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domingo, 14 de dezembro de 2014

Todos vão para o Céu, Chico? Todos não, por favor...



     Papa Francisco diz que todos nos encontraremos no Céu. E com esse “todos” ele quis dizer “tudo que nos rodeia e que saiu do pensamento e do coração de Deus”. Simples e conciliatórias palavras; não esperaria menos do chefão dos cristãos. Mas como as pessoas têm uma séria dificuldade com linguagem figurada, algumas associações de proteção de animais louvaram a afirmação do Papa como se lhes dissesse respeito, enquanto alguns teólogos, em sua nobre função de tirar a graça do mundo, disseram refletidamente que “não é bem assim”.

 
Paizão Chico e seu futuro companheiro celeste - L'osservatore Romano/Reuters


     Dizem os senhores de Igreja que, após a morte, haverá uma “transformação”, e que só então poderemos nos gabar de participar da plenitude do ser. Que transformação é essa ninguém sabe dizer, mas eu não posso deixar de concordar que, se o Céu for apenas um reflexo do mundo, apenas uma grande casa de família para reencontrarmos parentes e amigos, deve ser mesmo um pé no saco. Ninguém merece o titio do pavê que adora lembrar os nossos micos de infância. Ninguém merece aquele amigo super-distante, que você sabe que lhe xingava pelas costas e que pela frente era todo rasgação de sedas. Ninguém merece que o comércio mundano, a via-crúcis da existência, seja multiplicada infinitamente pela eternidade, a repetir as mesmas comuns experiências que nos cabem como que por preguiça de viver.

     Mas nós sabemos o que essa história de “transformação”, aditada pelos nobres senhores de Igreja, quer dizer afinal. Quer dizer que o Céu é um bem exclusivo, e é bom que você em vida faça apenas coisas por merecê-lo, caso contrário... já sabe, né? Mais uma vez, tendo a concordar que o Céu seja um bem exclusivo, porém, eu não estou seguro de que os homens de Igreja, guardiões orgulhosos dessa visão celeste, mereçam adentrar nele.

     Na verdade, ouso dizer mais. Se dependesse de mim (mas eu sei que não depende), devido ao número exorbitante de “pecados” que somos levados a cometer em vida, homens e mulheres adultos não mereceriam entrar no Céu. Quem é que pode se gabar de nunca ter cometido uma grande injustiça? Quem é que pode negar alguma vez ter praticado uma grande violência? Quem é que, em sua sã consciência, diria que sempre foi imune a lograr diante de alguma forma de maldade? Os próprios cristãos reconhecem que esse mundo aqui não presta muito, e é por isso que criam a visão de outro mundo que compense os males daqui.

     Mas no meu Céu não entrariam homens e mulheres adultos, cheio das tralhas que a vida os obrigou a carregar, cheios de certezas e ressentimentos. No meu Céu só entrariam animais... e algumas crianças... Desculpe-me Papa Francisco, sei que você é um cara legalzão, que quer incluir todo mundo e tudo mais, mas é que simplesmente não dá. O problema é essa tal de consciência. A consciência é uma droga, dizem todos os religiosos, filósofos, moralistas e poetas de todos os tempos, e eu não posso deixar de lhes dar razão. Veja o que a consciência fez com tua Igreja, com a mensagem simploriamente pacífica de Jesus Cristo, com tudo o que diz respeito à tentativa de conciliação entre os seres viventes. A consciência quer saber de tudo, e acaba que não consegue saber de nada, e ainda piora tudo que toca, pois não é possível dessaber as coisas. Enfim, é aquela velha história da Queda, que tua Igreja conhece bem, mas que pouco faz além de agravar os tropeços e apressar os tombos até o abismo...

     Não, no meu céu só haveria animais e crianças... Lembra daquela época em que a gente brincava debaixo do sol a pino, correndo, pulando e girando como se não houvesse amanhã, sem nenhuma preocupação sobre a nossa saúde, nossas tarefas, nosso sono, nossas contas, nosso futuro? Pois então, toda vez que lembramos é com alguma nostalgia que lembramos, e por isso que dizemos coisas do tipo: “Eu era feliz e não sabia!!!”. Ok, talvez exageremos um pouco ao dizer isso, mas esse dito não deixa de expressar uma verdade, que vai de encontro justamente àquela reflexão anterior, que saber é um troço meio ruim mesmo, a consciência é uma droga.

     Papa Francisco, no meu céu só entrariam animais e crianças, e é possível que a tua Igreja não diga outra coisa com essa história toda de “transformação”. Afinal, queremos reverter a severa punição imposta a Adão e Eva, de serem expulsos do Paraíso, e Jesus veio justamente para isso, mas parece que não adiantou muito, como um legalista que baixasse uma lei que ninguém seguisse, como o Direito sem Justiça. A História já está tarde demais, e todos estão ficando muito velhos, cheios de razão, cheios de poderes, cheios de consciência.

     Sei que tua intenção em incluir todos nesse Céu hipotético são as melhores possíveis, mas eu só consigo pensar que no meu Céu só mereçam entrar animais e crianças. Com a cabeça que eu tenho hoje, não quero me ver no Céu, eu não me aguentaria lá. Estragaria tudo que tocasse com o saber que estou tocando, e com isso, a única graça de viver, que é a de ser feliz sem dar por isso, não me seria possível.

      Papa Francisco, espero que o senhor entenda meu senso estranho de exclusão, vício perverso do pensamento, e talvez encontre nele uma pequena ressalva às tuas palavras. Quem sabe, se eu estiver certo, um dia nos encontremos lá no Céu, esquecidos dos nossos trajes e nossas importâncias, nós dois, brincando de novo debaixo de um novo sol, sem dar por exclusões nem problemas teológicos... Sim, nós dois... e alguns animais...