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domingo, 2 de setembro de 2012

O horizonte comum entre Cesário Verde e Alberto Caeiro


Talvez seja possível traçar uma relação entre Cesário Verde e Alberto Caeiro, para além da ligação mais imediata que se pode notar entre eles. Ricardo Reis, num prefácio a uma reunião dos Poemas Completos de Alberto Caeiro, diz que a obra em questão é: “dedicada por desejo do próprio autor à memória de Cesário Verde”. O mesmo Alberto Caeiro, em ilustre passagem do seu “Guardador de Rebanhos”, escreve: “Ao entardecer, debruçado pela janela,/ E sabendo de soslaio que há campos em frente,/ Leio até me arderem os olhos/ O livro do Cesário Verde.” Este é o único autor citado por Caeiro em toda sua obra, e a única leitura referida de maneira positiva. Essa escolha não deve ser fortuita, e o objetivo deste pequeno ensaio é tentar elucidá-la de alguma forma.

      Para começar, basta dizer que a poética de Cesário Verde é dificilmente classificável no contexto da literatura portuguesa. Por um lado, Cesário Verde se vale de um sentimentalismo eminentemente romântico, centrado nas sensações e impressões que um sujeito particular vive perante certas experiências. Por outro lado, os temas trabalhados por Cesário Verde fogem completamente à estética romântica, com seu prosaísmo e coloquialismo que o aproximam extraordinariamente dos modernistas. Cesário produz imagens citadinas marcadas por um realismo filtrado pelo estilo direto e caleidoscópico de sua poesia. Seu trabalho composicional apresenta resultados que podem ser comparados aos das artes plásticas, em sua tentativa de criar paisagens da vida cotidiana. Portanto, a poesia de Cesário está voltada para o sentido da visão, encarnada na figura do flâneur, que perambula pela cidade registrando suas impressões.

         Alberto Caeiro, por sua vez, produz um projeto poético e existencial que traz à tona a primazia das sensações e das percepções no contato com a realidade. Caeiro pretende, de maneira indireta, fazer uma crítica radical ao hábito intelectual metafísico que de certa forma sempre esteve no horizonte do pensamento ocidental. Sua poesia representa uma alternativa a esse modelo de pensamento, com seu retorno ao primitivismo pagão e com sua semelhança à ingenuidade infantil. Para realizar tal projeto, Caeiro se vale de uma linguagem polida e coloquial, extremamente próxima à prosa, sem construções sintáticas complexas e bastante referencial a elementos da natureza. Entre os sentidos aguçados do poeta Caeiro, a visão está sempre em primeiro plano, como sendo o sentido mais imediato de que o ser humano dispõe. Para Alberto Caeiro, é como se a visão fosse o maior atestado de um mundo não metafísico, como expresso no verso: “Pensar é estar doente dos olhos”.

          Afora as diferenças estilísticas mais evidentes, podemos apontar para o fato de que as duas poéticas encenam um primado do sentido da visão, como se esta fosse a perspectiva mais privilegiada sob a qual o homem se relaciona com o mundo. Para Cesário Verde, é importante ao poeta que, em sua condição de flâneur, ele tenha os olhos sempre atentos a cada elemento da cidade que possa ser transformado em matéria de poesia, numa abertura quase total às diversas sensações visuais que a cidade é capaz de provocar. Em Alberto Caeiro, a visão é a experiência central do sujeito, porque dá sentido à superficialidade real do mundo, e privilegia o contato experiencial do homem com as coisas, em contraposição à irreal profundidade metafísica do mundo, tão endossada pela história do pensamento.

          Além disso, o que os dois poetas têm em comum é a consciência de que, por mais que a visão seja um sentido privilegiado, ela não deve servir de instrumento para edificar uma determinada moral. Os dois poetas são amorais, no sentido em que eles não transformam sua visão de mundo num modelo a ser seguido por todos os outros homens; antes, sua perspectiva é somente mais uma, entre tantas possibilidades. Cesário Verde não julga a miríade de homens que habita a cidade que ele pinta em seus versos: sua cidade é como um organismo estável, funcionando da maneira como deve ser, com suas virtudes e mazelas próprias. Alberto Caeiro não transforma sua visão numa cosmovisão, pois sabe humildemente que sua forma de ser e de ver o mundo é simplesmente natural, como é natural as outras formas de ver e ser.

           Por fim, imaginando a possibilidade de considerar as poéticas de Cesário e Caeiro como uma continuidade, podemos dizer que Caeiro encontrou em Cesário um prenunciador de sua singular poética. Para poder afirmar um contemporâneo primitivismo pagão, era preciso encontrar um poeta que estivesse irrestritamente aberto às sensações que o mundo moderno oferecia, com suas doses cavalares de experiências contraditórias. Cesário Verde era esse poeta, figura estranha no seio da literatura portuguesa. Caeiro se aproveitou do seu protagonismo e radicalizou a experiência de abertura sensitiva. Transformando-se num mestre poético cujo projeto ainda repousa como promessa irrealizada. Enxergar o mundo sem os preconceitos que assombram atavicamente nosso olhar.


Nota: Apresentei esse texto como trabalho de conclusão da disciplina Literatura Portuguesa III, ministrada pelo querido professor André Ramos no primeiro semestre de 2011, no Instituto de Letras da UERJ. Creio que fui generosamente avaliado em função desse trabalho. No entanto, deixo-o aí para olhos curiosos e desocupados. Mas não sem a ressalva do próprio Ricardo Reis: "Não se pode comentar, porque não se pode pensar, o que é direto, como o céu e a terra; pode tão-somente ver-se e sentir-se."
          Passo por essa vida vendo e sentindo, com a íntima convicção de que dizê-lo é, de certa forma, falseá-lo. Há os que falseam magnificamente, como um Fernando Pessoa, mas graças a Deus esses são uns poucos. Pelo menos sobra mais céu e mais terra para mim, e também a sensação de uma inexorável solidão.

sábado, 9 de junho de 2012

A morte do Pequeno Príncipe


O Pequeno Príncipe existe como para cumprir um destino trágico em nosso mundo. Desde sempre sua finalidade é simplesmente morrer. Quando a infância aparece diante de nós e nos ilumina de graça, nossa reação condicionada é ignorá-la e limitá-la a seu nicho específico. Prescindimos da infância para depois erguer em sua homenagem um altar chamado nostalgia.

O Pequeno Príncipe sai de seu planeta por amor à rosa, seu objeto singelo, seu capricho, sua razão de ser. Nessa viagem, faz pausas em planetas habitados por adultos em suas representações neuróticas, afeitas à vulgaridade do cotidiano. O amor à rosa da infância é incapaz de ser transmitido ao mundo adulto justamente porque está além ou aquém de palavras. Dizer o amor é esterilizá-lo, é pô-lo numa cela abstrata de ideias, estranha à sua obviedade singela. Cada adulto em seu planeta é um mundo com claras limitações. O planeta do Pequeno Príncipe é limitado também, mas, ao contrário dos adultos, em sua pequenez não há a pretensão de abarcar o universo numa lógica qualquer. Cada adulto, de dentro de sua redoma planetária, parece ter uma palavra final e absoluta para a infinitude que o engole. Todos são tão completamente cheios de certezas, que é preciso minimamente a interlocução com uma criança para que se revele sua ridicularidade relativa. Mas o Pequeno Príncipe nada tem a dizer a essas pessoas; ele recorre sempre ao silêncio, à não-palavra, à perplexidade, ao mistério: isso que toda infância tem de mais sagrado.

A viagem do Pequeno Príncipe deságua na Terra, essa imensidão de adultos, nem por isso menos limitada. Quem há de, nessa imensidão, se solidarizar com a história de uma rosa singela num planeta distante? Nosso mundo realista varre a fantasia para debaixo do tapete, em nome de inumeráveis pragmatismos. Apenas o narrador-personagem de Saint-Exupéry trava uma amizade ligeira com a infância, uma amizade melancólica como que pressentindo o fim iminente, cheia de saudades do que já se vai perdendo. Porém, mesmo ele já não pode ajudar o Pequeno Príncipe, chegou tarde demais à fonte de toda graça da vida, também se tornou nostálgico. O deserto é o que resta ao Pequeno Príncipe, e lá é onde ele vai encontrar a serpente. O ser da língua bífida, que diz coisas sobre as quais não se pode confiar plenamente. Ao fim de tão longa e desesperançada viagem, sua mordida é a única chance de fazer o Pequeno Príncipe voltar ao seu planeta pequeno e fantástico, voltar ao seu amor à rosa. Sua mordida dará fim a essa jornada inútil no reino dos homens úteis, com o preço evidente da morte.

Na correria de nossas vidas importantes para nós mesmos, não percebemos os pequenos príncipes que nos rodeiam, iluminando a vida de outros sentidos. Quando eles esmorecem, atribuímos sua existência a algum ideal passado, sempre distante de nós. Resta a todos aqueles que viram algum pequeno príncipe passar por essa terra um gosto ligeiro da infância que vamos perdendo. A morte do Pequeno Príncipe é uma necessidade para se estar no mundo brutal a que nos acostumamos. Um mundo sem graça e desonesto, ausente do amor à rosa por quem daríamos a vida.


Nota: Escrevi esse texto no final de ano de 2009, após a leitura do referido livro, no meio de uma de inumeráveis depressões. Portanto, peço que tenham pena, não de mim, mas do resultado infausto que aqui se encontra. Perdoem o seu tom que, não raras vezes, resvala no moralista, e cai no ledo engodo de idealizar a infância sob os olhos de um burro velho. No entanto, deixo o texto por aí pois creio que a leitura realizada nele não é de todo vulgar. Também, não é para tanto: a um céu enigmático e melancólico, qualquer olhar lançado se depara com alguma de suas incontáveis constelações.

domingo, 11 de março de 2012

Solaris como horizonte da fé


         Os leitores de Borges devem se lembrar da aventura do legionário romano Flamínio Rufo, que, na busca da lendária Cidade dos Imortais, acaba por encontrar outra cidade póstuma, construída, com o crivo de Homero, sob o signo da loucura, cuja vertigem apavora o militar. Borges nos diz: “consta que, depois de cantar a guerra de Ílion, [Homero] cantou a guerra das rãs e dos ratos. Foi como um deus que criasse o cosmos e depois o caos” [19]. Muda-se radicalmente o cenário literário, o homem moderno lança-se contra as estrelas em busca do desconhecido, mas a sua estupefação permanece intacta. Pois, da mesma maneira, a descoberta do planeta Solaris, contada retrospectivamente pelo narrador de Stanislaw Lem, perfaz o movimento de encanto e embriaguez. Os cientistas do planeta dominado por um oceano plasmático sentem-se pisando em terreno virgem para o conhecimento, com a esperança de que a investigação daqueles fenômenos planetários peculiares pudesse avançar as fronteiras da percepção humana sobre o universo. Ledo engano. O planeta se revela, pouco a pouco, um mistério inextrincável, e, entre tantos caminhos para seguir ou não seguir, algumas veredas tortas da ciência apelam para soluções metafísicas. “Solaris era como uma espécie de ‘iogue cósmico’, um sábio, uma exemplificação da onisciência que, havia muito tempo, compreendera como era vã toda atividade e que, por essa razão, a partir daí se recolhia num silêncio inabalável” [Lem: 36].

O que está em jogo é a possibilidade de conhecimento progressivo e totalizante de um universo que salta ao horizonte do ser humano com cores sempre novas. Toda ciência postula um objeto a ser conhecido, e tal perspectiva objetiva é essencial à própria ciência. Existe a caixa-preta da razão e existe o que está fora dela, e o que está fora dela pode ser conhecido como objeto, e isso todos nós sabemos. Mas a ânsia de se estabelecer relações entre os diversos objetos sempre comporta um certo nível de operações indevidas, que fazem o sujeito projetar-se naqueles objetos que ele investiga. Até ao ponto de surgir o problema de em que medida o conhecimento é deveras objetivo, problema esse que rasura a base da teleologia científica. Em face de tal problema poderíamos, com Nietzsche, simplesmente fazer o elogio de “todo o Olimpo da aparência”. Mas, ao invés disso, continuamos a fazer ciência, estudamos a estrutura do átomo, exploramos astros universo afora e, sobretudo, nos trancamos em bibliotecas.

E é de dentro de uma biblioteca que Kelvin, o narrador e protagonista de Solaris, contempla a vastidão e a incongruência do conhecimento científico que, como pano de fundo dessa outra vastidão e incongruência que é o planeta Solaris, parece apontar para a inutilidade de toda atividade, clamando ironicamente pelo silêncio eterno. O espaço da biblioteca inverte o vetor do conhecimento, os livros deixam de ser um mapa para o mundo, e o mundo é que passa a ser um mapa para os livros. “Num clima de indiferença geral, de estagnação e desânimo, o oceano de Solaris ficou coberto de outro oceano de papel impresso” [Lem: 223]. Os fenômenos de Solaris desafiam classificações unificantes, cada manifestação do oceano revela novo acaso, e qualquer tentativa de explicação logo é substituída por outra mais ou menos insana. O conhecimento solarístico não estabelece nenhuma espécie de progresso, pois caminha como num labirinto que a cada esquina se bifurca em caminhos imprevistos. O narrador nos diz: “O conjunto de nossos conhecimentos exatos [de Solaris] era estritamente negativo” [34]. Ou seja, apenas se pode saber o que o planeta não é, não é isso nem aquilo, e assim sucessivamente. Se investigarmos mais a fundo Solaris, saberemos que, a despeito do que dizem apressadamente alguns livros, o planeta não é um “iogue cósmico”, nem um Deus, nem a construção caótica de algum ser imortal. Na esteira provalmente infinita das negativas o ser humano poderia vislumbrar, afinal, o totalmente outro, aquilo que o excede e que permanece indefinidamente um mistério. Existe um mundo lá fora, e esse mundo é a própria negação do espaço aconchegante e confortável da biblioteca, em seu autrocentrismo contemplativo e especulativo. Supostamente, o homem pode escolher entre se interessar pelo mundo e se desinteressar pela biblioteca, ou se interessar pela biblioteca e se desinteressar pelo mundo. Ou fazer as duas coisas sucessiva e ciclicamente, num processo dialético interminável, em torno do qual a verdade apenas lance algumas sombras parciais, prometendo sempre se revelar mas adiando indefinidamente sua realização.

         Por fim, Kelvin reconhece que o problema Solaris excede infinitamente sua medida humana. E no entanto, até onde ele consegue compreender, a medida humana também excede continuamente a si mesma, criando a ilusão de progresso que está na base da ciência. Afinal, não deixa de ser também um prodígio que aquele frágil bicho de terra, em demanda de uma necessidade incógnita, tenha construído suas maquinarias e se atirado contra as estrelas, e nesse meio do caminho encontrara algo tão incrível como Solaris. Porém, a ironia da ansiedade humana é que o planeta não se cansa de desafiar os cientistas escondendo seus mistérios, e, por sua vez, os cientistas buscam outras soluções. A dinâmica do conhecimento perfaz a dinâmica da vida e da morte, e essa dialética é também a própria natureza humana, por mais antinatural que ela pareça. É somente por saber que um dia vai morrer que o homem busca estabelecer uma ordem, busca deixar a marca de sua presença, aquém e além de planetas como Solaris. Como bem nos lembra Borges, caso não fosse assim, só restaria ao imortal construir uma obra final para simbolizar o caos e viver na pura especulação e na inanição. “A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por se dissipar como o rosto de um sonho” [Borges: 21]. É no reconhecimento da dissipação que se vive uma vida humana, espreitando a morte a cada ato que executa. Solaris, por ser um mistério inacessível à consciência do ser humano, dá a medida da raridade e da precariedade inerentes à vida.

Contemplar Solaris e saber que essa “coisa” existe pode ser como contemplar a póstuma Cidade dos Imortais, cuja grandeza nos aterroriza e nos enlouquece. Mas também pode ser o vislumbre do totalmente outro, onde subjaz a natureza humana, porque dele viemos à vida e para ele retornaremos na morte. E nesse vislumbre, continuar a lida humana por dar uma forma ao mundo, na pura ilusão de imortalizarmo-nos naquilo que fazemos. Como diz Kelvin no final de Solaris: “persistir tendo fé em o tempo dos milagres ainda não haver cessado” [269]. Mesmo que o mistério permaneça indefinidamente mistério para todos nós.


.BORGES, Jorge Luis. “O imortal”. In: O Aleph. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
.LEM, Stanislaw. Solaris. Tradução de José Sanz. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Sombras de um Japão imaginário


Nota: Escrevi esse texto como trabalho final para a disciplina eletiva Sociedade e Geografia Japonesa, ministrada pela querida professora Elisa Sasaki. A proposta dela foi a seguinte: escrever um texto que funcionasse como uma espécie de roteiro para uma hipotética viagem ao Japão. Em verdade, não consegui pensar em nada sobre o que escrever dentro dessa proposta, e, na véspera da entrega do trabalho, já nas raias do desespero, tive o impulso irreverente de narrar um roteiro de viagem pelo mundo de Final Fantasy VII. Acabou que deu certo: tirei 9,5 pelo trabalho, a melhor nota entre a turma, e arranquei alguns elogios bem irônicos da professora. Acho que, às vezes, é preciso certo jogo de cintura para transformar o cinismo numa forma de honestidade. Pessoa vive nos ensinando que o poeta é um fingidor que finge a dor que deveras sente para dizê-la mais verdadeiramente. Guardo com muito carinho a lembrança simpática de Elisa, e do sushi que ela preparou para nós no último dia de aula. O único problema é que eu sou mesmo um brasileiro da gema. Bem, nem tanto assim...



Em Cosmo Canyon repousa indefinidamente o espectro de remotas memórias, que insistem em confundir os sonhos com as representações daquilo que ainda chamamos realidade. Nesta pequena cidade construída por um povo agora
Cosmo Canyon, de MeanPete
extinto, com suas casas de madeira empilhadas numa encosta de montanha,
sobrevive um planetário, e a sabedoria acumulada por séculos de meditação e de observação dos astros. Não há melhor lugar para aprender a sopesar os valores humanos, contra o vasto céu noturno de eternidade e esquecimento. Se tivesse de realizar uma viagem para outros lugares e cidades, seria de lá que partiria, após assentar serenamente meus afetos neste mundo há muito tempo abandonado por mim.


            Seguindo diretamente ao norte, se encontra Nibelheim, cidade onde alguns de meus amigos nasceram, e mais ao norte Rocket Town, onde vi pela primeira vez uma plataforma de lançamento de foguetes. No entanto, partindo de Cosmo Canyon, eu seguiria caminho contrário, e contornaria a cordilheira que separa as duas partes do continente. Mais ao norte há North Corel, cidade em ruínas de onde parte um teleférico para Gold Saucer, o parque de diversões mais fantástico que conheci. Não posso deixar de admitir que Gold Saucer é um lugar extremamente interessante, de um apelo sinestésico que me obriga a querer percorrer todas as suas atrações. Mas alguma coisa nesse lugar me faz lembrar o onipresente capitalismo encarnado pela empresa Shinra, cuja falta de escrúpulos fez questão de alongar seu império pelos quatro cantos deste mundo.


            Portanto, em minha viagem eu trocaria Gold Saucer por North Corel, a cidade ruinosa, e lá pararia para talvez conversar com algumas pessoas que ali restassem. Muito antigamente, a cidade sobrevivia de atividades autônomas e da exploração dos minerais abundantes em suas redondezas. Recordo que foi nessa cidade em que crescera um de meus amigos, que aqui ocupava uma determinada posição de liderança. Ele foi responsável por negociar acordos que trouxeram as tecnologias de Shinra para cá, com a promessa conveniente de prosperidade e progresso. Em certo momento da implantação tecnológica os reatores explodiram, arrasando a cidade tanto quanto sua antiga economia. Muitas famílias morreram, inclusive a de meu amigo, e a empresa Shinra quis calar as reivindicações daqueles que tanto perderam. Meu amigo nada pôde fazer, foi execrado e expulso do que sobrou da cidade, e passou a alimentar um ódio declarado por Shinra.


            Obviamente, ele não mora mais aqui, mas alguma coisa na ruína da cidade talvez me atraia. Não só pelo drama que nela repousa, nem pela ideologia que nesse drama se encerra, mas pela autenticidade que essa pequena história encena. North Corel é um pequeno símbolo de muitas coisas que ocorrem por esse mundo (e também em outros mundos), e não quero esquecê-lo antes de partir para outros lugares. Pegando um trem que atravessa as montanhas que cercam a cidade, chegaria à região mais a nordeste do continente, onde encontraria a pequena Costa Del Sol. Lugar de turismo preferido entre executivos de Shinra, é também um porto de onde parte navios para o continente oriental. Num desses navios chegaria a Junon, e lá talvez eu perderia um pouco de meu tempo.

Junon, de _Rodrix_


            Junon é a segunda maior metrópole, e a mais militarizada, também construída pelo protagonismo da empresa Shinra. Aqui se realiza a maioria dos projetos de alta tecnologia, como o do gigante canhão Sister Ray, o dos submarinos exploradores das profundezas do oceano, e da nave Highwind. Junon é um centro de poder bastante influente onde desfilam figuras importantes, em que boa parte do povo é descaradamente manipulada por um controle de informação, mas onde também existe uma vida subterrânea bastante ativa. Nos bares discretos e casas noturnas da cidade é possível saber muitas coisas dos bastidores de Shinra, e na minha viagem eu gastaria algum tempo coletando algumas informações e histórias.


            Saindo de Junon, eu teria de seguir um pouco mais ao sul do continente, passando por Fort Condor, uma cidade também bastante militarizada, mas que consegue manter certa autonomia em relação a Shinra. Seguindo a leste, é possível atravessar a cordilheira de montanhas que separa o continente, passando pela pequena Chocobo’s Farm, e então seguir ao norte, contornando o outro lado das montanhas, passando por Kalm Town, e chegando à portentosa Midgar. Na minha viagem esse talvez seria o ponto de chegada, que por sua vez significaria um outro ponto de partida. Porque Midgar é não somente a maior metrópole desse mundo imaginário, mas também o lugar para onde todas as estradas, todas as pessoas, e todos os conflitos vão dar (talvez como na antiga Roma).
Midgar, de Vehementscythe1337


            Vista de fora e do alto, a arquitetura de Midgar se assemelha a uma grande pizza, seccionada em oito grandes fatias. Na borda de cada um desses cortes há um enorme reator de energia Mako, cuja manipulação é o grande trunfo de Shinra, que encontrou uma forma de literalmente sugar a energia do planeta. No centro do gigante círculo se eleva o imponente prédio que sedia a empresa Shinra, de onde emana boa parte de seu poder administrativo e executivo. A população vive em um dos oito setores do grande círculo, debaixo de uma gigante marquise que protege a cidade e cria para ela um clima todo artificial. A cidade é atravessada pelos contrastes entre a riqueza e a pobreza, com grandes prédios dominando a paisagem, e bairros carentes que formam verdadeiros guetos. Da mesma forma que em Junon, o controle de informação é ostensivo, mas nunca o bastante para apagar a evidência da miséria cotidiana. Aqui nasceram, cresceram e viveram muitos amigos e muitos não amigos, dos quais me perdi com o tempo e com os quais me encontro eventualmente; aqui o drama perene do homem que oprime o próprio homem ganha as cores mais intensas e indisfarçáveis, mesmo que sejam cores de um mundo virtual; aqui a minha jornada se encerra, e daqui partem novos sonhos e novas confusões entre minha fraca e imatura memória e aquilo que ainda insistimos em chamar pelo nome de realidade.


            Mas afinal, qual a relação entre o relato de viagem acima esboçado e o Japão, que em nenhum momento é ali referido ou sugerido? Devo dizer, a bem da verdade, que a relação é quase nenhuma, a não ser pelo fato de que foram alguns japoneses que criaram aquele mundo virtual e imaginário no qual minha viagem se deu. Do Japão real conheço quase nada, e provavelmente não conhecerei muito mais ao longo da incerta vida que ainda me resta. Poderia fazer uma pequena pesquisa sobre lugares que eventualmente interessariam à minha condição de turista por paragens japonesas, mas questiono o valor de um tal esforço. Pois se o Japão real se encontra realmente num outro canto remoto do planeta, do qual apenas recebo notícias e representações diversas e alheias, por que eu ainda insisto em dizer que ele é real para mim? Obviamente que não é, e o meu esforço de realização do “meu” Japão consistira em escolher devidamente as imagens que me chegam do Japão e adequá-las ao que se espera que seja o Japão dos “outros”, ou seja, o Japão real. Mas minha preguiça não permite isso, e talvez eu mereça ser repreendido pela professora que me propôs a me ensinar um pouco da cultura japonesa real nesse semestre.


            No entanto, se ela tiver ainda a paciência de continuar me lendo, devo dizer que o Japão que me interessa não é exatamente o daquele outro canto do mundo estranho e remoto para um brasileiro anônimo como eu, mas é o do contraste entre esse mundo e o das representações afetivas que eu fazia dele, ao passar parte considerável de minha infância atrás de uma tela. É bastante conhecida a diatribe agendada por Platão em sua República, em que surge a metáfora da caverna de onde os filósofos pretendem sair. Nessa metáfora, os poetas (e por extensão todos aqueles que lidam com a criação) mereciam o privilégio de serem expulsos da imaginária república do filósofo grego, justamente porque são eles que contribuem para aumentar a quantidade de sombras que nos obscurecem o conhecimento da verdade e o acesso daquilo que ele pretende ser a realidade. Mas o mais irônico dessa brincadeira toda é que para dizer isso Platão recorre a uma metáfora, a uma imagem, ou seja, mais uma das sombras que ele mesmo condena, e com isso ele contribui para transformar a caverna num lugar mais confuso e menos “real”. Mas se ele não se condena a si próprio ao degredo da república imaginária que ele criou, então não vejo porque eu mereceria ser expulso, nem os japoneses que criaram o mundo no qual eu pretendi viajar.


            Portanto, se me for dada a chance de conhecer um pouco mais do Japão real, antes disso eu gostaria de realizar mais uma vez o mergulho nesse mundo de sombras que eu narrei, cuja relação com o Japão está muito longe de ser evidente. Porém, se não é evidente, por outro lado ninguém pode dizer que é menos real, por mais risível que pareça minha ingenuidade. Posso não saber o que é o Japão e nem o que faria se tivesse de ir para lá, mas ao menos sei muito bem me localizar em Midgar. E enquanto não encontro (nem pretendo encontrar) utilidade para esse conhecimento, vou repousando pouco a pouco em sonhos de realidade, cuja quimera, se não me matar de vez, talvez me deixe um pouco mais forte com o tempo. O Oriente não é um referente geográfico, senão um referente imaginário.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O último olhar de Argos


“Argos recebeu o que lhe cabia, o pretume da morte.
Ao menos reviu Odisseu, depois de vinte anos.”
Odisseia, Canto 17, 325-326: tradução de Donaldo Schüler

Para designar a nobreza de alguns atos e comportamentos animais, ainda não inventaram nome justo. “Fidelidade”, “abnegação”, “amizade”, todos são nomes humanos, demasiado humanos para caberem naquilo que não entendemos. Talvez por trás do universo constelado de sonhos daqueles que vivem ao lado de homens sem trocarem uma só palavra, num silêncio interminável, grasse unicamente a moeda do interesse mediando todas as relações, sem a mínima exceção. Para mim, nenhum problema, creio no seguinte: a espécie é interessada; o indivíduo é ingênuo.

Aquilo que chamamos hoje pelo nome de “cachorro”, um dia foi alguma coisa selvagem, não admitida no convívio humano, andando em grupos, cercando restos humanos, e fugindo quando era dia do caçador. Filhotes órfãos mereceram a misericórdia dos “civilizados” e, trazidos para dentro de casa, ali levaram para adiante a preservação de sua espécie. Como todos os animais domésticos, sua história começa com a violência, com a captura da natureza, com o convívio forçado entre dessemelhantes. Seria sim muita ingenuidade crer que o animal doméstico não tenha nenhum interesse em se utilizar do trabalho humano, se ele próprio vive subjugado por expedientes estranhos à sua origem. Afinal, ele precisa sobreviver de alguma forma nesse mundo do trabalho, alheio a sua essência expropriada, como um estrangeiro procurando função numa terra que não é a dele. Conhecemos gerações e gerações de cachorros que foram úteis para a comunidade humana, como caçadores, farejadores, guardiões, cortesãos etc. Mas a história das espécies, muito aquém de qualquer teleologia, nunca se preocupa com o bem-estar dos indivíduos singulares. Para se adaptar a cada nova função, demanda-se toneladas e quilolitros de sofrimentos. E quando não mais resta qualquer utilidade para o animal domesticado, nem o interesse próprio o salvará da extinção. A dança das espécies faz o seu trabalho de verdugo, abrindo passagem no meio da economia destrutiva da vida. Pois então, ninguém viu o cachorro chorar pelo seu próprio fim iminente. Ele não tem lágrimas, ele não tem palavras. E provavelmente, não deve saber que o seu destino é finar.

Amor de cachorro talvez seja o reconhecimento pela tolerância humana. A condição de estrangeiro a buscar função numa terra estranha pressupõe nada menos que a humildade. Cachorro sabe que ele é mero objeto na mão de homens, que podem dispor-se dele para fazerem quase tudo. Podem vendê-lo, podem torturá-lo, podem abandoná-lo, e também podem amá-lo. Cachorro sabe que o amor de homem nunca é exatamente uma troca. Se parece mais com a operação de investimento: sujeita às variações do mercado, podendo nunca dar lucro, muitas vezes até resultando prejuízo. E no entanto, o cachorro não tem sindicato que o defenda, cachorro não tem consciência de classe, não faz greve. No jogo do amor, ele simplesmente não tem nada a perder, e por isso quase sempre aposta tudo. Tamanha fragilidade às vezes faz esquecer que a imagem do animal sempre foi a de um corpo estranho na comunidade, subtraído da natureza para integrar à civilização na condição de servo, de escravo, ou na condição de mendigo, de vagabundo. Mesmo quando a imagem do animal desponta com selvagerias, trata-se de problemas domésticos, de coisas que fugiram ao controle, coisas ainda não “humanizadas”. O esforço de humanização dos animais é o ato ancestral e civilizatório de dobrar instintos para fins humanos. Não é fazer o homem ir de encontro ao animal, mas o contrário, fazê-lo vir ao homem. O cachorro, desde que nasce entre homens, sabe que vive sob o jugo da dominação. Na sua escala de valores, se existe algo parecido com isso, a liberdade deve brilhar com cores muito mais modestas. O cão humanizado é uma paródia de animal, pois não é homem nem é animal. Pode até ser engraçado e bonitinho pra quem vê de fora, mas de dentro sua condição é triste.


Odisseu, ao voltar a Ítaca depois de vinte anos de ausência, disfarçado de mendigo para não causar alarde, está numa posição marginal em relação à sociedade na qual ele é rei por direito. Nessa situação, ele não encena mais o guerreiro, o conquistador, o líder que ele encarnava até chegar ali. Odisseu disfarçado e submisso é o símbolo do olhar deslocado, capaz de observar melhor a condição dos outros seres devido à sua fragilidade inerente. Desde que o homem é homem, civilização também abriga o momento da reflexão, também é o esforço, mesmo que minoritário, mesmo que a posteriori, de ir de encontro àquilo que nos é alheio. E no palco das identidades humanas, em que o que vale é a distinção das aparências, Odisseu aparece como agente duplo, por um lado desprezado por quase todos, por outro lado atilado para o julgamento. Ninguém é capaz de saber que por trás daqueles andrajos se esconde a figura imponente de um rei. Todos tem olhos apenas para o visível, e nesse reino impera geralmente o disfarce e a mentira. Apenas uma criatura, entre tantas, identifica o Odisseu imutável, sem precisar de provas, sem ouvir a narrativa da origem, da linhagem, das desventuras, sem pedir outras credenciais que não a mais imediata presença. Argos reconhece Odisseu tão logo ele aporta em seu palácio, e em vista do retorno do dono, impossibilitado de mover-se na velhice, balança o rabo, abana as orelhas, e morre.

Para além da memória intocada e do olfato privilegiado, Argos se diferencia de todos os outros itacences na necessidade do retorno de Odisseu. Argos não precisa de que Odisseu retorne para restaurar o estado de coisas anterior à ausência do herói, para dar um rumo à situação suspensa quanto ao casamento de Penélope, para botar ordem nos pretendentes que infestam a casa do sumido rei, para nada disso. Argos precisa de que Odisseu retorne para conformar a sua condição de cachorro, Argos precisa de Odisseu para morrer. Ao vê-lo inane largado no esterco, Odisseu, sensível para compreender a condição daqueles que, como ele naquele momento, circulam na margem da aceitação, chora, e esconde o choro para não ser desmascarado. Argos sem Odisseu era como todos os outros cães sem função que vivem no seio da comunidade humana, sujeitos aos desmandos da orfandade, do abandono, da solidão, da indigência. Argos sem Odisseu é símbolo do indivíduo sujeito à sua própria ingenuidade, cuja história desafortunada da espécie já não o dota de outros meios para lutar em seu interesse. O último olhar de Argos é o olhar do reconhecimento de que ao menos a função de cachorro retornou para ele, ao menos a função de apêndice do homem. Argos ama Odisseu dessa maneira, e com esse reconhecimento ele pode morrer...


Por não estarmos geralmente como o Odisseu trajado de mendigo, para nós é bastante difícil compreender o sentimento canino. E então, domesticamos até o nome desse sentimento, e dizemos :“fidelidade”, “abnegação”, “amizade”. Mas para ser um pouco mais exato, ainda não existem palavras adequadas. Se a história de nossa espécie se baseia sobremaneira na dominação, inclusive na dominação de outras espécies, parte dessa história está inseparada da reflexão sobre os efeitos do poder. Em toda escala de relações humanas, a justiça pede espaço para entrar, principalmente no âmbito doméstico. Se o ser humano não é capaz de reconhecer a alteridade animal, então também não é capaz de respeitar a própria espécie em sua diversidade. A luta ética se faz em todas as frentes, em todos os instantes. Sem isso, não temos razão para orgulho em sermos chamados “animais políticos”. Sem isso, somos APENAS animais, e do tipo mais violento, predador.

Assim espero que, se é inevitável que Argos sobreviva abrigado em nossa Ítaca, que ele possa ao menos reconhecer Odisseu, num último olhar, anterior à morte. Nunca saberemos o que esse olhar significa, e no entanto ele nos diz respeito tanto quanto todas as ilhas para além do Mar Oceano.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A dignidade da loucura


Recordo algumas palavras de meu professor Marcus Motta, meses atrás, durante aula na UERJ. O Quixote é o único, em meio à sua loucura, capaz de conceder dignidade a seus interlocutores. Quando encontra duas prostitutas numa estalagem, que ele toma por castelo, chama-as de “senhoritas”, contra todas aparências e preconceitos esperados. Obviamente, nós sabemos que o herói está delirando, pois até as “senhoritas” escarnecem seu procedimento respeitoso. Elas próprias, experimentadas na vida, já assumiram a imagem com que o mundo continuamente as condena, e alguém que, como o Quixote, as vê diversas dessa imagem corrente, deve ser nada menos que um maluco. No entanto, independente das razões e não-razões que o Quixote tenha para ver as coisas sob suas lentes divergentes, ele é o único a dar às prostitutas uma chance de fugir dos rótulos que as esmagam, uma chance de serem consideradas “nobres”, antes humanas do que mera escória social. Essa chance, que vista apenas pelo lado do equívoco nada mais produz do que o efeito cômico da situação, vista pelo lado não essencialista das identidades humanas cria a possibilidade de uma relação digna entre criaturas tão diferentes.

O Quixote é o único que, no meio da sua loucura, suspende o mundo empírico das relações humanas para instaurar um “outro mundo”, o mundo quixotesco onde o que impera são as normas e valores da cavalaria, anacrônicos à realidade em que o herói circula a agir como se cavaleiro fosse. E como todos nós sabemos, nessa suspensão, há um grande risco de, ao invés de produzir dignidade no trato com as pessoas, gerar por outro lado uma série de conflitos, como de fato muitos acontecem no romance. Porém, mesmo nesses conflitos em que o Quixote esbarra nas suas aventuras, vemos o quanto ele está seguindo, antes de mais nada, a fidelidade inquebrantável a valores humanos, com que ele quer fazer dobrar as relações correntes, antes que a realidade dessas relações o dobrem. Para o Quixote, um senhor fustigando seu servo numa beira de estrada, a despeito das razões que o senhor possa ter, não é nada mais do que a imagem da injustiça, sobre a qual o cavaleiro deve intervir. Para ele, criminosos condenados pelo próprio rei a duros trabalhos durante anos numa galé, acorrentados a caminho de sua pena, merecem uma chance de se redimirem, porque o único juiz infalível é somente Deus, para além do rei. Para o Quixote, a honra de uma senhora renomada deve ser defendida, se necessário à base da porrada, contra quem ouse dela divergir, mesmo que essa senhora exista apenas na imaginação do herói, não passando de um personagem de romance de cavalaria. Como vemos, a loucura do Quixote não pode ser considerada de jeito nenhum uma “loucura mansa”, e no entanto é uma loucura sobre a qual ninguém poderia dizer que é incoerente, visto basear-se numa solidez dignificada. O Quixote não quer apenas consertar o mundo, ele quer também concertá-lo, partindo de um princípio que organize suas ações. Se podemos dizer que o Quixote escolheu errado seus princípios, por outro lado DEVEMOS reconhecer que o mundo nunca será mais que um “eterno desconcerto”, nas palavras de nosso querido Camões.

Portanto, o Quixote é o único que, diante do eterno desconcerto do mundo, se recusa a assumir o permanente cinismo de todas as outras pessoas, que se defendem na superfície das aparências identitárias para justificarem suas atitudes por vezes perversas e desumanas. O Quixote assume a irrealidade de seu mundo quixotesco como meio para se insinuar ao mundo real, mostrando para este o quanto ele parece imperfeito diante da dignidade do herói, aquém de seus sonhos, aquém de suas utopias, aquém da mera possibilidade de justiça. Para que a realidade não se desestabilize diante da presença impertinente do cavaleiro andante “da Triste Figura”, ela precisa dizer a todo tempo que aquele que diverge de sua norma não passa de um maluco. Mas do ponto de vista do Quixote, no meio da sua solidão absoluta, o difícil mesmo não é combater moinhos de vento, o difícil é provar que a loucura está em quem conforma-se plenamente com esse eterno desconcerto do mundo.

No meio da sua loucura, o Quixote é o único que se recusa a assumir as aparências correntes no mundo preconcebido por outros. Mesmo quando seus olhos veem apenas o que veem, ele entende o desconcerto como encantamento com que um gênio maligno vive a perseguí-lo. Definitivamente, não conheço qualquer outra dignidade mais elevada do que essa do Quixote, a dignidade da loucura. É preciso conceder a chance de que as prostitutas sejam mais do que parecem, sejam “senhoritas”. Mesmo que a realidade venha continuamente a nos desmentir, é preciso vê-las antes como “senhoritas”. Talvez o único ato de sanidade diante de um mundo que se enlouqueceu.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Correio de Midgar nº 1


Risos e sonhos

Há pouco mais de um ano escrevo esporadicamente neste blog, arrebatando o olhar e o tempo de alguns pouquíssimos leitores que por aqui passam. Não tenho motivos para querer mais do que o retorno mais ou menos lacônico que venho recebendo, até porque eu escrevo, antes de mais nada, por necessidade e para mim próprio. Óbvio que, em alguns momentos dessa curta jornada que ainda se inicia, tive lá minhas grandes pequenas ambições megalomaníacas, mal escondendo o orgulho pelos poucos acertos que conseguia. Mas ao longo desse ano, ao mesmo tempo em que vinha adquirindo minha própria voz, também fui tomando consciência dos meus próprios limites e da minha própria inutilidade relativa. Aprendi a ser um pouco mais sutil e um pouco mais irônico diante dos resultados e efeitos que meus textos realizavam. E mais importante: deixei de idealizar a atividade de escrever, sabendo carnalmente de suas dificuldades particulares e da ingratidão inevitável que persegue a figura secular e tediosamente desinteressante do escritor. Contra isso, buscando mascarar o excesso de nervos que por vezes dediquei ao ofício, aprendi a dizer que escrever nunca passou de um hobbie. Se alguém acreditou nas minhas mentiras, talvez eu possa começar a cogitar a possibilidade de crescer na coisa.

O blog, desde o início, se propôs a ser “literário”, no sentido de: textos que eram um pouquinho mais elaborados do que a média comum, numa linguagem de estilo variado, por vezes poético, quase sempre prosaico, marcados pela impessoalidade de um narrador que quase nunca se declara como tal, e cheios de referências a coisas do universo ficcional e factual que preenche a minha vida.  Dito de outra forma, os textos eram crônicas, falando sobre coisas reais ou “irreais” que tinham alguma ligação, implícita ou não, com a data referente da postagem. E também eram crônicos, ou seja, sintomáticos do estado patológico persistente que chamamos geralmente pelo nome de “existir”. A Biblioteca de Midgar, portanto, não deixa de ser um diário desse autor que vos fala, disfarçado publicamente pelo viés da fabulação a narrar sobre coisas tão mundanas como respirar, comer, amar, nascer e morrer.

A literariedade de meus textos, se é que realmente existe, não está em fazer de minha vida uma coisa interessante , o que definitivamente não é o caso. O conjunto do blog depõe contra isso: escrevi-o enquanto fui escrevendo, simples assim. A literariedade está em persistir escrevendo essas coisas apesar do desinteresse geral. Transformando a negatividade do “apesar” numa espécie de motivo para riso, e aproveitando os meus quinze minutos de “celebridade” (que na era da internet devem ser na verdade menos de quinze segundos) para dizer o que tenho dito. A morte e o esquecimento são absolutos ironistas, a quem todos nós teremos o direito no tempo devido. Motivos para rir não me faltam, sendo privilegiada testemunha da nulidade dos meus sonhos. No entanto, no meu blog eu busquei guardar o riso para mim, e deixei os sonhos para os meus leitores...


 “Onde o ruído da metrópole ainda respira lembranças de Gaia”1

            Talvez não seja exatamente necessário dizer que a inspiração espiritual para o blog venha de Final Fantasy VII. Quem conhece, mesmo que vagamente, a saga Final Fantasy, sabe que Midgar é a cidade gigantesca, futurista e decadente onde se iniciam os eventos do sétimo jogo da série. Mas a maneira como essa inspiração aparece, se é que aparece, está longe de ser evidente, simplesmente porque não há nada em meus textos que remeta ao universo desse RPG virtual. O que pode ser dito quanto a isso é que, até agora, dois temas referentes vem se repetindo, de maneira oblíqua. Um é o tema da metrópole, e do caos nela presente, que faz calar aquilo que na cidade há de frágil e de sutil. Outro tema é o da vida numa escala planetária, de como os seres estão conectados de modo circular, e de como esse conjunto vital parece ter uma unidade orgânica. Em algumas fábulas da saga Final Fantasy, principalmente no sétimo jogo da série, esses dois temas estão interligados, constituindo um aspecto importante para o desenvolvimento do enredo. Mas no caso de meu blog, a metrópole a que eu eventualmente me refiro pode ser qualquer uma, como o Rio de Janeiro em que eu habito; e o tropo da vida se comporta muito mais como um tom poético, e muito menos como cosmovisão holística a conceber o planeta como um ser vivo. Portanto, no meu blog, mesmo os únicos temas que remetem implicitamente ao universo Final Fantasy dele se desprendem para atestar uma outra visão sobra a coisa. E o fato de eu manter ainda esse universo como pano de fundo espiritual tem mais a ver com um motivo estritamente pessoal: uma afetividade moldada ao longo de anos jogando e (re)fabulando em minha imaginação os jogos da saga.

Gaia, segundo a mitologia grega, é o nome da deusa Terra, uma das titânides da cosmogonia de Hesíodo, de onde provavelmente provem boa parte das associações na cultura ocidental que insistem em ver a natureza como uma grande mãe. Não saberia dizer de que maneira essa associação sobreviveu ao longo de séculos desvinculada do mito, mas a verdade é que, seguindo a onda new age dos anos 60, Gaia se tornou para muitos (e principalmente para muitas) uma espécie de símbolo renovado de um paganismo “moderno”, numa vontade de revalorizar o que há de caráter feminino na natureza, buscando nisso alguma coisa de sagrado e de religioso. Algumas vertentes do feminismo americano contribuíram bastante para essa visão simbólica, talvez mais preocupadas com o que havia nela de potencialmente político. No entanto, Gaia, como quase tudo que provem do new age, se tornou um símbolo requentado, impossível de caber contemporaneamente naquilo que a ciência conhece da natureza2, e portanto, em vias de parecer, quando muito, apenas uma visão poética sobre o planeta, senão como esquisitice da parte de quem decide tomá-la como verdade. Eu sempre tive consciência para o fato de que tomar Gaia como símbolo da natureza era pisar sobre esses cacos de vidro, e no entanto fui levado a fazer isso principalmente por causa de Final Fantasy: Spirits Within. Por mais que os fãs da saga Final Fantasy em geral odeiem com todas as suas forças esse filme, particularmente eu gostei bastante de como o símbolo Gaia aparece nele. Achei aquele final uma das coisas mais belas e melancólicas que eu já vi no cinema, e foi nisso em que geralmente me inspirei para falar no meu blog sobre a fragilidade da vida.

Meus leitores devem perceber que, ao longo desse ano inicial, uma leitura se avultou gradativamente no meu horizonte, que foi a leitura de Nietzsche. Em verdade, na época em que iniciei minhas postagens, eu estava lendo A Gaia Ciência do autor em questão. Muito do estilo caudaloso, cambiante e nervoso do filósofo alemão fala aos meus ouvidos toda vez que eu sento para escrever alguma coisa. Mas um equívoco imenso de minha parte, que eu só descobri muito recentemente, é que a “Gaia” de Nietzsche nada tem a ver com a “Gaia” que eu tomei como símbolo de um de meus temas principais. A “Gaia” de Nietzsche é um adjetivo da expressão “gai saber”, que designa a arte de versejar dos trovadores provençais do século XI ao XIII, e que numa tradução literal seria algo como “alegre sabedoria”. O fato é que, numa emulação desse modo de escrever do filósofo, muito de minha “alegria” foi direcionada para enxergar aquilo que na metrópole gritava sem ser ouvido por quase ninguém. Esse algo, segundo a inspiração no universo de Final Fantasy VII, poderia ser a voz do planeta e da vida que nele circula, e a sabedoria, encarnada na personagem de Aeris, seria saber ouvir essa voz ancestral que a metrópole abafa em seus ruídos incessantes. Meu equívoco, se por um lado não deixa de ser engraçado, por outro não deixou de ser produtivo. Mas Nietzsche, em seu elitismo por muitas vezes insuportável, talvez não gostasse de ver-se associado a um produto da cultura pop dos fins do século XX. Penso que, se a sua sabedoria é devidamente alegre, talvez, por outro lado, ele achasse nisso uma graça, e me perdoasse muito mais ligeiramente do que meus leitores devem me perdoar. Senão, “pago-lhe com um piparote”, largo seu livro raivoso num canto, e vou-me embora novamente para Midgar.


A biblioteca virtual

            A cidade de Midgar é, com certeza, uma das locações imaginárias mais incríveis que eu ainda terei a chance de conhecer nessa vida. E o fato de que eu venho revirando-a na minha cabeça desde pelo menos meus 12 anos de idade tem contribuído bastante para esse juízo demasiado parcial. Uma coisa ao longo desses anos eu tenho descoberto, de modo por vezes amargo: não sei falar sobre a coisa senão de dentro desta afetividade ingênua. Já não me incomodo com isso, antes a vejo como um daqueles pequenos fatos que nos definem muito mais do que grandes acontecimentos. A cidade de Midgar me parece tão real na minha memória quanto o bairro em que eu passei a minha infância, a Terra dos Ipês, na periferia de Pindamonhangaba, cidade do interior de São Paulo. Nenhum deles dizem respeito à metrópole em que eu agora moro, o Rio, com seus próprios dramas cotidianos, sua sociopolítica bastante complexa, e suas premências correspondentes. Mesmo assim, quixotescamente, eu insisto em falar sobre aquele imaginário persistente, sabendo que ele inevitavelmente importa muito mais a mim do que a qualquer outra pessoa. O fato de eu escrever pelo meio de um blog, nessa mistura arraigada de relato confessional e elaboração literária, talvez me redima parte de minha ingenuidade. A quem, bravamente paciente, estiver lendo ainda essas linhas, recomendo uma viagem renovada por Midgar, não a da minha imaginação, mas aquela virtual, do jogo Final Fantasy VII, que, apesar de um pouco envelhecido por mais de uma década de existência, ainda conserva seus próprios encantos, que eu não quero estragar contando aqui.

Até onde eu consigo me recordar, existe somente uma biblioteca em Midgar, que fica localizada no 62º andar do Shinra’s Building, sob responsabilidade do prefeito da cidade, que, sem mais nada para fazer, assume a função inócua de bibliotecário. No jogo, a biblioteca em si é bastante pequenina e pouco interessante, serve apenas para resolver um puzzle que o prefeito propõe, e nada mais. Outra biblioteca, que não está em Midgar, é mais interessante, aquela da cidade de Nibelheim, onde Sephiroth perde a sanidade após dias seguidos pesquisando seus volumes empoeirados em busca de descobrir o passado do planeta. Gosto de imaginar a existência de uma biblioteca destas em Midgar, num daqueles distritos não visitados pelos personagens, cercada pelos onipresentes aparatos mecânicos e eletrônicos, e pelo contraste entre pobreza e luxo inspirado no universo ciberpunk. Seria numa biblioteca como essa que eu estaria lendo e escrevendo os textos de meu blog, um lugar excessivamente particular e ao mesmo tempo vagamente plausível, pensando a loucura toda da metrópole ao redor.

A Biblioteca de Midgar está, portanto, aberta pra visitações, e é de lá de dentro que eu emito esse correio, a quem quer que se interesse pelo assunto. Algumas poucas coisas da nossa vida persistem ao longo de anos revirando a imaginação e propondo novas aventuras e experiências. No meu caso, uma delas se trata de um mundo virtual, ao lado de uma penca de outras coisas sobre as quais eu gosto falar naqueles raros momentos de conversa amiga. Como eu já disse, algumas minudências nos definem muito mais do que os grandes fatos da vida que em geral apresentamos como “credenciais”. Tudo o que é humano me interessa, e no entanto eu tenho de ser parcimonioso nas minhas escolhas. E eu prefiro relevar aquilo que, em mim e nas outras pessoas, inesperadamente me sorri com um sorriso de criança.


1 – Esse era o antigo subtítulo do meu blog, desde seu início em janeiro de 2011 até fevereiro de 2012, quando então o subtraí, sem nenhum dano, como se pode notar, para o tecido do espaço-tempo em nossa remota galáxia.

2 – No entanto, quanto a isso, talvez valha a pena frisar que o cientista ecologista britânico James E. Lovelook tem descrito, com uma licença poética enorme, os sistemas integrados do planeta a partir de sua “Hipótese de Gaia”.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ano novo, novo velho


Eterno retorno.

Eis mais uma expressão daquelas poucas que conseguem sair do terreno mais ou menos inóspito do vocabulário conceitual de determinado autor para adentrar as metrópoles populosas do senso-comum, onde sua relação com a origem é inevitavelmente transformada. Nas obras de Nietzsche, “eterno retorno” costumava ser um termo bastante ambivalente, sujeito às oscilações de humor de alguém que integrava a leitura e a escrita aos processos metabólicos com que o corpo ingere e evacua palavras. Em geral, referente ao modo circular como os fenômenos naturais costumam ocorrer, obrigando o fenômeno vida a se comportar também circularmente, em função de ciclos. E a aparecer eventualmente no palco da História com as mesmas máscaras de outrora, e de outrora, e de outrora, indefinidamente a repetir os mesmos gestos, que talvez um certo positivismo gostaria de ver superados pelo aprendizado contínuo e cumulativo das experiências do passado.

Mas o que retorna eternamente em Nietzsche é menos o sentido negativo como os viventes parecem infinitamente estúpidos para aprenderem com a história de seu próprio sofrimento, e mais o ensejo de afirmação da própria vida, em sua luta violenta com a natureza, da qual ela emerge como epifenômeno potencialmente raro e instável, e na qual naufraga inexoravelmente após o tempo que lhe for devido. O que retorna eternamente em Nietzsche é um demoniozinho a lhe perguntar se ele ama suficientemente a sua vida a ponto de, se for lhe dada a oportunidade, repetir indefinidamente os mesmos gestos, os mesmos erros e acertos, os mesmo prazeres e sofrimentos, que o trouxeram todos até ali naquele instante decisivo, após o qual a mesma repetição se dará eternamente até o infinito, como um destino dado pelos deuses como prova trágica do amor que se tem pela vida, que precisa ser forte o bastante para suportar tamanha provação.

Em vista desse período de ano novo, em que as pessoas costumam estar mais sensíveis ao que a vida tem de ciclo e de repetição, em que as pessoas costumam sair para se reunirem e fazerem muito barulho e prometerem muitos blefes, acumulando reflexões sobre o que ficou do tempo passado, projetando melhoras para o futuro imediato ou distante, e principalmente se esquecendo de todos esses cuidados logo em breve, num rito que parece tão exato quanto o fato de que o sol retornará amanhã a iluminar a nossa santa ignorância, gostaria particularmente de retomar aquilo que a vida tem de circular, a fim de ver alguma espécie de beleza nisso.

Se olho para atrás de minha vida, com certeza que enxergo uma série de asneiras sem as quais eu teria muito bem passado até chegar a esse instante em que é feita uma contabilidade dos meus dias. Teria muito bem passado me importando muito mais com quem merece minha consideração, ignorando mais quem simplesmente me iguala ao quase nada, amando menos quem soberanamente me reserva apenas a indiferença, odiando muito menos quem perde seu tempo se amesquinhando diante de mim. Teria muito bem passado sem a insistência em topar minha canela naquilo que é monolítico em mim e nas outras pessoas, numa certa burrice com que o animal político se acha muito inteligente perante os outros animais, numa certa arrogância da vontade de que algum modelo particular venha a ser modelo para todos os outros, numa certa hipocrisia com a qual os padres de plantão pretendem perdoar os nossos pecados, sem antes viverem em toda a extensão e profundidade a verdade de suas palavras. O meu passado, como o de todos, é pródigo em parvoíces sem as quais a vida poderia muito bem passar, dançando e cantando no ritmo e na melodia que lhe forem devidos a cada instante novo, novo velho a se repetir indefinidamente até que a mesma vida não caiba mais em si, e transborde pela encosta da idade e do esquecimento.

No entanto, seja o que for que tenha passado, já passou, e passará de novo se assim for necessário, e não passará nunca mais se o destino não pedir, fazendo seguir a lida da natureza rumo ao seu próprio rumo, cujo único ensinamento que TALVEZ dela possa ser tirado seja o aprendizado da indiferença para o que diante dela passa. Apenas um TALVEZ muito incerto e muito vago, visto que nesse ano novo, como em praticamente todos os anos novos, a grande maioria dos meus semelhantes está mais preocupada com o que fez, deixou de fazer, e provavelmente não fará no seu futuro próximo, adiando a pergunta decisiva da vida para TALVEZ o próximo ensejo menos premente, TALVEZ para nunca mais. Mas é claro que eu não vou me aproveitar da circunstância para moralizar meus semelhantes, justamente porque nesse ano novo eu venho sendo um pouco menos burro para aprender o exemplo da natureza, e tenho guardado o ensinamento de sua suprema indiferença, do seu supremo sorriso, dos seus supremos passar, dançar e cantar...

E então me surge o demoniozinho nietzscheano a me perguntar se eu amo suficientemente a minha vida a ponto de repeti-la até o mais ínfimo detalhe, até o mais sutil suspiro, choro e riso, até a mais remota lembrança de dor e de alegria. Ouço na rua repiques de fogos-de-artifício, que vão se calando pouco a pouco ao longo do dia, cansando-se de celebrarem barulhentamente o eterno retorno da vida que novamente se reinicia. Mas eu não quero calá-los nunca mais, e pretendo carregá-los dentro de mim silenciosamente para todo o sempre, com explosões inesperadas e coloridas, com assentamentos de fumaça e ovações e abraços e beijos. Talvez eu tenha demorado demais para dar a resposta decisiva, mas em meus vinte e quatro anos de idade mesmo que tardios já não tenho mais nenhuma dúvida. Amo sim a vida... e que venha tudo novamente!