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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ano novo, novo velho


Eterno retorno.

Eis mais uma expressão daquelas poucas que conseguem sair do terreno mais ou menos inóspito do vocabulário conceitual de determinado autor para adentrar as metrópoles populosas do senso-comum, onde sua relação com a origem é inevitavelmente transformada. Nas obras de Nietzsche, “eterno retorno” costumava ser um termo bastante ambivalente, sujeito às oscilações de humor de alguém que integrava a leitura e a escrita aos processos metabólicos com que o corpo ingere e evacua palavras. Em geral, referente ao modo circular como os fenômenos naturais costumam ocorrer, obrigando o fenômeno vida a se comportar também circularmente, em função de ciclos. E a aparecer eventualmente no palco da História com as mesmas máscaras de outrora, e de outrora, e de outrora, indefinidamente a repetir os mesmos gestos, que talvez um certo positivismo gostaria de ver superados pelo aprendizado contínuo e cumulativo das experiências do passado.

Mas o que retorna eternamente em Nietzsche é menos o sentido negativo como os viventes parecem infinitamente estúpidos para aprenderem com a história de seu próprio sofrimento, e mais o ensejo de afirmação da própria vida, em sua luta violenta com a natureza, da qual ela emerge como epifenômeno potencialmente raro e instável, e na qual naufraga inexoravelmente após o tempo que lhe for devido. O que retorna eternamente em Nietzsche é um demoniozinho a lhe perguntar se ele ama suficientemente a sua vida a ponto de, se for lhe dada a oportunidade, repetir indefinidamente os mesmos gestos, os mesmos erros e acertos, os mesmo prazeres e sofrimentos, que o trouxeram todos até ali naquele instante decisivo, após o qual a mesma repetição se dará eternamente até o infinito, como um destino dado pelos deuses como prova trágica do amor que se tem pela vida, que precisa ser forte o bastante para suportar tamanha provação.

Em vista desse período de ano novo, em que as pessoas costumam estar mais sensíveis ao que a vida tem de ciclo e de repetição, em que as pessoas costumam sair para se reunirem e fazerem muito barulho e prometerem muitos blefes, acumulando reflexões sobre o que ficou do tempo passado, projetando melhoras para o futuro imediato ou distante, e principalmente se esquecendo de todos esses cuidados logo em breve, num rito que parece tão exato quanto o fato de que o sol retornará amanhã a iluminar a nossa santa ignorância, gostaria particularmente de retomar aquilo que a vida tem de circular, a fim de ver alguma espécie de beleza nisso.

Se olho para atrás de minha vida, com certeza que enxergo uma série de asneiras sem as quais eu teria muito bem passado até chegar a esse instante em que é feita uma contabilidade dos meus dias. Teria muito bem passado me importando muito mais com quem merece minha consideração, ignorando mais quem simplesmente me iguala ao quase nada, amando menos quem soberanamente me reserva apenas a indiferença, odiando muito menos quem perde seu tempo se amesquinhando diante de mim. Teria muito bem passado sem a insistência em topar minha canela naquilo que é monolítico em mim e nas outras pessoas, numa certa burrice com que o animal político se acha muito inteligente perante os outros animais, numa certa arrogância da vontade de que algum modelo particular venha a ser modelo para todos os outros, numa certa hipocrisia com a qual os padres de plantão pretendem perdoar os nossos pecados, sem antes viverem em toda a extensão e profundidade a verdade de suas palavras. O meu passado, como o de todos, é pródigo em parvoíces sem as quais a vida poderia muito bem passar, dançando e cantando no ritmo e na melodia que lhe forem devidos a cada instante novo, novo velho a se repetir indefinidamente até que a mesma vida não caiba mais em si, e transborde pela encosta da idade e do esquecimento.

No entanto, seja o que for que tenha passado, já passou, e passará de novo se assim for necessário, e não passará nunca mais se o destino não pedir, fazendo seguir a lida da natureza rumo ao seu próprio rumo, cujo único ensinamento que TALVEZ dela possa ser tirado seja o aprendizado da indiferença para o que diante dela passa. Apenas um TALVEZ muito incerto e muito vago, visto que nesse ano novo, como em praticamente todos os anos novos, a grande maioria dos meus semelhantes está mais preocupada com o que fez, deixou de fazer, e provavelmente não fará no seu futuro próximo, adiando a pergunta decisiva da vida para TALVEZ o próximo ensejo menos premente, TALVEZ para nunca mais. Mas é claro que eu não vou me aproveitar da circunstância para moralizar meus semelhantes, justamente porque nesse ano novo eu venho sendo um pouco menos burro para aprender o exemplo da natureza, e tenho guardado o ensinamento de sua suprema indiferença, do seu supremo sorriso, dos seus supremos passar, dançar e cantar...

E então me surge o demoniozinho nietzscheano a me perguntar se eu amo suficientemente a minha vida a ponto de repeti-la até o mais ínfimo detalhe, até o mais sutil suspiro, choro e riso, até a mais remota lembrança de dor e de alegria. Ouço na rua repiques de fogos-de-artifício, que vão se calando pouco a pouco ao longo do dia, cansando-se de celebrarem barulhentamente o eterno retorno da vida que novamente se reinicia. Mas eu não quero calá-los nunca mais, e pretendo carregá-los dentro de mim silenciosamente para todo o sempre, com explosões inesperadas e coloridas, com assentamentos de fumaça e ovações e abraços e beijos. Talvez eu tenha demorado demais para dar a resposta decisiva, mas em meus vinte e quatro anos de idade mesmo que tardios já não tenho mais nenhuma dúvida. Amo sim a vida... e que venha tudo novamente!

3 comentários:

  1. http://bibliotecademidgar.blogspot.com/2012/01/ano-novo-novo-velho.html#comment-form

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  2. O texto é excelente e me fez conhecer um pouquinho mais de você.
    Bjs da Prima.

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