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domingo, 2 de setembro de 2012

O horizonte comum entre Cesário Verde e Alberto Caeiro


Talvez seja possível traçar uma relação entre Cesário Verde e Alberto Caeiro, para além da ligação mais imediata que se pode notar entre eles. Ricardo Reis, num prefácio a uma reunião dos Poemas Completos de Alberto Caeiro, diz que a obra em questão é: “dedicada por desejo do próprio autor à memória de Cesário Verde”. O mesmo Alberto Caeiro, em ilustre passagem do seu “Guardador de Rebanhos”, escreve: “Ao entardecer, debruçado pela janela,/ E sabendo de soslaio que há campos em frente,/ Leio até me arderem os olhos/ O livro do Cesário Verde.” Este é o único autor citado por Caeiro em toda sua obra, e a única leitura referida de maneira positiva. Essa escolha não deve ser fortuita, e o objetivo deste pequeno ensaio é tentar elucidá-la de alguma forma.

      Para começar, basta dizer que a poética de Cesário Verde é dificilmente classificável no contexto da literatura portuguesa. Por um lado, Cesário Verde se vale de um sentimentalismo eminentemente romântico, centrado nas sensações e impressões que um sujeito particular vive perante certas experiências. Por outro lado, os temas trabalhados por Cesário Verde fogem completamente à estética romântica, com seu prosaísmo e coloquialismo que o aproximam extraordinariamente dos modernistas. Cesário produz imagens citadinas marcadas por um realismo filtrado pelo estilo direto e caleidoscópico de sua poesia. Seu trabalho composicional apresenta resultados que podem ser comparados aos das artes plásticas, em sua tentativa de criar paisagens da vida cotidiana. Portanto, a poesia de Cesário está voltada para o sentido da visão, encarnada na figura do flâneur, que perambula pela cidade registrando suas impressões.

         Alberto Caeiro, por sua vez, produz um projeto poético e existencial que traz à tona a primazia das sensações e das percepções no contato com a realidade. Caeiro pretende, de maneira indireta, fazer uma crítica radical ao hábito intelectual metafísico que de certa forma sempre esteve no horizonte do pensamento ocidental. Sua poesia representa uma alternativa a esse modelo de pensamento, com seu retorno ao primitivismo pagão e com sua semelhança à ingenuidade infantil. Para realizar tal projeto, Caeiro se vale de uma linguagem polida e coloquial, extremamente próxima à prosa, sem construções sintáticas complexas e bastante referencial a elementos da natureza. Entre os sentidos aguçados do poeta Caeiro, a visão está sempre em primeiro plano, como sendo o sentido mais imediato de que o ser humano dispõe. Para Alberto Caeiro, é como se a visão fosse o maior atestado de um mundo não metafísico, como expresso no verso: “Pensar é estar doente dos olhos”.

          Afora as diferenças estilísticas mais evidentes, podemos apontar para o fato de que as duas poéticas encenam um primado do sentido da visão, como se esta fosse a perspectiva mais privilegiada sob a qual o homem se relaciona com o mundo. Para Cesário Verde, é importante ao poeta que, em sua condição de flâneur, ele tenha os olhos sempre atentos a cada elemento da cidade que possa ser transformado em matéria de poesia, numa abertura quase total às diversas sensações visuais que a cidade é capaz de provocar. Em Alberto Caeiro, a visão é a experiência central do sujeito, porque dá sentido à superficialidade real do mundo, e privilegia o contato experiencial do homem com as coisas, em contraposição à irreal profundidade metafísica do mundo, tão endossada pela história do pensamento.

          Além disso, o que os dois poetas têm em comum é a consciência de que, por mais que a visão seja um sentido privilegiado, ela não deve servir de instrumento para edificar uma determinada moral. Os dois poetas são amorais, no sentido em que eles não transformam sua visão de mundo num modelo a ser seguido por todos os outros homens; antes, sua perspectiva é somente mais uma, entre tantas possibilidades. Cesário Verde não julga a miríade de homens que habita a cidade que ele pinta em seus versos: sua cidade é como um organismo estável, funcionando da maneira como deve ser, com suas virtudes e mazelas próprias. Alberto Caeiro não transforma sua visão numa cosmovisão, pois sabe humildemente que sua forma de ser e de ver o mundo é simplesmente natural, como é natural as outras formas de ver e ser.

           Por fim, imaginando a possibilidade de considerar as poéticas de Cesário e Caeiro como uma continuidade, podemos dizer que Caeiro encontrou em Cesário um prenunciador de sua singular poética. Para poder afirmar um contemporâneo primitivismo pagão, era preciso encontrar um poeta que estivesse irrestritamente aberto às sensações que o mundo moderno oferecia, com suas doses cavalares de experiências contraditórias. Cesário Verde era esse poeta, figura estranha no seio da literatura portuguesa. Caeiro se aproveitou do seu protagonismo e radicalizou a experiência de abertura sensitiva. Transformando-se num mestre poético cujo projeto ainda repousa como promessa irrealizada. Enxergar o mundo sem os preconceitos que assombram atavicamente nosso olhar.


Nota: Apresentei esse texto como trabalho de conclusão da disciplina Literatura Portuguesa III, ministrada pelo querido professor André Ramos no primeiro semestre de 2011, no Instituto de Letras da UERJ. Creio que fui generosamente avaliado em função desse trabalho. No entanto, deixo-o aí para olhos curiosos e desocupados. Mas não sem a ressalva do próprio Ricardo Reis: "Não se pode comentar, porque não se pode pensar, o que é direto, como o céu e a terra; pode tão-somente ver-se e sentir-se."
          Passo por essa vida vendo e sentindo, com a íntima convicção de que dizê-lo é, de certa forma, falseá-lo. Há os que falseam magnificamente, como um Fernando Pessoa, mas graças a Deus esses são uns poucos. Pelo menos sobra mais céu e mais terra para mim, e também a sensação de uma inexorável solidão.

7 comentários:

  1. obrigada pelas informações sobre o grande caeiro e cesário.ajudo me muito...... e a relação feita está ótima..

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  2. Obrigada pela partilha. Gostei muito.

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  3. Sem margem de dúvida que era algo como "isto" que procurava. Parabéns, vossa Excelência, sem ironia!

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  4. Obrigada. «O saber só faz sentido quando partilhado." É uma grande verdade, mas, infelizmente, ...

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  5. Muito interessante. Pergunto-me como conseguem as pessoas retirar tantas ideias das minhas confissões ao papel...

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  6. Se o Mestre visse a metafísica desta comparação faria um sorriso irónico.

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