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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Pequeno suspiro biográfico


“Uma esteira de espumas... flores perdidas na vasta indiferença do oceano.”
Castro Alves

Após pouco mais de vinte e quatro anos de alguns sonhos atrofiados e esperanças mutiladas, o autor deste blog se cansa de se achar um destino, e resolve apenas encenar um personagem de si mesmo. Nada de novo, claro. Mesmo que quisesse, sua atitude não denotaria piedade, porque, antes de mais nada, apesar da atrofia e da mutilação, houve sonhos e houve esperanças.

Dos inumeráveis fatos de sua vida sem grandes fatos, ele reconhece apenas um como decisivo, e justamente aquele que denuncia sua enorme fraqueza. Mal saído de uma infância num bairro pequeno cheio de ruelas e terrenos baldios inexplorados, ter dito sim reverentemente quando deveria sustentar um não, contra tudo e todos. À custa disso, longos anos se passaram perseguindo uma escolha alheia, refratando nos outros a culpa que cabia tão somente a si mesmo. Pouco a pouco, o surgimento da má consciência de uma determinação externa, pesando contra a liberdade que é preciso ao menos imaginar ter para ser qualquer coisa. Foi preciso encenar uma irresponsabilidade e uma afirmação para aliviar a carga dessa alienação acumulada durante tanto tempo. A irresponsabilidade: estudar Letras na UERJ; a afirmação: ser escritor.

Mas já nesses atos tardios estava suficientemente afastado daquele interdito não para se querer ainda um destino. Ele pressente isso agudamente ao longo dos anos como universitário. Foi preciso uma carga quase autodestrutiva de ironia, e a leitura mais ou menos às cegas do rastro interminável de Nietzsche, para trazer à tona plenamente a consciência de que um destino não se faz por afirmação. E enquanto sua escrita efetivamente não vem, ele conta suas atrofias e mutilações para minimamente tentar entender para onde fugira o tempo perdido que o seu imaginário deveria buscar resgatar.

Agora, ele cultiva o paradigma do pé atrás, e a partir disso começa a ter a generosidade de não julgar o próximo com a mesma pressa costumeira com que se agitam guerras ao seu redor. Ele sabe vagamente dos seus abismos, e do abismo que é o outro, apesar de começar a ver uma certa regularidade nas máscaras que as pessoas apresentam como credenciais. O rumor do mundo lhe parece burburinho indistinguível, a cuja exposição continuada já se sabe que resulta em nada menos do que tédio violento. Mas fora do rumor e ainda perto dele é onde pretende estar para evitar o ensimesmamento que é tão pouco produtivo e ainda menos saudável. E a propósito da saúde, seguindo os conselhos de seu mestre, entende que todos os problemas da filosofia se resumem e disfarçam na questão da nutrição, e crê que o único direito humano inapelável é o direito de não passar fome, não importa de que, mas principalmente de comida. Ele agradeceria a Deus pela sua barriga cheia se Deus existisse, mas na falta do transcendente agradece mesmo ao boi que lhe doou o bife para este momento, e não maldiz o verme que o comerá depois da morte. Fora desses mínimos rituais, agora ele sabe que na vida pouco mais importa, e que se esquecendo disso muita gente gasta nervos de maneira inútil, perdendo calorias que talvez pudessem engordar um ideal menos subnutrido de humanidade, com que os dias de hoje se acostumam tão precipitadamente.

No seu silêncio ele perdoa tudo aquilo que sufoca seu horizonte, e promete nada menos que o mundo inteiro por conquistar, apesar de tudo. Sabe de antemão ser impossível tal conquista, e no entanto a projeta como única possível dignidade para adiante de seus vinte e quatro anos cheios de sonhos atrofiados e esperanças mutiladas. O suicídio espreita a cada nova e velha esquina, mas ele vê-se vivo ainda hoje e concebe que a vida é dádiva, dada pelo acaso universal para não ser esperdiçada com a dúvida sobre seu valor, visto ser ela um vazio preenchido por valor que só se afirma pela fé, imanente no desconsolo com que o ser humano se acha no mundo e apesar disso insiste em caminhar sobre seus próprios pés.

Esse é o pequeno suspiro biográfico de uma criatura em formação, que talvez pouco importe justamente por pouco fazer falta, como toda criatura e toda biografia afinal. Suspiro no duplo sentido de processo respiratório e anseio pelo sublime, que nos dois casos não se bastam em si, como partes de um ciclo maior que se repete interminavelmente desde e para sempre. Agora falta a expiração, em que o ar gastado foge para fora do corpo, e o sublime se embate contra o oco da natureza. Gerando um vento que mistura e despedaça as palavras organizadas em texto, que um dia pretenderam referir à vida. A parte que faltava do ciclo a ser completado, e repetido indefinidamente para além. Deixando rastros de pequenos nadas e pequenos milagres, que se distinguem apenas na ambição e no poder de serem um destino, e se misturam na poeira do tempo de que nada pode ambicionar fugir.

sábado, 29 de outubro de 2011

Diário de bordo




Estou parado já não sei há quantos anos neste porto, que pela assiduidade transformou-se em minha casa. Não há mares dobrando a vista, não há navios. O porto em que me demoro só tem cais para o espaço, espaço-porto. O horizonte é todo o universo, e o universo é infinito.


O longo tempo de uma espera tende a verter a esperança em nostalgia. E em verdade eu já nem sei se sonho acordado, ou se minha vigília traduz alguma espécie de lucidez. Nunca vi nave aqui aportando nem zarpando, nem descobri, nos outros moradores desse porto, o mesmo interesse que o meu em siderações. Talvez nenhuma nave nunca chegue ou parta, mas no meu silêncio mora desde sempre uma janela apontada para estrelas. Para lá é que minha atenção converge, e não para a massa caótica de fatos com que a vida na terra se acostuma, no esforço de sobreviver. Penso até que não sou originário deste mundo, pois os brilhos no céu como que guardam a promessa de retorno a não sei que antiga casa. Algum outro porto perdido no espaço-tempo, que não é este aqui em que me encontro.


Inefável certeza, a de haver pisado em outros solos, de outros planetas, de outras galáxias, muito antes de estagnar-me neste canto tedioso do universo. Minha memória não guarda lembranças, guarda apenas a inclinação, o impulso, a assimetria. Guarda apenas o atavismo de estranhar que as coisas sejam como já estão dadas, um ponto de chegada para tudo aquilo que foi, e não apenas um mero ponto de partida. Acostumado com o movimento celeste, meus olhos pousam para as demandas da terra, no intuito de encontrar a mesma dinâmica. Mas a terra é um pântano de estrelas mortas, e o que nela se move apenas reproduz a inércia de incógnitas forças. Deus talvez quisesse renascer no meu olhar, solicitando que o mundo fosse recriado novamente. Mas ele deve ter exilado para algum outro planeta, pois tudo que aqui restou traz a marca de uma indefinível ausência.


Debaixo do céu na noite fria e estrelada, a terra se parece com alguma coisa velha, alguma coisa gasta, corroída pelo tempo, e pela miséria de já ter visto tudo o que se havia para ver. Mas o mais triste é saber que os astrônomos já deram até nomes para todas as estrelas, para todas elas, para todas que eu consigo ver com meus olhos nus. E eles ainda comemoram quando seus instrumentos descobrem um novo brilho no céu, como se já não fosse suficiente mistério a existência de apenas um astro solitário, navegando na imensidão absurda do cosmos.


Apenas um astro solitário, e para além dele a escuridão, o além e o desconhecido. Apenas um astro solitário, e sobre ele a apavorante diversidade da vida, a escandalosa evidência de que a natureza revela vontade. Epifenômeno brotado de um mar de esterilidade e caos, querendo, pedindo, implorando por nascer, e deveras nascendo, mas também morrendo. Quintilhões de criaturas que sentem, que choram, que gozam, que lembram, que esquecem, que sofrem, e cada um desses mínimos impulsos com o seu valor, com o seu direito à existência. E no seio borbulhante disso tudo esconde-se o além e o desconhecido. E nesse seio fervilhante, bilhões de animais humanos correndo atrás de seus supostos interesses, e todos eles crescendo, maturando, envelhecendo, todos eles sonhando e chorando, todos eles sofrendo. E cada um deles colhendo de si alguma singularidade, relâmpago de impulsos e desejos traçado na noite dos tempos, dizendo no mesmo gesto olá e adeus para cada instante. Bilhões de animais humanos, e entre eles há este indivíduo, que pensa que sabe e fala sobre tudo isso, calculando singularidades em cifras, no centro indeterminado de toda inquietação. E dentro deste indivíduo há mais além e mais desconhecido, pulsando por respostas para todas as perguntas já feitas, e para aquelas que ainda serão.


Tanta exuberância, tanta ubiquidade, e no centro disso tudo a sensação de que nada pode ser bastante. Ainda faltam as estrelas, sempre faltarão as estrelas, e dar nome para elas é apenas um disfarce para o espanto. O céu que hoje contemplo não é o mesmo que eu tinha visto ontem, assim como o céu de agora não é igual ao de um minuto atrás. Por isso, aceno com piscadela a cada novo brilho que encontro, talvez com a esperança de que esse cumprimento soe como familiar. Será que alguém aí em cima me reconhece? Será que alguém aí sabe quem eu sou? Sabe o que eu devo fazer com essa coisa chamada existência? O curto tempo de passagem entre o meu oi e o meu adeus, no meio do qual inúmeros disparates acontecem, talvez apenas disparates aconteçam. Alguém aí sabe, alguém aí pode me dizer?


Talvez eu seja alguma espécie de cosmonauta. Dedicado a investigar a vida terrestre, disfarçado momentaneamente numa máscara de vida terrestre, esquecido da gravidade da antiga missão. Talvez a minha nave tenha se despencado na entrada do planeta, explodindo em infinitos e raros pedacinhos, ao longo da ampla superfície. Talvez apenas me reste recolher esses fragmentos, um a um, a fim de reconstruir a nave despedaçada, e encontrar a tão ansiada via de retorno a casa. Talvez, no meio desse laborioso intento, eu fosse lentamente recordando, no milagre da anamnese, todos os minuciosos passos que me trouxeram até aqui. Talvez os segredos de tal íntima reminiscência afinal justifiquem todos, todos os mínimos, os mais absurdos, os mais desencontrados passos que foram dados, e com essa revelação eu possa retornar para a casa feliz. Sim, talvez... apenas um simples e improvável talvez...


Debaixo da imensa abóbada do céu noturno, enquanto o resto da vida dorme, se acalma, silencia, meus sonhos despertam em desvario. Parado neste porto, espaço-porto, cujo horizonte é todo o universo, exprimo em temerária linguagem o pasmo de afinal estar aqui. Trago comigo rastros de cheiros, gostos, sons, visões de um outro mundo sem correspondência com este, e agora quero saber o que essas sombras significam. Capitão incógnito, cuja nave naufragou no mar dos cosmos sem deixar vestígios, divulgo meu diário de bordo, com a esperança de que seja encontrado alguém de semelhante destino. Igual minimamente na inclinação para a estranheza, parado nalgum porto chamado também de casa. Irmão no desconsolo de nunca retornar para aquele lar indefinido, onde éramos talvez deveras irmãos.


O céu, o universo, o infinito, cabem todos dentro de um coração, sem que ele próprio possa caber em si mesmo.

domingo, 25 de setembro de 2011

Acasos sem causa


Ela foi embora definitivamente. Não tinha pressa, nem lerdeza, não tinha desleixo, nem diligências, não tinha humildade, nem soberba. Apenas passou, naturalmente, com suprema e involuntária discrição. Dobrou a esquina e continuou o passeio, deixando rastros que eu não ouso perseguir. Meu último ato perante ela foi um simples e conformado esticar de pescoço, me apoiando na moldura da janela de minha casa. Janela atrás da qual contemplei outrora toda a trajetória da passante pela rua que nos fez comuns sob um mesmo destino.

Mas o que tínhamos efetivamente de comuns foi eu tê-la amado perdidamente e ela ter sido indiferente. Cumprimos o destino dado por sabe-se lá que deus casual, ao qual paguei com duas ou três lágrimas de um choro quase simulado, e ainda achei bastante. Queria ao menos que a estória terminasse com lição moral, mas nem isso foi possível. Perdi meu tempo vislumbrando transeuntes, e quanto a isso não há vingança que me valha. A tarde já começava a embaçar em tons cinzentos, e eu decido-me sair por aí afora, de preferência em esquina diversa daquela em que a menina sumiu.

Mas a cidade não é um mar de novidades para um olho curioso. A cidade é simplesmente um mar, mais repleta de coisas para ver do que de olhos para olhar. No meio desse caos, quem poderia resgatar alguma singularidade? As ruas são igualmente repletas de gente igual na aparência. Igual na aparência não porque não são singulares individualmente, mas porque são gente, e portanto massa indistinguível. Eu também me incluo, apesar de meu pretenso olhar deslocado. Os transeuntes se cruzam sem olhos para o outro, julgando que sua imagem é mais importante que o seu vislumbre. Mas o outro também pensa o mesmo, e então a cegueira termina empatada. O problema das ruas é que elas são feitas para se passar, e pode acontecer o acaso curioso de alguém nos observar de alguma janela e nós nem ao menos notá-lo. Alguém que teve a consideração de nos distinguir da massa fluente, e que perdera seu tempo nesse esforço inútil. Pensando nisso, paro na calçada e observo os prédios ao redor. Talvez eu tenha pensado errado, pois não há ninguém de olhar solidário dedicado para mim. No máximo, há uma velhinha me visando com desprezo, talvez imaginando alguma coisa maldosa a meu respeito. Continuo a andar pelas ruas, procurando alguma coisa que procurar.

Algo curioso nessas ruas são aqueles bares com vitrines. Vidro transparente que lembra um pouco janelas, mas que são vislumbres de via dupla, ao contrário das janelas. Os clientes do bar são tão contempladores quanto contemplados, e nisso é que está o barato das vitrines. Então, se há no bar aquele grupo de amigos prodigalizando alegria, sabemos que além de se alegrarem espontaneamente eles também querem divulgar a imagem de sua satisfação e observar as reações ensejadas pela imagem. Também é assim com aqueles casais de pombinhos, que não se bastam com se amarem intimamente e precisam propagandizar o seu amor. Gosto de me deparar com essas lojas de prazer humano, que também são igualmente repletas de gente igual, mas que começam por encenar um microcosmo da intimidade. Intimidade essa que não se contenta com a pura e simples privacidade, e precisa vir à tona dos comércios humanos para exibir a sua máscara de felicidade.

Mas quase ninguém não costuma reparar que existem aqueles bares discretos, sem vitrines, cuja entrada é cerimoniosa e gradual. Estaco na frente de um desses estabelecimentos singelos, e começo a imaginar a sua clientela. Neles, o comércio humano deve se fazer com outros valores que não aqueles da propaganda descarada. Pessoas se reunindo em torno de alguma virtude ou vício comuns, pouco se importando com o rumor alheio que circula pelas ruas. Frequentar algum desses lugares deve ser uma outra forma de inquilinato, compartilhando uma casa que parece ser de todos e ninguém, sempre aberta para quem se permitir cumprir algumas poucas formalidades. Quantos encontros previsíveis e imprevisíveis devem ocorrer nesses lugares! Quantos amores atados e quebrações de pau devem acontecer! Talvez em algum desses bares eu encontrasse aquela menina passante, e nesse encontro ela tivesse algo mais a me reservar além de sua indiferença. Mas não ouso entrar no estabelecimento, deixo a questão em aberto, e continuo a percorrer outras ruas.

Mas qual não é minha surpresa ao ver a questão solucionada numa vitrine de bar luxuosíssimo... A minha antiga passante, devidamente acompanhada, prodigalizando sorrisos, tão pouco discretos quanto verdadeiros. Juro que foi um vislumbre inesperado, pois talvez eu esperasse mais daquela menina, talvez fizera dela uma imagem do que ela não podia ser. Sei apenas que aquele deus casual que tanto me ironiza novamente me pregava uma de suas peças, e fazia do meu passeio descompromissado um novo inferno particular. Acho que exagero, pois o meu ciúme era muito mais encenado do que assumido visceralmente. Caso contrário, eu tacaria um pedregulho na parede de vidro, picharia muros alheios com mensagens obscenas, gritaria pelas ruas palavras de ordem, atearia fogo em monumentos públicos. Porém, eu não sou um rebelde sem causa. Causa eu efetivamente não tenho, mas ao menos não sou rebelde. Visto isso, volto para o ponto onde comecei a minha estória, pago o acaso com mais duas ou três lágrimas, acho a moeda excessivamente cara, e retorno para minha casa.

Fecho a janela, tranco todas as portas, enclausuro-me no quarto. Nada de interessante a fazer senão inventar algum interesse. Escrevo algumas linhas, com a intenção de implodir o mundo, mas elas devêm impotentes. Acabam resultando neste texto, que no máximo atesta o meu ridículo desnudado, magricelo e feioso. Desisto de continuar, deito na minha cama e tenciono dormir. Faltou orar para o meu deus sacana, mas acho que ele não se importa com minha preguiça. Não há experiência, não há aprendizado, não há esperança. Também não há remorso; quando muito, há um gosto amargo e um riso debochado e secreto. Fecho os olhos e as luzes se apagam junto com o meu cansaço. Devo acordar no dia seguinte, e melhor seria não guardar lembrança nenhuma de nenhum sonho.

sábado, 3 de setembro de 2011

Noite, veredas, clausura, devir e aurora


I

Na noite eterna de insônia em que se estende meu tempo, guardo reminiscências de um sono que nunca houve. Sempre foi tão bom dormir, quando o sonho era tudo... Agora, a minha lucidez é tão completa que não sobra nenhum ânimo para a sensatez. As minhas palavras são luzes de velas bruxuleando enquanto o Sol não quer chegar. Nunca vi o Sol, mas imagino que ao menos ele exista, pois sinto o rumor de um dia caloroso nas dobras de meu sono reminiscente. Sonho a aurora que redimirá minhas toscas palavras, dando-lhes o merecido silêncio no apagar de todas as velas.

II

Não sei de onde vim, muito menos para onde irei. Despertei subitamente em meio à viagem, no meio da estrada, portando em mãos uma mensagem para um destinatário desconhecido. Tento lê-la, mas seu código é indecifrável para mim, e em última instância nem me diz respeito. Um pouco mais à frente, a estrada se bifurca em veredas, as quais mais à frente também se bifurcam, e assim até o infinito. Começo desde agora a penhorar a minha alma em minhas escolhas, mas desde sempre sei que nunca me salvarei. Apesar de tudo, creio na transcendência.

III

Seria preciso ainda uma última vez inventar a consciência da escravidão para só então fazer surgir a necessidade de liberdade. Antes disso, a minha imobilidade era toda potência, tanto capaz de não legar nenhuma revolução quanto capaz de legar todas elas. Mas quando circunscrevo a minha clausura, aí percebo que estou preso, e talvez nunca mais saia dessa condição, se não aprender também a inventar a liberdade.

IV

Mas não é de uma só vez que se nasce e se morre, todas as horas guardam o espanto pelo novo e a extrema despedida. No seio de Gaia os seres estão indo e vindo interminavelmente, e suas formas renovam a cada instante o apelo de vida, assim como se degeneram no mesmo esforço desse sopro anímico. Individualmente, só resta afirmar o milagre que é a permanência, sabendo-se que a ruína espreita a cada novo dobre de sino. Em relação aos outros, nos resta cumprimentá-los pela novidade de sua presença, terminando com um longo abraço que celebre a seguida e indefinida ausência. E assim fazermos dizendo oi! e adeus! no mesmo gesto, sem saber o que será do próximo instante, sempre incerto. Mas sabendo que um dia nos encontraremos todos para todo o sempre no seio de Gaia.

V

Deus sorriu no sorriso presente de uma criança. Acho que eu fui a única testemunha do absoluto, e tenho a responsabilidade de não ignorá-lo. Num mundo de solidões que lado-a-lado se arraigam, ninguém espera de ninguém o mínimo ato de redenção. Mas eu guardei o riso daquela criança, e é isso que eu agora lampejo no meu sorriso. Não quero recompensas, agradecimentos nem distinções. O que é dado de presente é pra ser guardado no fundo da alma. Até que emirja espontaneamente o mimo, da maneira natural que deve ser. Essa é a única forma que eu encontro de honrar o gesto com que fui salvo, perante Deus. A minha forma de ser criança por trás de um rosto cheio de rugas. Um sorriso dado para o infinito, salvando o mundo desde sempre condenado.

sábado, 6 de agosto de 2011

Pobre esmola


“Quando o fim se aproxima, já não restam imagens da recordação, só restam palavras. A pobre esmola que me deixaram as horas e os séculos.”
Borges, “O imortal”, O Aleph

Sofro já de uma velhice antecipada, pois começo a alimentar aquela clássica antipatia pelas imagens, inclusive as do meu passado, que me vêm atenuadas por camadas de esquecimento e saudosismo. O futuro eu nunca saberei o que seja, mas sei que se parece com uma espiral eidética de sonhos que ainda exalam do meu corpo jovem. O presente é um palco onde se encena a tediosa luta pela salvação da alma contra o seu comércio pelos mercados do mundo. Eu sei que também vou morrer, e espero que não tarde tanto ao ponto de me faltarem até as palavras, quando já nem mais sobrarem as imagens na cegueira. As palavras são o que ainda e sempre me sustentam, e por elas eu amargo um triste amor ingrato.

Ingrato amor porque é assim que deve ser, visto a natureza desses seres infiéis. Se as imagens gozam a suspeita de não passarem de um simulacro arquitetado para entorpecer nossos sentidos, as palavras não nos cansam de implodir sua promessa de verdade, revelando que por baixo delas não havia nada essencial, estrutura oca sempre a nos remeter a outros repositórios de vazio. Infiéis não porque nos traem, mas porque são sinceras até demais, jogando violentamente contra a nossa cara o absurdo que é a esperança de verdade, esse sonho íntimo que alimentamos em busca de nos afirmar no mundo. Infidelidade contra aquilo que nos faz humanos, contra a máscara que é preciso vestir para se identificar com algo, algo que pouco importa qual seja, importa apenas que seja encenado segundo as regras mais ou menos fixas de um jogo convencional. Amo as palavras porque elas estão sempre e traiçoeiramente recriando aquele jogo, e esse ofício marginal cabe muito bem para o espírito nômade de alguém que é incapaz de vestir satisfatoriamente qualquer máscara que seja.

Mas um grande amor só é grande se convive com larga margem de perdas. E na velhice antecipada também venho perdendo alguns afetos, principalmente entre amigos. Eles já não podem entender a indigência orgulhosa do meu nomadismo, essa insistência em ficar trocando de máscaras inadvertirdamente, ironizando tudo e todos. Eles sempre levam a sério minhas blagues, acham que eu estou dinamitando seus respectivos fundamentos, eles acham que deveras possuem fundamentos. E eu até tento tantas vezes botar uma máscara e brincar o jogo da situação, mas não dura muito tempo. Lá vou eu deixando escapar algumas palavras, ofendendo quem eu não queria, a troco de quase nada. Meus amigos com razão me acusam de não saber jogar, e até eles fazem questão de rotular minha inaptidão para essas coisas. Acabo rindo de meus próprios desacertos, e finjo pedir perdão para os poucos amigos que me sobraram. Tanto quanto eu eles costumam ter um coração bastante grande, ou pelo menos grande o bastante para fingir acreditar no meu perdão. É a forma que encontraram de me atribuírem uma máscara, esperando piamente que talvez me sirva. Mas como sempre, não me serve, e de novo escapo para o terreno inóspito da diferença.

Ainda um dia as palavras me levarão sozinho para um deserto onde beber a fonte da imortalidade. E por esse amor eu morrerei de sede a caminho do infinito, extasiado pela última ilusão de verdade desmentida pela palavra. Mas até lá eu permaneço habitado pela multidão de seres que as palavras me urdiram nessa busca por me conhecer distintamente dos que me habitam. Não posso ser um nem posso ser todos, justamente porque estou no meio-termo de ser muitos. As palavras me deram um sonho que apenas podia ser sonhado se fosse impossível de realizar-se. Me deram uma solidão populosa, uma multidão solitária. Não sei se maldigo ou agradeço essa dádiva, mas sei que não consigo mais viver sem essa fé desencantada. Não conto as horas do meu dia, porque nesse reino palavroso o tempo pouco faz sentido. E por isso sofro já de uma velhice antecipada, justamente porque descobri a fonte de uma eterna juventude. Até quando nem palavras mais sobrarem na cegueira absoluta que nos cabe a todos nós.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O jogo da esperança e da derrota


Venho para frente da tela escrever a palavra derradeira, aquela que redimirá a intenção súbita que me pôs na frente dessa mesma tela. Tenho-a quase na ponta dos meus dedos, fico por instantes na iminência de teclá-la, mas desisto. Sua nitidez imediata na lembrança se desbota, restando-me apenas um borrão de alguma mensagem indecifrável. Como um Prometeu que manuseia uma tocha que se apagou, aspiro a fumaça de alguma ciência abortada. Mas ainda permaneço em frente à tela e, na falta da palavra redentora, escrevo o necrológio de minha patética derrota.

E tu, meu também desencantado leitor, tu não vieste quase que aleatoriamente de encontro ao meu texto na esperança de flagrar-lhe a palavra derradeira? Vieste à procura de um sentido? E agora que o meu texto desde já confessa sua incompetência, vais desistir dele? Ou vais perder teu tempo com um derrotado? Mas alguma vez em algum outro texto num fortuito momento de tua vida encontraste a bendita palavra redentora? Ou como leitor experiente compartilhas comigo um certo ceticismo para com palavras? Tu, meu maltratado leitor, também não alimentas uma vulgar expectativa de que a próxima linha te revele o segredo inefável do universo? E sempre deploras quem te frustra essa esperança?

Então talvez nós tenhamos em comum um amor triste ao nosso compartilhado momento de luto. Talvez somente nos reste reconhecer esse momento como desgraçado milagre. Vejamos: eu, numa borda de rio caudaloso, lancei o olhar ao céu em busca de uma sublimidade, e declinei os meus refugos correnteza abaixo. Tu, na outra borda do mesmo rio, lançaste a rede à procura de uma estrela, e recolheste meus detritos. Sim! temos em comum o mesmo rio e o mesmo lixo... e o mesmo sonho que ficou ainda por realizar.

Mas talvez o milagre ainda maior desse encontro seja o legado que daremos para o nosso desencanto. Podemos pôr definitivamente os pés no chão, na certeza de que a vida é muito mais interessante do que um mero simulacro de palavras. Ou podemos ter saudades daquele sublime, e tantas vezes até vislumbrar na terra algum reflexo estelar. Seja como for, o sonho murcho projetou em nós a sombra de seu reino encantado, e nós tivemos de virar as cinzas de sua expiação. E talvez até venhamos crendo em que é sempre melhor sonhar um sonho derrotado do que não sonhar sonho nenhum. E então jogamos novamente o jogo da esperança e da derrota.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Num quintal do universo



Num canto de quintal de aspecto abandonado, meu cachorro se debate tentando manter metade de seu corpo levantada, numa luta de rastejar contra o chão e se equilibrar nas patas dianteiras. Ele já é velho em seus dezessete anos, e neste dia ele acordou com a pata traseira imobilizada, limitando sofregamente seus movimentos. Semana anterior, meu outro cachorro morreu, resultado de uma mosca que deixou suas larvas no olho do anfitrião, as quais o devoraram silenciosa e cruamente. Agora, o companheiro restante se mortifica com a falta. No quintal escuro de fim de tarde, o cachorro se arrasta e geme baixinho, enquanto um enxame de mosquitos pousa sobre seu corpo para sugá-lo sistematicamente.

A imagem me causa extrema pena, a mim, que tenho uma própria balança para medir o valor da vida. Aquela criaturinha que morou durante tantos anos na casa de meu tempo agora emana uma aparência de decrepitude e iminente morte. Sinto isso, e esmago com a palma das mãos quantos mosquitos consigo, imaginando fazer algum bem.

Mas do alto de alguma estrela insuspeita, talvez algum deus me observe e ache graça da minha atitude. Talvez o deus ache por bem me esmagar na palma de sua mão divina e arremessar minha carcaça na órbita de algum planeta morto.

A despeito disso, aqui na Terra a vida respira ainda o seu potencialmente breve momento de existir. Sem valor, sem escala, sem pena. Brutalmente animada, fragilmente atada, diversa. Viva.

domingo, 3 de abril de 2011

O guarda-chuva voador


Num dia qualquer andando pelo centro da cidade entupido de gente, sufocado pela estufa dos arranha-céus circundantes, deparo-me com uma cena singular. Um círculo de pessoas reunindo-se para comungar, num objeto de curiosidade, um dos únicos motivos capaz de extraviar sua rotina bovina. No centro desse círculo, o devido objeto: um corpo de homem estatelado do décimo primeiro andar de um prédio adjacente.

As reações ensejadas são diversas. Alguns incorporam um luto lacônico, outros ficam visivelmente empolgados. Alguns fazem sinal da cruz, outros tiram uma foto. Mas ao redor do escândalo da morte o rumor de um escândalo ainda maior começa a se agitar. Trata-se de um suicídio, alguém que deliberou morrer, e fez isso da maneira mais pública possível. E o rumor agitado se lança em indagações velozes. Alguém que deliberou morrer? Assim tão esclarecido e amoral, assim tão impunemente? Não, isso não está certo, pois então é necessário compreender o caso. É necessário explicar por que o homem se jogou do alto do prédio, e que sejam explicações mundanas, nunca transcendentes. Será que o sujeito perdeu o seu emprego? Brigou com a mulher, desgraçou-se um filho? Será que o sujeito se sentia deprimido, se sentia humilhado, coagido por alguém? Seja como for, lá vamos nós, humilhando e coagindo a sua memória, cobrindo o rumor da morte com uma explicação fácil e imediata. Afinal, alguém deliberadamente se matou, e num mundo de opressões inefáveis, essa talvez seja a maior liberdade realizável. É preciso, então, normalizar aquele sem sentido, pois ele brota do mais íntimo de pesadelos. Diante de uma imagem absurda, a necessidade de explicar o caso. Colocar a vida de novo no rumo do automático, deslocada pela brutalidade de um fato.

No entanto, parece que o morto era bem mais esperto do que pensávamos, pois ele já previra as nossas reações condicionadas. E saltou lá do alto do prédio segurando um guarda-chuva, que agora se encontrava ao lado daquele círculo ritual de pessoas. Um guarda-chuva, um absurdo ainda maior que o absurdo do suicídio, que debochava de vez com as condolências dedicadas à memória daquele sujeito. Um guarda-chuva... e de novo as indagações. Mas como assim? Poderia ser uma carta de despedida, um manifesto revolucionário, ou somente um palavrão escrito na testa. Mas um guarda-chuva? Um guarda-chuva é um pouco menos clichê, e o dia nem estava nublado. O anônimo foi seco com seus intérpretes, reduzindo sua mensagem ao significante vazio. Claro que o problema é só nosso, que buscamos mensagem onde não havia nada, onde havia talvez apenas ironia.

Esvaziar a morte de sentido, e exibi-la no inevitável corredor, onde milhares de pessoas todos os dias se cruzam sem se ver. Uma petulância imperdoável, que é preciso amenizar com o labor de uma curiosidade tacanha. Uma petulância imperdoável, que é preciso integrar ao ritmo incessante da cidade. E então começam a agir os protocolos invisíveis que regem a boa ordenança de corpos e espíritos. Em poucos minutos, o corpo já coberto por lona preta, sem mais ofender retinas sensíveis. Logo após, removido por um daqueles armários ambulantes feitos de gavetas para enfiar mortos. Espatifado, pericizado, transferido e arquivado, sucessivamente, exato, pontualíssimo. Procedimentos para entregar o acaso à normalidade de uma equação. Na lógica da oficialidade, deve haver programas somente para encarregar devidamente os suicidados, assim como há programas para discutir o tema suicídio entre sobreviventes. No entanto, certamente não existem protocolos para lidar com guarda-chuvas que caem do décimo primeiro andar de um prédio na mão de pessoas. E tanto é assim, que aquele objeto sem função lá ficou abandonado, mesmo com a ida do corpo morto. Talvez os presentes se entreolhassem, para descobrirem o que fazer com aquele absurdo restante, mas não encontraram resposta. Como saber a origem e o destino daquele guarda-chuva órfão? Por que ele lá ficava borrando uma imagem que já ameaçava tornar-se normal? Quais motivos tinha o finado para levar aquele objeto, pouco aerodinâmico, em sua queda fatal?

Se me permitem a insolência, acho que o anônimo apenas quis se transformar num desenho animado. Na crise do momento decisivo, lá do alto do prédio, ele talvez tenha temido a queda no concreto brusco, e de repente teve a ideia original de abrir aquela asa de elefante. E então saltou do parapeito, e para surpresa unicamente sua, voou sobre a alheia ignorância seguro pela alça de um delírio colorido. Nos desenhos animados, como se sabe, qualquer pequena coisa é um álibi para maravilhas. Balas não atravessam corpos, bombas apenas sujam de pólvora, abismos resultam em nada mais que tombos. O guarda-chuva foi um álibi naquele instante, o necessário para arremessar um troçador contra a gravidade da cidade insensível. Claro que para nós, que não participávamos desse sonho, um corpo se espatifou irremediavelmente na calçada cotidiana. Mas isso é também problema só nosso, que na pressa de tudo explicar perdemos o mais importante de seu gesto.

A verdade é que o finado necessariamente não finou, pois ele vive flutuando acima dos prédios que esmagavam sua paciência. É bem possível que, na posse de um guarda-chuva voador, ele realize uma viagem para os melhores lugares que frequentou em sua infância. Talvez ele alongue sua jornada para os horizontes que queria visitar em sua vida terrena, mas não teve tempo. E lá encontre uma engraçada charge dos amores e amigos que ele teve, e dos que ele deixou de ter. Talvez, lá do alto de seu céu, ele seja como espectador de um cinema solitário, rindo de tudo quanto levou a sério em sua séria vida. E visto lá do alto, tudo abaixo se movimenta que nem formiguinhas. Visto do alto, tudo tem o mesmo valor que formiguinhas. As ambições mais desmedidas, os desejos mais secretos, os projetos mais minuciosos. Tudo se movimenta com passos ligeiros, intermitentes, trombando com colegas e obstáculos pela frente, numa turba furiosa, na pressa de não se sabe o quê. Tudo está condicionado a uma vontade invisível, vontade caprichosa, demiúrgica, tirana, que sacrifica multidões em nome de um arbítrio instantâneo. E as formiguinhas não param, elas correm, elas fazem filas, elas edificam formigueiros portentosos, elas carregam toneladas nas costas... Que engraçado tal espetáculo, e também que terrível!... O viajante do guarda-chuva voador se cansa de paisagens recorrentes.  E no fim de tantos prodígios, é possível que ele já tenha até se esquecido dos motivos que o levaram a saltar de guarda-chuva, e ache graça também nisso. Mas os guarda-chuvas de desenho animado só sabem cair para cima, e o viajante não pode mais voltar para o rumor abafado da metrópole. Ele nem se importa mais, ele fez a escolha dele, mas talvez tenha sobrado para nós algum resquício de mal entendido.

E então voltamos paro o fato violentamente estúpido de um corpo estatelado no concreto da calçada. As explicações a respeito nunca deixam de extravasar o ranço de uma incompreensão. A melhor resposta talvez seja mesmo o silêncio, mas a histeria coletiva quer dizer qualquer coisa. Quer dizer que é uma impostura alguém escolher morrer e fazer isso tão descaradamente. Quer dizer que a vida é um valor em si, e que um suicida é sempre alguma espécie de niilista. Quer dizer que o morto tinha pai e mãe, que não mereceriam nunca tamanho desgosto. Quer dizer que a morte deve ser varrida para debaixo de um tapete, de modo que fique evidentemente clara a fronteira em que deve circular a vida, fora da qual a morte, medonha, apenas nos assombre.

           Mas eu também tenho meu próprio desenho animado, e nele eu imagino uma cena um tanto complementar. Imaginava que em volta daquele corpo caído as pessoas tenham ficado extasiadas. E então começaram a se abraçar e a se beijar, batendo palmas para esse inesperado espetáculo, e depois dançaram e cantaram em torno daquele círculo, levando embora o corpo sobre seus próprios ombros. Era preciso celebrar a morte, ainda mais a morte de quem escolhe morrer. Mais do que isso, era preciso celebrar a vida dos vivos, tomando da morte emprestada uma imagem, para dizer: aqui estamos! aqui estamos nós! e agora, o que vamos fazer? E essa indagação impertinente ficava ressoando no espírito dos festeiros, contagiando-os de assimetria, de inquietude, de iluminação.

            E nesse meu desenho animado eu olhava para cima e via o anônimo voando em seu guarda-chuva e dando um tchauzinho para todos aqui embaixo. E eu acenava para ele e dizia um longo e feliz adeus. E voltava para casa para finalmente poder escrever este texto.