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sábado, 28 de dezembro de 2013

Nostalgia de um natal que não há



Em todo natal, a mesma coisa mal digerida. A afetação por algo que deve acontecer diferente. A correria e o tumulto comercial. A passividade para sentimentos excessivamente doces. A irônica reunião em família, que a cada ano se torna mais impossível. Todos guardamos nossas reservas quanto a esses rituais sociais; guardamos, pois, num mundo onde nada mais é sagrado, não deixa de ser um milagre a instituição permanente de um rito. Por mim, eu não pretendo cair no engodo de criticar o evento: até os mais demagogos possuem suas críticas severas ao natal.


        O que me interessa é a ambivalência que mantemos em face da cerimônia. Apesar de ser carregada de símbolos cristãos, pouco importam eles, são uma deslembrança um pouco incômoda. Em verdade, o natal, como tal, existe é para as crianças. É para elas que fazemos tudo isso; daí os presentes, os enfeites, o papai noel, a fantasia. É para elas que fazemos isso, mas nós mesmos já não podemos nos encantar com quase nada. Em cada presente que entregamos, em cada fábula que contamos, em cada cuidado para deixar tudo bonitinho, mora a nostalgia por algum natal passado. É com inveja que fazemos tudo isso, inveja de não sermos mais crianças, e de reconhecer, no entanto, que devemos fazer isso por elas.


        A fantasia do papai noel talvez seja o exemplo máximo dessa ambivalência, em detrimento ao aniversário de um tal de Jesus Cristo. Jesus pode nascer, pregar, praguejar, sofrer e ser crucificado mais uma vez ao longo do ano, afinal é para isso que ele serve; mas se uma criança no mundo ocidental não tiver direito ao seu presente e à sua imaginação, então o nosso coração fica fatalmente ferido. E é justamente o papai noel, símbolo indireto do fervor comercial e da dinâmica capitalista, quem aparece como protagonista da fantasia. Justamente ele que, além de seu saco incansável de presentes, carrega no rastro do trenó as mazelas de um sistema econômico que, no resto do ano, costuma negar à imensa maioria das crianças uma vida um pouco mais digna. Solidariedade é dar presentes pra quem não pode se dar, num mundo baseado em trocas de produtos e serviços, achemos isso legal ou não. Pior do que reconhecer que até o mais íntimo da imaginação está colonizado, é pensar que já não temos direito nem à imaginação.


        O mundo se divide entre quem acredita em papai noel e quem não acredita mais. Deixar de acreditar nele é um evento central na vida de cada um. Geralmente, nós protegemos as crianças da verdade, por achar que a verdade pode ser demais para elas. Mas nesse caso, nós protegemos as crianças numa mentira, sem nenhuma razão imediata para isso. Não deixa de haver uma gratuidade na fantasia do papai noel, gratuidade que a nossa cultura parece negar a quase tudo mais. Vivemos tão intensamente um vício onipresente de realidade, uma ansiedade por saber sobre ela, que expulsamos a ficção ou para o nicho de um específico entretenimento, ou para o universo da imaturidade infantil. Ou para os dois ao mesmo tempo.


      Descobrir que papai noel não existe é uma descoberta singular. A descoberta de que o mundo adulto comporta uma estranha malícia. A descoberta de que se deve tomar parte nessa malícia, preservando a fantasia alheia dos pequenos crédulos. A descoberta de que, apesar de o papai noel não existir, outras fantasias continuam a povoar os sonhos da humanidade, como a fantasia de Deus, a fantasia da felicidade, a fantasia da paz, a fantasia da justiça, e afinal nunca se pode estar seguro sobre o que eventualmente se descobre. Existe um orgulho estranho na descoberta de que papai noel não existe. Orgulho de pertencer a uma outra e nova esfera, uma nova perspectiva das coisas, na qual nada se simplifica e tudo se complica. Todas as crianças que descobrem que papai noel não existe são orgulhosas de pedra, e se defendem imperativamente: “Ah, mas eu não acredito mais!”. Um orgulho bobo, devemos confessar. Talvez seja a primeira descoberta delas. E talvez também seja a última.


       Em toda criança a história da humanidade vive uma nova e efêmera aurora, tempo mítico em que deuses e poderes ocultos vêm para a frente do palco, em que os fenômenos do mundo são explicados pelas mesmas palavras que usamos para as coisas mais banais da vida, em que o próprio mundo possui a coerência de uma fruta redonda, de casca colorida e polpa doce por dentro, e que se pode descartar tão logo se coma, sem dor nenhuma na consciência.


          Toda ciência, informação, esclarecimento que adquirimos, no momento em que expandem um pouquinho mais as fronteiras de nosso entendimento sobre o todo, também costumam roubar de nós a própria ideia do todo, pois agora o mundo já não pode mais ser narrado. De alguma maneira, é essa a descoberta da criança quando descobre que papai noel não existe, a descoberta de que suas palavras não bastavam, de que é preciso perdê-las para dar conta de mais um pedacinho do mundo, e de que é preciso perder muito mais até a longa caminhada para a vida adulta, quando afinal se descobre que tudo o que se descobriu até então dá ainda menos conta de se narrar o mundo, e de que afinal era melhor ter ficado mesmo com fábulas, que pelo menos tinham alguma coisa de encanto. Da mesma forma que olhamos para os povos antigos e reconhecemos neles uma certa unidade de estilo, uma certa sabedoria para se viver a vida como ela deve ser vivida, olhamos para nossa infância e pensamos que fomos felizes um dia, mesmo que, num caso e no outro, projetemos expectativas e preconceitos em nosso olhar, mesmo que mal disfarcemos um gesto de desespero no julgamento, temperado pelas dores presentes da nostalgia.


          Se a fantasia do papai noel, e outras poucas, é o que restou como fábulas para as crianças, e se essas fantasias sempre carregam símbolos impuros de nosso mundo tresloucado, talvez isso ateste a pobreza de valores daquilo que chamamos "riqueza". Seja como for, a infância continua a manter sua aura sagrada, e em cada criança revive a infância da humanidade mais uma vez, com as representações que lhe sobraram às mãos, embora pobres e cafonas.

 
E para terminar bem, uma foto de meu papai noel preferido