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sábado, 12 de fevereiro de 2011

A caixa da infância


Antes de ir-me embora desta cidade, muitos anos atrás, enterrei debaixo da goiabeira no meu quintal uma caixa, cujo conteúdo pretendia reaver um dia. Passei a morar numa cidade em que não havia quintais, nem goiabeiras, nem promessas de infância, onde ao longo do tempo fui me esquecendo do conteúdo daquela caixa que havia abandonado. Cá estou de volta à minha antiga casa, agora demolida, tornada um terreno baldio, sem indício de goiabeira nem vestígios de passados moradores. Tenho comigo apenas a lembrança de que havia uma caixa em algum lugar, guardando alguma coisa que eu nunca mais poderei ter.

Mas o que exatamente é essa coisa que eu guardei? É bem possível que seja um pequeno caderno, com anotações acumuladas durante aquele tempo em que ainda aprendia a escrever. Nesse caderno, talvez eu anotasse seletivamente apenas lembranças que alegrariam um futuro adulto: a impressão de sorriso no rosto de meus pais, o dia em que ganhei o meu primeiro videogame, os mimos de meu cachorro quando era ainda filhote, o banho de chuva inesperado durante o verão, o cheiro e o gosto de minha goiabeira, os olhos daquela menina... Depois de tantos anos, eu me perguntaria por que havia conservado aquelas boas lembranças tão longe de mim, ressentido que talvez estive da necessidade de mudança. E mesmo sabendo que aquele caderno pintava memórias parciais, eu o levaria para todos os cantos, como refúgio de um mundo que não se basta em caber numa simples folha de papel.

Mas também é possível que não houvesse na caixa uma pequena lista de saudades, e sim alguma coisa um tanto mais terrível. Já naquele tempo, eu me iniciava nos sentidos mágicos e obscuros da vida, como um feiticeiro aprendiz. E talvez eu houvesse selado a caixa com uma maldição em miniatura, condenando quem a abrisse ao mesmo destino de Pandora. A caixa conteria a consciência de tudo quanto sucedeu sobre meus dias, desfiando a interminável caudal de catástrofes que em geral definem uma vida humana. A caixa conteria a imagem vertiginosa de minha responsabilidade, à espera do gatilho desmedido de uma curiosidade para fazer desabar sobre meus ombros o peso abissal de todos os choros que eu chorei ao longo desses anos. A caixa me revelaria o rastro que uma vida humana, sem saber, carrega atrás de si, rastro de dores, de desgraças, de misérias, que se arrastam dependuradas na corda de toda triunfante e mínima vitória. A caixa me revelaria a monstruosidade da indiferença, e eu a fecharia justamente quando me fosse dado ver a contraparte do monstro que sou, a soma de pequenas felicidades que afinal justificam que alguém ostente uma inelutável esperança.

Porém, talvez a caixa não contivesse a consciência de meus males. Talvez ela guardasse um enigma que eu me esforcei para esconder de mim mesmo. Guardasse um mapa com marcações que definissem todas as escolhas que eu tomei ao longo desses anos. Como um pirata descuidado, eu criara aquele mapa, e decorara cada uma de suas minuciosas marcações, enterrando o segredo do que aquilo realmente significava. Na obsessão de seguir fielmente as instruções, eu me esqueci ao longo do tempo que eu havia criado aquele mapa, e que estava de certa forma sendo determinado por ele. Quem acredita na verdade de um destino, simplesmente ignora que poderia haver outros destinos, que poderia haver outros caminhos para a vida que se leva, cuja possibilidade abole a própria ideia de destino. Talvez, ao desenterrar aquele mapa, eu tivesse percebido as inumeráveis alternativas de caminhos que eu nunca segui, as avultantes escolhas que nunca fiz, que me levassem a tantas outras maneiras de ser eu mesmo que eu não mais poderei ser.

No entanto, talvez a caixa não guardasse a senha de minhas escolhas. Talvez ela abrigasse um demoniozinho cuja impertinência, na correria dos dias e das mudanças, eu preferiria para sempre esquecer. Aquele demoniozinho, que quando eu abrisse a caixa me fizesse a pergunta definitiva da existência: se eu amo suficientemente minha vida, a ponto de, se me for dada a oportunidade, repetir minuciosamente os mesmos gestos, os mesmos erros e acertos, os mesmos prazeres e sofrimentos, cada minúsculo ato e acontecimento, que me trouxeram todos até ali naquele instante decisivo, após o qual a mesma repetição se daria eternamente, como um ciclo, sem cessar. E então, que resposta eu daria para esse demoniozinho? Diria um sim, como prova trágica desse suposto amor, que precisa ser forte o bastante para suportar tamanha provação? Diria um não, na indignidade de encontrar em mim secretos ressentimentos, covarde por fazer da vida aquilo que outros fizeram por mim?

Todavia, talvez a caixa não fosse morada de um policial da existência. É bem possível que nela se contivesse a mais ambiciosa de minhas brincadeiras. Dentro da caixa eu encontraria a indicação de algum outro lugar onde eu pudesse exumar outra caixa com a indicação de outro lugar com outra caixa, e assim até o infinito. De alguma forma de que eu não me lembrasse, eu havia passado boa parte de minha infância enterrando caixas com indicações de lugares que tivessem algum significado para mim: debaixo de minha goiabeira, na escola em que passei longos anos, nas ruas em que moraram tantos amigos... Se eu ousasse percorrer todos os caminhos a desenterrar todas as caixas, talvez eu refizesse exatamente a mesma trajetória que afinal me trouxe até aqui, sem deveras abafar a curiosidade que me pôs na roda dessa brincadeira. E é bem possível que eu percebesse que ao longo desses anos ainda continuava a enterrar caixas sem ao menos me dar conta disso, e que talvez fosse um absurdo correr em volta desse jogo insano, a perfazer um círculo dentro do qual eu nem pudesse encontrar quem sou.

Mas talvez a caixa não desencadeasse a roda de meus dias. A verdade é que eu estou diante do lugar onde deveria haver caixa, e não há nem o mínimo sinal dela. Tenho de voltar para a cidade onde agora moro, desistido de reaver o conteúdo daquela antiga lembrança. Sei que havia uma goiabeira em algum lugar, mas jamais encontrarei o que debaixo dela repousava. É como se a caixa estivesse vazia, e a minha missão fosse retornar ao presente com o legado daquela desmemória.

Mas o estar vazio não quer dizer que se abriga nada, pelo contrário, quer dizer que se abriga tudo. Vou inventar o que havia dentro dessa caixa, e vou inventar que essa caixa existira. Dentro dela caberia um mundo, mas um mundo que habita somente na distância.

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