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sábado, 29 de outubro de 2011

Diário de bordo




Estou parado já não sei há quantos anos neste porto, que pela assiduidade transformou-se em minha casa. Não há mares dobrando a vista, não há navios. O porto em que me demoro só tem cais para o espaço, espaço-porto. O horizonte é todo o universo, e o universo é infinito.


O longo tempo de uma espera tende a verter a esperança em nostalgia. E em verdade eu já nem sei se sonho acordado, ou se minha vigília traduz alguma espécie de lucidez. Nunca vi nave aqui aportando nem zarpando, nem descobri, nos outros moradores desse porto, o mesmo interesse que o meu em siderações. Talvez nenhuma nave nunca chegue ou parta, mas no meu silêncio mora desde sempre uma janela apontada para estrelas. Para lá é que minha atenção converge, e não para a massa caótica de fatos com que a vida na terra se acostuma, no esforço de sobreviver. Penso até que não sou originário deste mundo, pois os brilhos no céu como que guardam a promessa de retorno a não sei que antiga casa. Algum outro porto perdido no espaço-tempo, que não é este aqui em que me encontro.


Inefável certeza, a de haver pisado em outros solos, de outros planetas, de outras galáxias, muito antes de estagnar-me neste canto tedioso do universo. Minha memória não guarda lembranças, guarda apenas a inclinação, o impulso, a assimetria. Guarda apenas o atavismo de estranhar que as coisas sejam como já estão dadas, um ponto de chegada para tudo aquilo que foi, e não apenas um mero ponto de partida. Acostumado com o movimento celeste, meus olhos pousam para as demandas da terra, no intuito de encontrar a mesma dinâmica. Mas a terra é um pântano de estrelas mortas, e o que nela se move apenas reproduz a inércia de incógnitas forças. Deus talvez quisesse renascer no meu olhar, solicitando que o mundo fosse recriado novamente. Mas ele deve ter exilado para algum outro planeta, pois tudo que aqui restou traz a marca de uma indefinível ausência.


Debaixo do céu na noite fria e estrelada, a terra se parece com alguma coisa velha, alguma coisa gasta, corroída pelo tempo, e pela miséria de já ter visto tudo o que se havia para ver. Mas o mais triste é saber que os astrônomos já deram até nomes para todas as estrelas, para todas elas, para todas que eu consigo ver com meus olhos nus. E eles ainda comemoram quando seus instrumentos descobrem um novo brilho no céu, como se já não fosse suficiente mistério a existência de apenas um astro solitário, navegando na imensidão absurda do cosmos.


Apenas um astro solitário, e para além dele a escuridão, o além e o desconhecido. Apenas um astro solitário, e sobre ele a apavorante diversidade da vida, a escandalosa evidência de que a natureza revela vontade. Epifenômeno brotado de um mar de esterilidade e caos, querendo, pedindo, implorando por nascer, e deveras nascendo, mas também morrendo. Quintilhões de criaturas que sentem, que choram, que gozam, que lembram, que esquecem, que sofrem, e cada um desses mínimos impulsos com o seu valor, com o seu direito à existência. E no seio borbulhante disso tudo esconde-se o além e o desconhecido. E nesse seio fervilhante, bilhões de animais humanos correndo atrás de seus supostos interesses, e todos eles crescendo, maturando, envelhecendo, todos eles sonhando e chorando, todos eles sofrendo. E cada um deles colhendo de si alguma singularidade, relâmpago de impulsos e desejos traçado na noite dos tempos, dizendo no mesmo gesto olá e adeus para cada instante. Bilhões de animais humanos, e entre eles há este indivíduo, que pensa que sabe e fala sobre tudo isso, calculando singularidades em cifras, no centro indeterminado de toda inquietação. E dentro deste indivíduo há mais além e mais desconhecido, pulsando por respostas para todas as perguntas já feitas, e para aquelas que ainda serão.


Tanta exuberância, tanta ubiquidade, e no centro disso tudo a sensação de que nada pode ser bastante. Ainda faltam as estrelas, sempre faltarão as estrelas, e dar nome para elas é apenas um disfarce para o espanto. O céu que hoje contemplo não é o mesmo que eu tinha visto ontem, assim como o céu de agora não é igual ao de um minuto atrás. Por isso, aceno com piscadela a cada novo brilho que encontro, talvez com a esperança de que esse cumprimento soe como familiar. Será que alguém aí em cima me reconhece? Será que alguém aí sabe quem eu sou? Sabe o que eu devo fazer com essa coisa chamada existência? O curto tempo de passagem entre o meu oi e o meu adeus, no meio do qual inúmeros disparates acontecem, talvez apenas disparates aconteçam. Alguém aí sabe, alguém aí pode me dizer?


Talvez eu seja alguma espécie de cosmonauta. Dedicado a investigar a vida terrestre, disfarçado momentaneamente numa máscara de vida terrestre, esquecido da gravidade da antiga missão. Talvez a minha nave tenha se despencado na entrada do planeta, explodindo em infinitos e raros pedacinhos, ao longo da ampla superfície. Talvez apenas me reste recolher esses fragmentos, um a um, a fim de reconstruir a nave despedaçada, e encontrar a tão ansiada via de retorno a casa. Talvez, no meio desse laborioso intento, eu fosse lentamente recordando, no milagre da anamnese, todos os minuciosos passos que me trouxeram até aqui. Talvez os segredos de tal íntima reminiscência afinal justifiquem todos, todos os mínimos, os mais absurdos, os mais desencontrados passos que foram dados, e com essa revelação eu possa retornar para a casa feliz. Sim, talvez... apenas um simples e improvável talvez...


Debaixo da imensa abóbada do céu noturno, enquanto o resto da vida dorme, se acalma, silencia, meus sonhos despertam em desvario. Parado neste porto, espaço-porto, cujo horizonte é todo o universo, exprimo em temerária linguagem o pasmo de afinal estar aqui. Trago comigo rastros de cheiros, gostos, sons, visões de um outro mundo sem correspondência com este, e agora quero saber o que essas sombras significam. Capitão incógnito, cuja nave naufragou no mar dos cosmos sem deixar vestígios, divulgo meu diário de bordo, com a esperança de que seja encontrado alguém de semelhante destino. Igual minimamente na inclinação para a estranheza, parado nalgum porto chamado também de casa. Irmão no desconsolo de nunca retornar para aquele lar indefinido, onde éramos talvez deveras irmãos.


O céu, o universo, o infinito, cabem todos dentro de um coração, sem que ele próprio possa caber em si mesmo.

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