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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Correio de Midgar nº 2


O guardador de ruídos

Pois aqui estou eu mais de dois anos após o início desse cinzento blog, falando de coisas que talvez interessem a duas ou três vivalmas. Desde muito tempo, eu aprendi que a autopenitência é uma das formas de orgulho mais efetivas. Quem pune o próprio corpo e alma, no fundo, guarda a leve esperança de que está ganhando um ponto a mais com Deus. No entanto, fazer propaganda negativa de si próprio, diante de um público honesto e atento, é uma das cenas mais ridículas que alguém pode promover. E eu devo confessar que muitas vezes fui ridículo dessa maneira.

Ou alguém possui talento, ou então não possui: a questão é bem simples. Não é preciso que um aspirante a gênio fique performatizando sua aspiração sublime em troca de algumas poucas moedas de lisonja. Há que ser muito humilde para reconhecer a própria soberba. O nosso problema é que geralmente não temos uma escala de valores bastante afinada para localizar a insignificância de outros, e também a nossa. Quantas coisas que hoje adoramos nos parecerão idiotas daqui a uns dez anos? Todos olhamos com muita benevolência para a infância, talvez para salvar a criança que ainda somos do ácido que agora lançamos contra tudo. Mas o meu maior sonho nessa vida é ser criança quando crescer...

Já vai bem longe o tempo em que eu gastava palavras para encenar umas autoafirmações. Agora, eu simplesmente sei que a minha luta tem o valor que eu acreditar que ela tem. É melhor ser um Quixote, que dá cabeçadas em moinhos de vento, do que ser Hamlet, que nem ao menos sabe se seus fantasmas são reais. A vida já é curta demais para duvidar de si mesmo, e o ceticismo é uma daquelas drogas que devem ser usadas com moderação. Admito para mim, portanto, aquilo que considero um princípio dos mais imparciais: quando olho para o meu próximo, é com olhar cético que olho, mas, para todos os efeitos, o meu umbigo é o centro do mundo.

Alguns vão achar que esse é um critério egoísta demais, no sentido pejorativo da palavra. Mas eu me defendo dizendo o contrário, pois me parece um tanto mais humanista não esperar nada das pessoas, sabendo que o que vier delas é lucro. Por outro lado, exigir de si próprio é a única exigência não injusta, pois seu cumprimento se baseia apenas na eficácia dessa doce ilusão a quem chamamos “eu”. Não é possível defender o outro sem tornar o outro um objeto de sua defesa, e ao dizer isso invoco o eterno mestre Alberto Caeiro. “Que tem a ver com o poente quem odeia e ama?”, assim ele pergunta, para os homens preocupados com os rumos do mundo. Algumas pessoas servem melhor a Deus simplesmente não acreditando nele, eis uma das poucas crenças que me restaram. Mas assim como Kant, também possuo o meu imperativo categórico. “E que ninguém aponte para o umbigo alheio sem antes verificar se o próprio não se encontra devidamente sujo”. Jesus já dizia isso, a seu modo, muito antes, mas o Cristianismo nunca fez questão de ouvi-lo. Pelo menos de surdez ninguém pode me acusar... Amém!


Divagações em torno do nada

Desde o último Correio até este, os meus textos vêm tomando uma direção um pouco diferente. Se no primeiro ano do blog eu estava mais preocupado em criar crônicas e fábulas e ficções, no segundo ano eu simplesmente deixei fluir o meu pendor ensaístico. Na verdade, eu não deixei nada, eu fui deixado, pois no segundo ano a minha inspiração inicial simplesmente me abandonou, a fonte criativa de meu blog secou, e eu tive de publicar esses ensaios para não perder o tempo das publicações. Com exceção de apenas dois textos (“A dignidade da loucura” e “O último olhar de Argos”), que não por acaso são os melhores textos, todos os outros foram produzidos com outras finalidades que não a publicação imediata no blog. Alguns foram escritos como trabalhos finais para disciplinas de meu curso de Letras na UERJ (“Sombras de um Japão imaginário” e “O horizonte comum entre Cesário Verde e Alberto Caeiro”). Outros resultaram como subprodutos da pesquisa de Iniciação Científica que desenvolvo em auxílio ao professor Gustavo Bernardo (“Solaris como horizonte da fé” e “O Deus ausente de Borges”). E houve um que escrevi já faz um tempo considerável, mas que resolvi ressuscitá-lo pelas suas virtudes próprias (“A morte do Pequeno Príncipe”).

Pelo menos os ensaios tiveram um cuidado eminentemente autoral, evitando o academicismo que, na minha humilde opinião, nada produz além de convenções em torno de algum tema qualquer. A qualidade que disso deriva eu devo, antes de tudo, à minha própria teimosia, e à confiança que alguns poucos mestres e amigos depositaram em mim. São textos que ressentem da ignorância quase completa de seu autor acerca dos temas então abordados. Creio que “ensaiar” é mais ou menos isso mesmo: sair (di)vagando sem direção nem meta, em volta de algo que apenas se toca tangencialmente. Talvez o gênero ensaio seja a forma mais sutil que a literatura tenha para se disfarçar de seriedade. Se ela consegue se disfarçar deveras, isso já é assunto para um outro ensaio.

Apenas sei que os meus textos tentaram se aproximar de alguns poucos temas, geralmente a leitura de um livro, sem pressuporem uma visão definitiva sobre eles. Relendo meus textos, deduzo uma constante preocupação dialógica, talvez derivada de meu embate com a filosofia de Vilém Flusser. Em tudo que escrevo carrego a sensação de estar começando do zero a experiência própria do escrever. Em volta de mim, milhões de textos exercem cada um a sua força centrípeta, porém, quando escrevo, é fugindo deles que o faço. Toda originalidade caminha perto de uma ignorância mediadora, apesar de nada poder garanti-la de antemão. Em literatura, as grandes obras cedo ou tarde retornam da tumba para se vingarem dos que sobre elas lançaram a fria lente da análise.


A dura arte de desatar nós

Neste mês de abril faz exatos quatro anos que iniciaram minhas aulas na UERJ. Havia saído da Marinha, enquanto Aspirante da Escola Naval, para fazer Letras numa universidade pública. Lembro da mistura de sentimentos, de culpa, de medo, de esperança, de ansiedade, que marcaram aquela época para mim. Meus pensamentos sobre essa mudança sempre foram sombrios, e, ainda hoje, eu necessito de um pouco de filosofia para admitir a mim mesmo que tenho direito à vida. Mas a verdade é que muito do que eu fiz eu fiz simplesmente por inércia. Desde entrar na Marinha até sair dela. Sempre fui um militar medíocre, que fugia a todo custo das formalidades do quartel. O ambiente estimulava a hipocrisia, o preconceito, a “lei de Gerson”, e eu sentia nojo só da ideia de lograr a minha estadia ali. Acabei adquirindo uma série de traumas, alguns espirituais, outros até somáticos, como a minha gagueira. Quando me vi livre daquilo, fiz questão de esquecer inclusive os poucos amigos que tive por causa daquela vivência. Penso que nunca me arrependi em ter desprezado tanto os 7 anos de minha vida gastos em torno de uma falsa escolha feita aos 14 anos de idade. No fundo, o que eu sempre desprezei foi a minha própria covardia...

Porém, o contato com a UERJ conseguiu injetar em mim, ainda que tardiamente, um pouco de juventude. Às vezes, eu fico rindo sozinho ao lembrar o quanto eu era, naquele ano de 2009, um troglodita em algumas de minhas atitudes. Creio que o refino de minha postura sempre teve a ver, de certa forma, com tomar definitivamente a rédea de meu destino. Quando não se pode mais culpar o ambiente por ter te transformado em monstro, também não se pode justificar o fato de se ser um canalha. E eu garanto que pude contar com várias pessoas que contribuíram para me descanalharem. Também contei com um certo tanto de sorte para encontrar o jeito certo de me fazer um pouco mais humano. Tive tempo, tive paciência, tive força, tive coragem.

Se existem duas palavras que me definam, acho que elas são melancolia e ceticismo. Melancolia como atitude afetiva, por saber que quase nada pode ser de acordo com a nossa vontade, o que nos impele a imaginar mundos ideais, sonhos acordados. Ceticismo como atitude intelectual, que desconfia da integridade da ideia de verdade, sugerindo que qualquer sabedoria possível apenas se dá por meio de encontros imprevistos numa busca que nunca termina. Não deixa de ser estranho como geralmente se conceba a melancolia e o ceticismo como conceitos quase invariavelmente negativos. Sinal de que o nosso mundo encontra sempre diversas maneiras para cegar-se para a fragilidade de seus fundamentos. Não à toa, aqueles que se dizem crédulos e felizes são os que mais sofrem com as desditas com que a vida cedo ou tarde a todos premia.

Algumas pessoas dizem que eu sou “gentil”, mas ninguém sabe do tamanho do esforço que tenho para parecer assim. Antes de mais nada, gostaria de apenas poder ser um “gentio”. Tenho a impressão de que, por caridade, me permitiram entrar pela porta de trás da civilização, e agora me custa um pouco permanecer nela. Tudo que conquistei até aqui, pelo menos parcialmente, atesta uma vitória contra os instintos destrutivos (e principalmente os autodestrutivos) que carrego dentro de mim. Minha luta com palavras não passa de fabulação de uma outra luta, que afinal é a luta individual de cada homem e mulher por encontrar razões para não amarrar a corda ao pescoço.

Pode até ser que eu não tenha tantas razões assim, mas é verdade que eu tento ainda hoje procurá-las. Obrigado, amigos e leitores, por suportarem minha presença, e por não me darem de presente pedaços de corda nem dicas para compor nós. Se procuramos diálogos é justamente para desatar os nossos nós, não é isso? Creio que um dia verei todas as minhas cordas desatadas, todas esticadas em linha reta ao pé de mim, e devo estar então cheio de rugas, rindo de tanta bobagem quanto fui buscando um jeito de sobreviver.