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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Amor como Oriente

“Amamos sempre no que temos
O que não temos quando amamos.”
Pessoa, “A Outra”

De alguma forma estranha, a minha aurora sempre se encantou com traços femininos orientais. Esse tipo de beleza me comunicava algo de alienígena, algo a preencher de cores exóticas o meu bairrismo infantil. E foi quando moleque, que uma menina de origem japonesa cresceu pelas bordas da minha imaginação, se emancipando como nome daquilo que se costuma chamar amor. Ela, a de carne e osso, particularmente nunca teve nada de especial. Mas eu admirava inclusive todos os seus defeitos, sua forma incopiável de ser uma singela arrogante, seu modo de falar estridente e espaçoso, sua maneira habilidosa de me fazer sentir menor do que eu era. Diante daquela criatura meus gestos hesitavam. Eu me forçava a agir como num simulacro, a repetir a meia dúzia de atuações que eu aprendera de alguns heróis apaixonados de cinema. Nada disso podia dar certo, mas no fundo eu esperava que a piedade de minha heroína me redimisse. Não houve altruísmo e, para o bem do meu orgulho ferido, eu fui embora refinar meu coração distante dela.

O amor da infância talvez me tenha sido o nome nem sempre confessado de minha timidez. O meu ridículo, embebido em fragilidades e querendo se afirmar com saltos rumo à transcendência. Até porque a tal menina japonesa nem de longe nunca se importou com qualquer afetação de meu sentimento. Estava claro que ele não lhe dizia respeito, e ela via isso de maneira tão clara e madura que eu só pude compreendê-la (e concordar com ela) muitos anos depois. Eu era o bobo que ainda sou diante de qualquer mulher. E sonhava com uma gueixa que encontrasse em meio a ruas ciberpunks de Tóquio e com ela fugisse para um idílio a ser estampado na tela supercolorida de um animê. Imagens amalgamadas de imagens que preencheram minha infância.

Seja como for, ainda me lembro de quando a tal menina anunciou que sua família retornaria ao Japão. A criança que me habitava logo entristeceu, sem saber que era justamente essa mudança que enobreceria a causa do amor. Pois desde então foi que eu passei a aceitar o Oriente como paisagem interior de meus afetos. Passei a imaginar a tal menina protagonizando memórias que nunca tive de uma terra que não é minha. Olhava para o horizonte, forçando meu olhar a quebrar a curva do visível e flagrar as cenas de amenidade que justificam uma vida humana. Organizava colônias para as ilhas de além mar, numa busca pela gueixa tropical, tudo isso sem ao menos sair do bairro onde cresci. E ia fazendo proliferar esses horizontes, a tal ponto de eu perceber que a imagem da tal menina não podia mais ser a imagem que eu tinha da tal menina. O nome do amor só podia se associar ao nome da “outra”, a eterna “outra” a emergir em intervalos de meu Oriente, encarnando talvez numa figura presente dos meus afetos, mas ainda assim sempre a fugir para o além do horizonte. O nome do amor é inominável, porque é um mundo que guarda a promessa de abrigo, sem nunca abrigar deveras, mas cuja promessa já valeu o esforço de amá-lo.

Há um canteiro secreto por onde se espraiam paisagens de nosso Oriente. E vamos contra o mundo retocando e reafirmando essas paisagens, ao lado do esforço de se manter humano apesar de tudo. Mas há também secas e tempestades dobrando a curva do nosso horizonte. E essa vontade de contemplar paisagens talvez se desloque para um altar aonde fugimos de vez em quando. Talvez esse altar ganhe o nome sagrado da infância, contra o qual brandimos nossa afetada seriedade para com a realidade. Talvez a nossa coleção de rugas nos sirva como ostentação de um senso um pouco mais prático da vida. Ainda assim, algumas paisagens sonham medrar humildemente pelo horizonte.

Por mim, eu sei que nesse meio tempo emergiu de meu Oriente uma nova menina. Essa sem traços orientais nem esperanças de bucolismos. Essa cuja imagem se permuta sempremente com a imagem da “outra”, numa brincadeira de esconde-esconde. Essa que me inspira um talento paisagístico, me obrigando a mudar adrede o foco em que enquadro as coisas de meu horizonte. Pessoa real e sonho, encarnada num corpo de mulher a me chamar ao jogo constante de presença e ausência. Nomes inefáveis do amor.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Sono da escrita



Tão logo o sol irrompe da beirada do horizonte, venho para essa praia solitária recomeçar o meu ofício desmedido. Com uma incisiva ponta, vou riscando na superfície da areia figuras arcanas, que se somam entre elas para formar uma figura maior do que a soma, cuja unidade quer dizer alguma coisa que me escapa. Acompanho ansioso o tracejar do sol pelo dossel, sabendo que é o dom de sua presença luminária que me permite desenhar as figuras, ao mesmo tempo em que seu calor me tosta as costas. Resigno-me com tristeza diante do mergulho do sol por trás da barra, a interromper o meu trabalho inconcluso antes mesmo que houvesse formado aquela figura maior. Sento-me à noite na escuridão da areia por cima de minhas cifras inúteis, olhando para o céu de estrelas que mal brilham. E a maré vai invadindo a orla, apagando as figuras inscritas durante e dia, e me levando para o sem rumo do mar. No dia seguinte acordo, às vezes largado na mesma praia, às vezes noutra, mas na hora exata de contemplar a nova aurora, que me dará o ensejo de recomeçar o meu ofício.

Não desenho para a cegueira e a surdez da natureza ao meu redor, mas sim para os visitantes invisíveis dessa praia. São eles que vêm preencher a solidão desse trabalho com sua sempre renovada promessa de reconhecimento. Não tenho certeza da concretude de sua intervenção, mas muitas vezes tive a sensação de ver o meu trabalho corrigido pela mão volúvel desses espíritos. Quantos traços misteriosamente emendados ou subtraídos! Sei que a plasticidade da matéria arenosa de minhas figuras até contribui para o acaso das intervenções alheias, mas há acasos que merecem o nome menos indigno de “obra”. Eu desenho não somente com a parceria desses fantasmas que me assombram, mas também desenho contra eles, me esforçando no labor de superá-los e traçar uma figura um tanto mais perene nessa superfície degradável. Mas os fantasmas têm um gosto exigente e inconstante, e não raro passo longos períodos sem a mínima presença, mesmo que ilusória, de meus visitantes. Tempos em que me pergunto sobre o valor do meu trabalho, confrontado brutalmente com o oco da natureza ao redor.

Desenhar para fantasmas indiferentes talvez seja apenas uma das consequências de um ofício que desde sempre se assumiu como ingrato. Outra consequência é o imperativo cada vez mais flagrante do tempo. O breve período de menos de uma rotação terrestre nunca é bastante para perfazer a coesão de uma figura maior, como o sabe o intervalo incerto de uma vida humana. No entanto, o desafio da arte do desenho é assumido a despeito de sua sobrecarga, e o artista incorpora o espírito soberbo sem o qual o absurdo dessa condição o faria desabar desde dentro. E é o mesmo espírito soberbo que chama para si o centro de todas as atenções possíveis, mesmo que o espaço ao redor seja sempre surdo e cego. O egoísmo do meu ofício, submetido à questão do tempo, me obrigou, ao longo de algumas centenas de rotações, a codificar a arte do desenho numa arte dos códigos do desenho, refletindo um poder de síntese que me encheu de esperanças de completar aquele velho sonho da figura maior. Um conjunto de traços sobre a areia não era mais apenas imitação de algum objeto ou forma da natureza, mas se tornou também “re-apresentação” desses objetos e formas, como esforço de fazê-los presentes onde estavam ausentes, como mágica. A nova arte dos códigos intensificou seus próprios procedimentos, e esqueceu quase de propósito o formalismo que estava na sua origem. Chamo esse esquecimento de metafísica, e a partir dele tento recordar a história de minha desmedida arte. Vão trabalho, visto as ondas do mar terem levado embora há muito tempo o registro instável daquela verdade.

Mas tão logo me perco nesses labirintos que ergo em torno de mim, percebo a luz do sol óbvia pairando sobre minha cabeça, condenatóriamente e redentoramente renovando a oportunidade mesma de eu me perder nesses labirintos. Nessa hora, sinto o quanto o meu ofício tem alguma coisa de vulgar, alguma coisa de incapaz de lidar com a simples dádiva de haver um sol, e esse sol nem ao menos necessitar de que eu figure sua importância para mim, pois ele continuará indiferentemente a iluminar o que por essa praia for desenhado a apagado. Nessa hora, sinto que a minha soberba é uma atitude muito particular e pequena diante da necessidade de uma arte, e me pego a imaginar o destino daqueles que se aventuraram na deriva da noite.

Quando a maré sobe e eu me largo sob a vontade do mar, costumo estar dormindo, e me sobram dessas viagens indefinidas apenas as mãos de sombras com que o sonho agarra suas lembranças. Mas ainda eu nunca despertei do sono em que repouso à noite. Talvez me reste agora inventar a arte de boiar à tona do sonho desperto, e encontrar a nova clarividência daquilo onde é tudo escuridão. Nesse novo ofício, eu me afirmaria sem o fundamento de uma areia em que pisar, nem o traço numa superfície em que falsamente risco minha imortalidade. Desde sempre o mar ironizou todas essas ambições, e nenhuma delas resistiu ao espraiamento da maré alta. Eu deveria assumir o desafio de singrar as superfícies líquidas, tendo como horizonte um céu de infinitas estrelas que mal brilham.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A caixa da infância


Antes de ir-me embora desta cidade, muitos anos atrás, enterrei debaixo da goiabeira no meu quintal uma caixa, cujo conteúdo pretendia reaver um dia. Passei a morar numa cidade em que não havia quintais, nem goiabeiras, nem promessas de infância, onde ao longo do tempo fui me esquecendo do conteúdo daquela caixa que havia abandonado. Cá estou de volta à minha antiga casa, agora demolida, tornada um terreno baldio, sem indício de goiabeira nem vestígios de passados moradores. Tenho comigo apenas a lembrança de que havia uma caixa em algum lugar, guardando alguma coisa que eu nunca mais poderei ter.

Mas o que exatamente é essa coisa que eu guardei? É bem possível que seja um pequeno caderno, com anotações acumuladas durante aquele tempo em que ainda aprendia a escrever. Nesse caderno, talvez eu anotasse seletivamente apenas lembranças que alegrariam um futuro adulto: a impressão de sorriso no rosto de meus pais, o dia em que ganhei o meu primeiro videogame, os mimos de meu cachorro quando era ainda filhote, o banho de chuva inesperado durante o verão, o cheiro e o gosto de minha goiabeira, os olhos daquela menina... Depois de tantos anos, eu me perguntaria por que havia conservado aquelas boas lembranças tão longe de mim, ressentido que talvez estive da necessidade de mudança. E mesmo sabendo que aquele caderno pintava memórias parciais, eu o levaria para todos os cantos, como refúgio de um mundo que não se basta em caber numa simples folha de papel.

Mas também é possível que não houvesse na caixa uma pequena lista de saudades, e sim alguma coisa um tanto mais terrível. Já naquele tempo, eu me iniciava nos sentidos mágicos e obscuros da vida, como um feiticeiro aprendiz. E talvez eu houvesse selado a caixa com uma maldição em miniatura, condenando quem a abrisse ao mesmo destino de Pandora. A caixa conteria a consciência de tudo quanto sucedeu sobre meus dias, desfiando a interminável caudal de catástrofes que em geral definem uma vida humana. A caixa conteria a imagem vertiginosa de minha responsabilidade, à espera do gatilho desmedido de uma curiosidade para fazer desabar sobre meus ombros o peso abissal de todos os choros que eu chorei ao longo desses anos. A caixa me revelaria o rastro que uma vida humana, sem saber, carrega atrás de si, rastro de dores, de desgraças, de misérias, que se arrastam dependuradas na corda de toda triunfante e mínima vitória. A caixa me revelaria a monstruosidade da indiferença, e eu a fecharia justamente quando me fosse dado ver a contraparte do monstro que sou, a soma de pequenas felicidades que afinal justificam que alguém ostente uma inelutável esperança.

Porém, talvez a caixa não contivesse a consciência de meus males. Talvez ela guardasse um enigma que eu me esforcei para esconder de mim mesmo. Guardasse um mapa com marcações que definissem todas as escolhas que eu tomei ao longo desses anos. Como um pirata descuidado, eu criara aquele mapa, e decorara cada uma de suas minuciosas marcações, enterrando o segredo do que aquilo realmente significava. Na obsessão de seguir fielmente as instruções, eu me esqueci ao longo do tempo que eu havia criado aquele mapa, e que estava de certa forma sendo determinado por ele. Quem acredita na verdade de um destino, simplesmente ignora que poderia haver outros destinos, que poderia haver outros caminhos para a vida que se leva, cuja possibilidade abole a própria ideia de destino. Talvez, ao desenterrar aquele mapa, eu tivesse percebido as inumeráveis alternativas de caminhos que eu nunca segui, as avultantes escolhas que nunca fiz, que me levassem a tantas outras maneiras de ser eu mesmo que eu não mais poderei ser.

No entanto, talvez a caixa não guardasse a senha de minhas escolhas. Talvez ela abrigasse um demoniozinho cuja impertinência, na correria dos dias e das mudanças, eu preferiria para sempre esquecer. Aquele demoniozinho, que quando eu abrisse a caixa me fizesse a pergunta definitiva da existência: se eu amo suficientemente minha vida, a ponto de, se me for dada a oportunidade, repetir minuciosamente os mesmos gestos, os mesmos erros e acertos, os mesmos prazeres e sofrimentos, cada minúsculo ato e acontecimento, que me trouxeram todos até ali naquele instante decisivo, após o qual a mesma repetição se daria eternamente, como um ciclo, sem cessar. E então, que resposta eu daria para esse demoniozinho? Diria um sim, como prova trágica desse suposto amor, que precisa ser forte o bastante para suportar tamanha provação? Diria um não, na indignidade de encontrar em mim secretos ressentimentos, covarde por fazer da vida aquilo que outros fizeram por mim?

Todavia, talvez a caixa não fosse morada de um policial da existência. É bem possível que nela se contivesse a mais ambiciosa de minhas brincadeiras. Dentro da caixa eu encontraria a indicação de algum outro lugar onde eu pudesse exumar outra caixa com a indicação de outro lugar com outra caixa, e assim até o infinito. De alguma forma de que eu não me lembrasse, eu havia passado boa parte de minha infância enterrando caixas com indicações de lugares que tivessem algum significado para mim: debaixo de minha goiabeira, na escola em que passei longos anos, nas ruas em que moraram tantos amigos... Se eu ousasse percorrer todos os caminhos a desenterrar todas as caixas, talvez eu refizesse exatamente a mesma trajetória que afinal me trouxe até aqui, sem deveras abafar a curiosidade que me pôs na roda dessa brincadeira. E é bem possível que eu percebesse que ao longo desses anos ainda continuava a enterrar caixas sem ao menos me dar conta disso, e que talvez fosse um absurdo correr em volta desse jogo insano, a perfazer um círculo dentro do qual eu nem pudesse encontrar quem sou.

Mas talvez a caixa não desencadeasse a roda de meus dias. A verdade é que eu estou diante do lugar onde deveria haver caixa, e não há nem o mínimo sinal dela. Tenho de voltar para a cidade onde agora moro, desistido de reaver o conteúdo daquela antiga lembrança. Sei que havia uma goiabeira em algum lugar, mas jamais encontrarei o que debaixo dela repousava. É como se a caixa estivesse vazia, e a minha missão fosse retornar ao presente com o legado daquela desmemória.

Mas o estar vazio não quer dizer que se abriga nada, pelo contrário, quer dizer que se abriga tudo. Vou inventar o que havia dentro dessa caixa, e vou inventar que essa caixa existira. Dentro dela caberia um mundo, mas um mundo que habita somente na distância.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A menina e o abismo


“Chega onde em sono ela mora
e vê que ele mesmo era
a Princesa que dormia”
Pessoa, “Eros e Psique”

Amo a menina que mora na casa em frente à minha, do outro lado do abismo que nos separa.

Sento pela manhã na varanda a esperar que ela desfile seus olhos claros pela janela, para depois começar a encenar um breve sorriso e logo desaparecer na escuridão de seu quarto. Distante que estamos, não tenho certeza se o sorriso era para mim, nem se ao menos havia algum sorriso estampado naquele rosto redondo. Na dúvida, começo a vestir a alma de riso, e passo o resto do dia a imaginar a possibilidade de que ela, em sua janela, estivesse a procurar o meu riso, e não encontrasse, ou encontrasse apenas uma dúvida.

A menina do outro lado do abismo talvez gostasse de visitar a minha casa. Conheceria o cheiro de móveis mofados, o eco de espaços vazios, o zelo dos velhos solitários. Talvez ela tivesse um refinado gosto decorativo, e começasse a pintar minhas paredes com cores de caos, e a virar os meus assentos de ponta-cabeça, e a quebrar umas tranqueiras que eu costumo guardar. Nós ficaríamos a preencher as noites com a eterna novidade de nossa humana presença, noites quando melhor se ouve o urro dos monstros que se agitam no fundo do abismo ao redor. Depois contaríamos todas as estrelas e daríamos nomes a elas, fazendo promessas para nossa próxima viagem sideral. Mas por agora, a menina não está aqui. Também me aflige a ideia de que, talvez, ela detestasse visitar o meu recanto, achando-o antiquado demais para sua impaciência. Talvez ela pense em visitar outras casas que não a minha, ou talvez ela queira muito mais do que apenas invadir espaços alheios e busque, para além disso, o rumo do infinito.

Na verdade, sentado tediosamente na varanda, eu mal consigo enxergar o perfil de alguém que passeia pela janela de uma casa do outro lado do abismo. Acho que é ela, pois aos menos espero do tempo que aqui gasto o simples poder vê-la. Mas talvez não seja, e o meu tédio não produzira nada mais que um sonho vão. Eu sei que eu deveria me arriscar a fugir de minha própria casa, a percorrer as bordas indefinidas do abismo, que se estendem até depois do horizonte. E é bem possível que eu encontrasse em algum lugar desse além do horizonte uma ponte sobrevoando o abismo, a me levar a outro lugar tão mais arriscado e tão mais desconhecido. E nesse outro lugar eu encontraria outra ponte e outro abismo, e notaria que a minha vida seria como uma viagem a percorrer uma rede de pontes e abismos interligados, nos quais eu estaria sempre a me perder e sempre a me achar. Mas sei também que tão cedo me aterraria a lembrança de estar cada vez mais longe daquela menina, e talvez nunca mais pudesse me esbarrar com ela. Sobraria-me a saudade de uma casa já então remota, e o novelo tristemente acumulado de intentos perdidos, deixados para além de vida e de viagem. Nas estradas o encontro também é uma coisa muito rara, e um sem número de outras meninas seriam deixadas pelo caminho.

No entanto, tudo isso é devaneio, tudo é mera especulação. Sentado na solidão de minha varanda, eu nunca saberei dos erros que cometeria, se não insistisse em permanecer a contemplar uma moldura de riso de menina, que talvez, já não sei mais, desfile numa casa do outro lado do abismo. Mesmo a capa de riso com que visto minha alma se desgasta ao longo dos anos de poeira acumulada. E as rugas que agora sulcam meu rosto costumam mentir ao menino que eu era antes de me sentar à varanda de casa. Surpreendo-me diante de tão subitânea metamorfose. Ontem mesmo eu havia começado a sonhar, ontem mesmo eu havia me deparado com o riso enigmático da menina, a quem eu quis tanto. Um ontem indeterminado e espectral, que pode ter sido há um dia atrás, pode ter sido há milênios. Já não sei mais quando foi ontem, nem sei se ainda amo a menina, cuja imagem em mim continuamente se desfaz. Restou apenas este animal vetusto, que lembra e sonha acerca dessas coisas, e que ainda vive, ainda respira.

É preciso transpirar o amor sonhado a cada passo dado no mundo. Mas antes disso, é preciso dar algum passo. Sigo porta adentro e ajeito na mochila algumas poucas coisas, o bastante para uma indefinida ausência. Olho-me no espelho e vejo-me novamente jovem, novamente cheio de promessas, sem rugas, sem gravidade, e também sem esquecimento. Dedico um último olhar para a paisagem de minha varanda, e nesta hora sei a verdade.

Nunca houve casa nem janela do outro lado do abismo. O riso de menina não está ali, nem talvez esteja em nenhum lugar. Desta vez, sou eu quem rio, sem esperança, pego a mochila e abandono o resto das tralhas dentro de casa. Não devo encontrar a menina, pois ela sempre esteve comigo...