busca do desconhecido, mas a sua estupefação permanece intacta. Pois, da mesma maneira, a descoberta do planeta Solaris, contada retrospectivamente pelo narrador de Stanislaw Lem, perfaz o movimento de encanto e embriaguez. Os cientistas do planeta dominado por um oceano plasmático sentem-se pisando em terreno virgem para o conhecimento, com a esperança de que a investigação daqueles fenômenos planetários peculiares pudesse avançar as fronteiras da percepção humana sobre o universo. Ledo engano. O planeta se revela, pouco a pouco, um mistério inextrincável, e, entre tantos caminhos para seguir ou não seguir, algumas veredas tortas da ciência apelam para soluções metafísicas. “Solaris era como uma espécie de ‘iogue cósmico’, um sábio, uma exemplificação da onisciência que, havia muito tempo, compreendera como era vã toda atividade e que, por essa razão, a partir daí se recolhia num silêncio inabalável” [Lem: 36].

O que está em jogo é a possibilidade de conhecimento progressivo e totalizante de um universo que salta ao horizonte do ser humano com cores sempre novas. Toda ciência postula um objeto a ser conhecido, e tal perspectiva objetiva é essencial à própria ciência. Existe a caixa-preta da razão e existe o que está fora dela, e o que está fora dela pode ser conhecido como objeto, e isso todos nós sabemos. Mas a ânsia de se estabelecer relações entre os diversos objetos sempre comporta um certo nível de operações indevidas, que fazem o sujeito projetar-se naqueles objetos que ele investiga. Até ao ponto de surgir o problema de em que medida o conhecimento é deveras objetivo, problema esse que rasura a base da teleologia científica. Em face de tal problema poderíamos, com Nietzsche, simplesmente fazer o elogio de “todo o Olimpo da aparência”. Mas, ao invés disso, continuamos a fazer ciência, estudamos a estrutura do átomo, exploramos astros universo afora e, sobretudo, nos trancamos em bibliotecas.

E é de dentro de uma biblioteca que Kelvin, o narrador e protagonista de Solaris, contempla a vastidão e a incongruência do conhecimento científico que, como pano de fundo dessa outra vastidão e incongruência que é o planeta Solaris, parece apontar para a inutilidade de toda atividade, clamando ironicamente pelo silêncio eterno. O espaço da biblioteca inverte o vetor do conhecimento, os livros deixam de ser um mapa para o mundo, e o mundo é que passa a ser um mapa para os livros. “Num clima de indiferença geral, de estagnação e desânimo, o oceano de Solaris ficou coberto de outro oceano de papel impresso” [Lem: 223]. Os fenômenos de Solaris desafiam classificações unificantes, cada manifestação do oceano revela novo acaso, e qualquer tentativa de explicação logo é substituída por outra mais ou menos insana. O conhecimento solarístico não estabelece nenhuma espécie de progresso, pois caminha como num labirinto que a cada esquina se bifurca em caminhos imprevistos. O narrador nos diz: “O conjunto de nossos conhecimentos exatos [de Solaris] era estritamente negativo” [34]. Ou seja, apenas se pode saber o que o planeta não é, não é isso nem aquilo, e assim sucessivamente. Se investigarmos mais a fundo Solaris, saberemos que, a despeito do que dizem apressadamente alguns livros, o planeta não é um “iogue cósmico”, nem um Deus, nem a construção caótica de algum ser imortal. Na esteira provalmente infinita das negativas o ser humano poderia vislumbrar, afinal, o totalmente outro, aquilo que o excede e que permanece indefinidamente um mistério. Existe um mundo lá fora, e esse mundo é a própria negação do espaço aconchegante e confortável da biblioteca, em seu autrocentrismo contemplativo e especulativo. Supostamente, o homem pode escolher entre se interessar pelo mundo e se desinteressar pela biblioteca, ou se interessar pela biblioteca e se desinteressar pelo mundo. Ou fazer as duas coisas sucessiva e ciclicamente, num processo dialético interminável, em torno do qual a verdade apenas lance algumas sombras parciais, prometendo sempre se revelar mas adiando indefinidamente sua realização.

         Por fim, Kelvin reconhece que o problema Solaris excede infinitamente sua medida humana. E no entanto, até onde ele consegue compreender, a medida humana também excede continuamente a si mesma, criando a ilusão de progresso que está na base da ciência. Afinal, não deixa de ser também um prodígio que aquele frágil bicho de terra, em demanda de uma necessidade incógnita, tenha construído suas maquinarias e se atirado contra as estrelas, e nesse meio do caminho encontrara algo tão incrível como Solaris. Porém, a ironia da ansiedade humana é que o planeta não se cansa de desafiar os cientistas escondendo seus mistérios, e, por sua vez, os cientistas buscam outras soluções. A dinâmica do conhecimento perfaz a dinâmica da vida e da morte, e essa dialética é também a própria natureza humana, por mais antinatural que ela pareça. É somente por saber que um dia vai morrer que o homem busca estabelecer uma ordem, busca deixar a marca de sua presença, aquém e além de planetas como Solaris. Como bem nos lembra Borges, caso não fosse assim, só restaria ao imortal construir uma obra final para simbolizar o caos e viver na pura especulação e na inanição. “A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por se dissipar como o rosto de um sonho” [Borges: 21]. É no reconhecimento da dissipação que se vive uma vida humana, espreitando a morte a cada ato que executa. Solaris, por ser um mistério inacessível à consciência do ser humano, dá a medida da raridade e da precariedade inerentes à vida.

Contemplar Solaris e saber que essa “coisa” existe pode ser como contemplar a póstuma Cidade dos Imortais, cuja grandeza nos aterroriza e nos enlouquece. Mas também pode ser o vislumbre do totalmente outro, onde subjaz a natureza humana, porque dele viemos à vida e para ele retornaremos na morte. E nesse vislumbre, continuar a lida humana por dar uma forma ao mundo, na pura ilusão de imortalizarmo-nos naquilo que fazemos. Como diz Kelvin no final de Solaris: “persistir tendo fé em o tempo dos milagres ainda não haver cessado” [269]. Mesmo que o mistério permaneça indefinidamente mistério para todos nós.


.BORGES, Jorge Luis. “O imortal”. In: O Aleph. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
.LEM, Stanislaw. Solaris. Tradução de José Sanz. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.