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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A dignidade da loucura


Recordo algumas palavras de meu professor Marcus Motta, meses atrás, durante aula na UERJ. O Quixote é o único, em meio à sua loucura, capaz de conceder dignidade a seus interlocutores. Quando encontra duas prostitutas numa estalagem, que ele toma por castelo, chama-as de “senhoritas”, contra todas aparências e preconceitos esperados. Obviamente, nós sabemos que o herói está delirando, pois até as “senhoritas” escarnecem seu procedimento respeitoso. Elas próprias, experimentadas na vida, já assumiram a imagem com que o mundo continuamente as condena, e alguém que, como o Quixote, as vê diversas dessa imagem corrente, deve ser nada menos que um maluco. No entanto, independente das razões e não-razões que o Quixote tenha para ver as coisas sob suas lentes divergentes, ele é o único a dar às prostitutas uma chance de fugir dos rótulos que as esmagam, uma chance de serem consideradas “nobres”, antes humanas do que mera escória social. Essa chance, que vista apenas pelo lado do equívoco nada mais produz do que o efeito cômico da situação, vista pelo lado não essencialista das identidades humanas cria a possibilidade de uma relação digna entre criaturas tão diferentes.

O Quixote é o único que, no meio da sua loucura, suspende o mundo empírico das relações humanas para instaurar um “outro mundo”, o mundo quixotesco onde o que impera são as normas e valores da cavalaria, anacrônicos à realidade em que o herói circula a agir como se cavaleiro fosse. E como todos nós sabemos, nessa suspensão, há um grande risco de, ao invés de produzir dignidade no trato com as pessoas, gerar por outro lado uma série de conflitos, como de fato muitos acontecem no romance. Porém, mesmo nesses conflitos em que o Quixote esbarra nas suas aventuras, vemos o quanto ele está seguindo, antes de mais nada, a fidelidade inquebrantável a valores humanos, com que ele quer fazer dobrar as relações correntes, antes que a realidade dessas relações o dobrem. Para o Quixote, um senhor fustigando seu servo numa beira de estrada, a despeito das razões que o senhor possa ter, não é nada mais do que a imagem da injustiça, sobre a qual o cavaleiro deve intervir. Para ele, criminosos condenados pelo próprio rei a duros trabalhos durante anos numa galé, acorrentados a caminho de sua pena, merecem uma chance de se redimirem, porque o único juiz infalível é somente Deus, para além do rei. Para o Quixote, a honra de uma senhora renomada deve ser defendida, se necessário à base da porrada, contra quem ouse dela divergir, mesmo que essa senhora exista apenas na imaginação do herói, não passando de um personagem de romance de cavalaria. Como vemos, a loucura do Quixote não pode ser considerada de jeito nenhum uma “loucura mansa”, e no entanto é uma loucura sobre a qual ninguém poderia dizer que é incoerente, visto basear-se numa solidez dignificada. O Quixote não quer apenas consertar o mundo, ele quer também concertá-lo, partindo de um princípio que organize suas ações. Se podemos dizer que o Quixote escolheu errado seus princípios, por outro lado DEVEMOS reconhecer que o mundo nunca será mais que um “eterno desconcerto”, nas palavras de nosso querido Camões.

Portanto, o Quixote é o único que, diante do eterno desconcerto do mundo, se recusa a assumir o permanente cinismo de todas as outras pessoas, que se defendem na superfície das aparências identitárias para justificarem suas atitudes por vezes perversas e desumanas. O Quixote assume a irrealidade de seu mundo quixotesco como meio para se insinuar ao mundo real, mostrando para este o quanto ele parece imperfeito diante da dignidade do herói, aquém de seus sonhos, aquém de suas utopias, aquém da mera possibilidade de justiça. Para que a realidade não se desestabilize diante da presença impertinente do cavaleiro andante “da Triste Figura”, ela precisa dizer a todo tempo que aquele que diverge de sua norma não passa de um maluco. Mas do ponto de vista do Quixote, no meio da sua solidão absoluta, o difícil mesmo não é combater moinhos de vento, o difícil é provar que a loucura está em quem conforma-se plenamente com esse eterno desconcerto do mundo.

No meio da sua loucura, o Quixote é o único que se recusa a assumir as aparências correntes no mundo preconcebido por outros. Mesmo quando seus olhos veem apenas o que veem, ele entende o desconcerto como encantamento com que um gênio maligno vive a perseguí-lo. Definitivamente, não conheço qualquer outra dignidade mais elevada do que essa do Quixote, a dignidade da loucura. É preciso conceder a chance de que as prostitutas sejam mais do que parecem, sejam “senhoritas”. Mesmo que a realidade venha continuamente a nos desmentir, é preciso vê-las antes como “senhoritas”. Talvez o único ato de sanidade diante de um mundo que se enlouqueceu.

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