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segunda-feira, 10 de março de 2014

Um céu de estrelas sem nome



          Sensações se misturam com memórias e memórias com sensações, de tal modo que em alguns recantos da mente é impossível distingui-las. No geral, em nossa semiconsciência de tudo, aceitamos a metáfora do cérebro como um computador, e à memória capitulamos a mera função de armazenadora de informações. Mas em verdade memórias não são iguais a informações.

Todos já tiveram alguma experiência parecida: olhando fotos de um passado distante, a memória reconstitui não somente as cenas das imagens, mas também as alegrias e as dores daquele momento e de outros, outras cenas de outras imagens adjacentes, breves vultos dos lugares que visitamos naquele tempo, as esperanças que tínhamos na época, os sonhos que em algum beco da vida se perderam, as pessoas e os afetos que a elas dedicamos, e até cheiros e gostos. Tudo isso está de certa forma guardado no cérebro, e no entanto não é acessível imediatamente. A memória arrasta atrás de si todo tipo de aleatoriedade, ela é caótica e autorreferencial, e em seu egoísmo parece se defender contra o pragmatismo do mundo informático.


Tenho o costume de olhar para o céu estrelado noturno, do terraço de minha casa, a procurar as estrelas cujas posições, por hábito, até já reconheço. Sou um amante de astronomia muito preguiçoso, e praticamente nem saberia dizer o nome das estrelas que identifico, e de fato nem me importo com isso. O céu noturno da cidade também não ajuda muito, costuma ser bastante pobre, bastante ofuscado. Porém, é o céu que tenho, e o meu hábito de olhá-lo, o meu terraço e minha preguiça constituem todos uma solidez de caráter ao longo de anos moldada por circunstâncias diversas. É o lugar que tenho para pensar sobre as coisas, onde monologo, onde organizo ideias, onde imagino projetos, onde leio, onde costumo escrever. Se não tivesse esse céu, esse terraço, esse hábito, seria menos do que sou, seria menos Daniel.

Se tento relembrar de quando veio tudo isso, recordo do já remoto ano de 2002, em sua soma de circunstâncias que tinham algum significado para mim. Era uma época de algumas transformações e decisões. Havia mudado recentemente para a casa em que ainda moro, após um ano me adaptando ao clima e ritmo da cidade grande, Rio de Janeiro. Havia começado a estudar num cursinho preparatório, abandonando o início do Ensino Médio num colégio público, para pretensamente me dedicar ao processo seletivo do Colégio Naval. Havia conhecido novos colegas e perdido os antigos na virada do ano, e por estarem num ambiente em comum e possuírem aspirações semelhantes, os novos colegas compartilhavam um certo tipo de mentalidade que eu também assumi. Foi o ano em que meu pai conseguiu comprar um computador, e pela primeira vez eu tive acesso à internet, aquela ainda discada e que a gente só acessava de madrugada ou nos finais de semana após 14:00 de sábado, para gastar só um pulso, mas que mal ou bem me punha em contato com novos universos cheios de possibilidades e segredos. Foi o ano em que me vi como um relativamente bom estudante, eu que sempre fui mediano e medíocre em tudo que fazia. Foi o ano em que precisei abandonar a paixão por videogames que até então tinha, pois não dava mais para conciliar o estudo com os videogames por mais que eu quisesse.

E enfim, foi o ano em que talvez tenha nascido em mim algum tipo de espiritualidade, justamente aquela que tem a ver com olhar para o céu noturno no meu terraço, e devanear com o fato de que a vida que se leva é apenas uma entre milhões, um só caminho num labirinto de escolhas e decisões, caminho que se parece empobrecer em possibilidades a cada passo que se dá nele. Porém, se tento encontrar uma via de acesso àquele passado, minha memória não fornece de pronto as informações que listei acima. O que de fato me faz remeter àquele passado é uma canção, das muitas que ouvia na época. Em seu traçado melancólico e simples, minha memória se colou a ela, desenhando na mente a imagem daquele serzinho que eu era.


Pouco há nessa canção que figure aquilo que minha memória ergueu em torno dela, como o muro que cerca um jardim invisível de plantas selvagens a que alude Fernando Pessoa num poema. Seu apelo para mim apenas parece ter crescido ao longo dos anos, pois como um gatilho temporal (Chrono Trigger) sua lembrança me desperta um amálgama de sensações adormecidas, com tudo o que elas contêm de saudade, nostalgia, distância, ingenuidade, amortecimento. Desde o momento em que a ouvi pela primeira vez, senti o poder que ela exerceria sobre mim, e de certa forma criei sobre ela uma espécie de culto, e ao longo do tempo fui cavando no peito um buraco para lá guardá-la, com todas as sensações adjacentes e lembranças. Um buraco no peito que não é apenas alegoria, pois literalmente dói a cada momento em que seu vazio é tocado por mãos curiosas.

Memórias e sensações são indistinguíveis, e isso talvez fique mais claro quando falamos das músicas que ouvíamos num certo passado. A canção tema de Schala ficou enterrada na minha memória como referência das coisas daquele tempo, suas dúvidas, suas agonias, suas indecisões, suas possibilidades, suas esperanças. E toda vez em que a ouço, as imagens do passado vêm uma a uma, e da mesma forma que vêm precisam ir embora para o lugar de onde vieram, para permanecerem o que são, sensações que de nada servem senão para comporem o cenário de uma sensibilidade. Quando me pego ouvindo essa canção, retorno para a primeira vez em que, naquele passado terraço, me vi olhando para o céu noturno com a certeza de que a terra não é o centro do universo, e essa simples constatação nunca perdeu sua força radical, porque em geral conduzimos a vida como se o umbigo fosse o centro do universo, e lembrar que isso não é bem assim não deixa de ser uma revolução particular.

Quando abro os olhos e me vejo no presente, sendo o que sou, um longo caminho percorrido, no terraço de minha casa e ao fundo o céu noturno, penso que alguma coisa existe aí, que algo vive uma vida bem saudável e singular, e se vive assim é porque tem seu devido valor. Porém, na mesma proporção em que essa forma de vida é saudável e valorosa, ela também é incomunicável, e falar sobre ela é já despir ao ridículo a banalidade de um indivíduo, na tentativa patética de dizer aquilo que não deve ser dito, aquilo que deve morrer com cada um porque assim é seu inelutável destino.

E esse talvez seja o fato mais penoso de as memórias se indistinguirem de sensações. Pois os fatos mais íntimos que nos compõem a todos nós, justamente aqueles cuja profundeza e vastidão fariam jus ao oceano, são também aqueles a que faltam palavras devidas, e se nós tentamos forçá-los a dizer o que supostamente queremos, logo descambam em sentimentalidade, e cedo ou tarde nos vemos sozinhos, ninguém restou para ouvir nossa ladainha, e isso é bem justo porque afinal era tudo muito chato mesmo.

Se de certo modo compartilhamos objetos culturais em comum, não partilhamos o imaginário que em torno deles criamos, e essa é a sina de uma sociedade cada vez mais conectada, falar sobre as mesmas coisas sem de fato se comunicar. Talvez por isso que a arte, sendo a única comunicação verdadeira, precisa fabular os universos que pretende contar, porque falar diretamente sobre eles é já calá-los na intenção de os revelar, e arte sempre fala de um terceiro para fazer um segundo chegar até um primeiro.

Quanto a mim, fico com o terraço de minha casa, meu céu noturno, meus livros e sonhos, na soma de catástrofes e reconstruções que compõem cada íntima vida. Sei que falar sobre eles é de certa forma mentir à intenção de contá-los, e a intrigada teia de memórias e sensações que o tempo teceu para capturar o passado continuará oculta. Precisamos aprender o ofício de enterrar tesouros sem a esperança de recuperá-los um dia. Trancar as mais bonitas joias num baú anônimo e secreto, e sobre elas fazer o mais absoluto silêncio.

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