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sexta-feira, 24 de maio de 2013

Sobre etiquetas e farsas


"There is no present or future,
only the past,
  happening over and over again,
now" 
(Eugene O'Neill, sugerido por Maíra) 



            Desde criança, eu tinha o costume de segurar os talheres de maneira não convencional, ou pelo menos da maneira que até então convinha a mim. Segurava o garfo ou a colher com a mão em punho, apoiando os quatro dedos em baixo do talher e fixando-o por cima com o polegar. Comia como se estivesse “cavando” comida no prato, com movimentos ligeiros e ao mesmo tempo bruscos, mecânicos, expressão particular de meu desengonço geral. Foi a forma como aprendi a comer, que a minha teimosia fixou em torno de meus hábitos à mesa. Creio que desde sempre considerei a alimentação algo como uma cerimônia sagrada. Mexer nela era ensejo para um mal estar que sempre me tirava o apetite. Acho que minha mãe até tentou algumas vezes corrigir esse meu desajeito, porém, sem muito sucesso. E eu passei assim desajeitado, ingênuo na fantasia de não ser julgado por ninguém por isso.


           Fato é que eu ingressei no Colégio Naval, e para os calouros que lá entram não existe o luxo de cerimonizar as refeições. O espaço do refeitório é mais um entre os infaustos lugares em que veteranos e calouros se encontram, pintando a questão da disciplina com as cores mais inusitadas. Foi no rancho do Colégio Naval que eu assisti a algumas das coisas mais terríveis acontecendo com outros colegas de turma. Para minha sorte, o destino foi benevolente comigo, e eu pude, na maioria dos casos, apenas assistir. Mas quem “cava” um prato de comida não pode passar despercebido por olhos aguçados no poder precoce. Pois eu tive de pagar um certo preço pela minha alegre ingenuidade. Convenhamos, um preço bem brando, diante das circunstâncias.


            Tinha um veterano na minha mesa que não era exatamente um modelo de simpatia. Por outro lado, ele também não era agressivo, não era dos que sentiam prazer na dor alheia. Esqueço-me completamente de seu nome de guerra; lembro-me de que era um rapaz baixo, magro mas um pouco forte, com um rosto de feições mongólicas, a face craterada pela acne, a sombra da barba feita manchando o rosto, dando aparência de sujo, um olhar geralmente vazio, mas que variava entre o disperso e o demoníaco, que causava uma certa aura de respeito entre os habitantes da mesa. No clima permanentemente tenso do rancho, nós calouros nem tínhamos do que reclamar dele, que pegava a sua bandeja, sentava na ponta da mesa, e enfiava a cabeça dentro de seu prato de comida, em silêncio. Muito de vez em quando, ele tinha alguns achaques de grandeza, e resolvia, de maneira bem afetada, fazer trovejar sua autoridade sobre nós. Mas na maioria do tempo ele era apenas alguém ausente, talvez preocupado com outras coisas além dessas minúcias miseráveis.


O famoso rancho do Colégio Naval

           Um parêntese, verdade seja dita: os militares, formados nessas instituições dinossáuricas de ensino, possuem uma percepção um pouco mórbida para algumas minúcias miseráveis. Meus leitores devem observar (espero que observem) que eu falo sobre essas coisas com uma dose previamente preparada de sarcasmo. Eu sei, eu sei... todos já fomos um dia jovens e imbecis nessa vida, mas eu guardo a convicção de que é muito melhor ser jovem e imbecil fora de um internato. Porém, naquela época, eu ainda estava muito longe de chegar a essa conclusão...


            Pois então voltemos à questão de etiqueta. Eu, nos momentos em que me era concedida a dádiva de comer, continuava alegremente a “cavar” meu prato de comida. Esse veterano que sentava à minha mesa percebeu o desengonço, e deu a ordem inflexível para que eu comesse da maneira certa.

Vá lá, eu não tinha nascido ontem, e sabia qual era a maneira correta de segurar talheres. Com o talher atravessado entre o dedo médio e o indicador, e apoiado na dobra que o polegar faz com o resto da mão. É o jeito como a mão se permite movimentos mais precisos e delicados, aplicando o movimento giratório principalmente em função dos dedos, ao invés de fazê-lo depender do pulso. Mas quando eu tentava segurar o garfo dessa forma, mostrava o quanto meus dedos eram insensíveis para movimentos mais delicados. A comida despencava do talher, e bem mal alguns grãos de arroz chegavam à boca. Era preciso reaprender do zero a manejar, aprendizado esse (eu pensava) que talvez não fosse muito bem estimulado pela coerção. Eu, com o garfo na mão, da maneira como me ordenava o veterano, era como uma criança, ou como alguém que começa hoje a aprender a segurar o hashi, aqueles famosos palitinhos japoneses.


            Mas o pior foi que eu tentei argumentar com o mais antigo, premido pela preguiça. A dificuldade de segurar o garfo do jeito correto era patente de tão ridícula, e eu continuei a fazer do meu jeito. Até que o veterano percebeu o meu cinismo, e me ordenou novamente a fazer o que já havia mandado, e dessa vez de maneira bem mais grosseira. Foi aí que eu, contrariado pelo oco da ordem, lutando contra não sei quê de minha timidez, com saudades das regalias de casa, disse, do modo mais patético possível:


            — Mas eu só sei comer assim!...


            Ao que o veterano respondeu, sem pensar, como um tiro:


              Foda-se, pois agora vai aprender de outro jeito.


            Creio que esse foi o “foda-se” mais inesquecível que eu ouvi até hoje. Não só porque ele foi dito com um logro invejável, mas principalmente pois se dirigia a mim diretamente, retíssimo, sem fazer a mínima curva. Baixei a cabeça e aceitei a ordem do mais antigo. Entre meus colegas à mesa, fez-se um silêncio total, talvez solidário com minha aflição, talvez soberbo e feliz com ela. Não tinha mesmo o que fazer diante daquilo, o jeito era aprender o jeito certo de comer como gente. Já não me lembro do que aconteceu depois, apenas sei que, dentro de pouco mais de uma semana, eu já estava adaptado a segurar o garfo de modo que não levasse bronca por isso. Bem, pelo menos não por isso...


            Moral da história: talvez seja melhor aprender com os conselhos amorosos da mãe do que ter de aprender com a violência do mundo. Mas digo isso sem muita convicção do que estou dizendo, pois, a bem da verdade, sinto que o meu orgulho não quer se entregar tão fácil assim. Comecei a escrever essa história pensando numa moral para ela, mas agora já não sei se essa moral cabe bem para a história que contei.


            O velho Marx tem um dito, referindo-se à História: que ela acontece primeiro como tragédia, e se repete depois como farsa. Isso do ponto de vista da coletividade, que insiste em não aprender com os erros do passado, repetindo-os redundantemente no palco dos acontecimentos futuros. No entanto, prefiro dizer, de um ponto de vista individual, que os fatos nos ocorrem agora como tragédia, mas nós os revivemos depois, só podemos revivê-los depois, como se fossem farsa. Pois a memória tem mesmo essa coisa de dramaturgo brincalhão, que insiste em pregar as suas peças lá onde a gente gostaria de extrair grandes sentimentos. Fico, do lado de cá da minha vida presente, sem um sentido moral do que me aconteceu, mas com um sorriso de canto de boca, que corre o risco, sempre iminente, de verter-se em desespero.


            Mas pelo menos agora já não sou calouro militar, nem tenho tantas lições de etiqueta para aprender. Meus professores de hoje, quando têm de insistir contra minha estupidez, costumam ser infinitamente menos grosseiros do que os modelos que apreendi de minha vivência na Marinha. É certo que eu continuo a ensaiar umas tantas tragédias, assim como é tão certo não me faltarão outras quantas farsas para contar. O meu garfo agora gira delicadamente, e com aquele orgulho eu digo que não mais me importa como eu aprendi a segurá-lo assim. Saber disso é reconhecer que todo ressentimento só pode ser superado pelo esforço sempre hesitante de uma ironia.

2 comentários:

  1. Vc não colocou moral na sua história, mas, se vc não se incomodar pelo meu ímpeto de interatividade, eu gostaria de colocar uma epígrafe... Daquelas bem óbvias... No caso, retomarei o célebre drmaturgo Eugene o'neil... Pois o escutei recentemente... Vulgarizado, diminuido (ou popularizado)... Numa citação de fim de episódio de série de investigação criminal da TV americana: "There is no present or future-only the past, happening over and over again-now."

    combinou, né? :p
    saudades, monitor! :)
    bjs, Maíra (ex monitora Uerj)

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    1. Olá Maíra, saudades de você também!
      Precisamos de mais uma daquelas conversas!

      Aceitei a sua sugestão de epígrafe, apesar de não conhecer o O'Neill. Você disse que tirou a frase de uma série policial, mas é claro que não tem problema, poxa! O único "crime" da inteligência é revelar as suas próprias fontes. rsrsrs

      Beijos, querida!

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