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sábado, 9 de junho de 2012

A morte do Pequeno Príncipe


O Pequeno Príncipe existe como para cumprir um destino trágico em nosso mundo. Desde sempre sua finalidade é simplesmente morrer. Quando a infância aparece diante de nós e nos ilumina de graça, nossa reação condicionada é ignorá-la e limitá-la a seu nicho específico. Prescindimos da infância para depois erguer em sua homenagem um altar chamado nostalgia.

O Pequeno Príncipe sai de seu planeta por amor à rosa, seu objeto singelo, seu capricho, sua razão de ser. Nessa viagem, faz pausas em planetas habitados por adultos em suas representações neuróticas, afeitas à vulgaridade do cotidiano. O amor à rosa da infância é incapaz de ser transmitido ao mundo adulto justamente porque está além ou aquém de palavras. Dizer o amor é esterilizá-lo, é pô-lo numa cela abstrata de ideias, estranha à sua obviedade singela. Cada adulto em seu planeta é um mundo com claras limitações. O planeta do Pequeno Príncipe é limitado também, mas, ao contrário dos adultos, em sua pequenez não há a pretensão de abarcar o universo numa lógica qualquer. Cada adulto, de dentro de sua redoma planetária, parece ter uma palavra final e absoluta para a infinitude que o engole. Todos são tão completamente cheios de certezas, que é preciso minimamente a interlocução com uma criança para que se revele sua ridicularidade relativa. Mas o Pequeno Príncipe nada tem a dizer a essas pessoas; ele recorre sempre ao silêncio, à não-palavra, à perplexidade, ao mistério: isso que toda infância tem de mais sagrado.

A viagem do Pequeno Príncipe deságua na Terra, essa imensidão de adultos, nem por isso menos limitada. Quem há de, nessa imensidão, se solidarizar com a história de uma rosa singela num planeta distante? Nosso mundo realista varre a fantasia para debaixo do tapete, em nome de inumeráveis pragmatismos. Apenas o narrador-personagem de Saint-Exupéry trava uma amizade ligeira com a infância, uma amizade melancólica como que pressentindo o fim iminente, cheia de saudades do que já se vai perdendo. Porém, mesmo ele já não pode ajudar o Pequeno Príncipe, chegou tarde demais à fonte de toda graça da vida, também se tornou nostálgico. O deserto é o que resta ao Pequeno Príncipe, e lá é onde ele vai encontrar a serpente. O ser da língua bífida, que diz coisas sobre as quais não se pode confiar plenamente. Ao fim de tão longa e desesperançada viagem, sua mordida é a única chance de fazer o Pequeno Príncipe voltar ao seu planeta pequeno e fantástico, voltar ao seu amor à rosa. Sua mordida dará fim a essa jornada inútil no reino dos homens úteis, com o preço evidente da morte.

Na correria de nossas vidas importantes para nós mesmos, não percebemos os pequenos príncipes que nos rodeiam, iluminando a vida de outros sentidos. Quando eles esmorecem, atribuímos sua existência a algum ideal passado, sempre distante de nós. Resta a todos aqueles que viram algum pequeno príncipe passar por essa terra um gosto ligeiro da infância que vamos perdendo. A morte do Pequeno Príncipe é uma necessidade para se estar no mundo brutal a que nos acostumamos. Um mundo sem graça e desonesto, ausente do amor à rosa por quem daríamos a vida.


Nota: Escrevi esse texto no final de ano de 2009, após a leitura do referido livro, no meio de uma de inumeráveis depressões. Portanto, peço que tenham pena, não de mim, mas do resultado infausto que aqui se encontra. Perdoem o seu tom que, não raras vezes, resvala no moralista, e cai no ledo engodo de idealizar a infância sob os olhos de um burro velho. No entanto, deixo o texto por aí pois creio que a leitura realizada nele não é de todo vulgar. Também, não é para tanto: a um céu enigmático e melancólico, qualquer olhar lançado se depara com alguma de suas incontáveis constelações.