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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Pequeno suspiro biográfico


“Uma esteira de espumas... flores perdidas na vasta indiferença do oceano.”
Castro Alves

Após pouco mais de vinte e quatro anos de alguns sonhos atrofiados e esperanças mutiladas, o autor deste blog se cansa de se achar um destino, e resolve apenas encenar um personagem de si mesmo. Nada de novo, claro. Mesmo que quisesse, sua atitude não denotaria piedade, porque, antes de mais nada, apesar da atrofia e da mutilação, houve sonhos e houve esperanças.

Dos inumeráveis fatos de sua vida sem grandes fatos, ele reconhece apenas um como decisivo, e justamente aquele que denuncia sua enorme fraqueza. Mal saído de uma infância num bairro pequeno cheio de ruelas e terrenos baldios inexplorados, ter dito sim reverentemente quando deveria sustentar um não, contra tudo e todos. À custa disso, longos anos se passaram perseguindo uma escolha alheia, refratando nos outros a culpa que cabia tão somente a si mesmo. Pouco a pouco, o surgimento da má consciência de uma determinação externa, pesando contra a liberdade que é preciso ao menos imaginar ter para ser qualquer coisa. Foi preciso encenar uma irresponsabilidade e uma afirmação para aliviar a carga dessa alienação acumulada durante tanto tempo. A irresponsabilidade: estudar Letras na UERJ; a afirmação: ser escritor.

Mas já nesses atos tardios estava suficientemente afastado daquele interdito não para se querer ainda um destino. Ele pressente isso agudamente ao longo dos anos como universitário. Foi preciso uma carga quase autodestrutiva de ironia, e a leitura mais ou menos às cegas do rastro interminável de Nietzsche, para trazer à tona plenamente a consciência de que um destino não se faz por afirmação. E enquanto sua escrita efetivamente não vem, ele conta suas atrofias e mutilações para minimamente tentar entender para onde fugira o tempo perdido que o seu imaginário deveria buscar resgatar.

Agora, ele cultiva o paradigma do pé atrás, e a partir disso começa a ter a generosidade de não julgar o próximo com a mesma pressa costumeira com que se agitam guerras ao seu redor. Ele sabe vagamente dos seus abismos, e do abismo que é o outro, apesar de começar a ver uma certa regularidade nas máscaras que as pessoas apresentam como credenciais. O rumor do mundo lhe parece burburinho indistinguível, a cuja exposição continuada já se sabe que resulta em nada menos do que tédio violento. Mas fora do rumor e ainda perto dele é onde pretende estar para evitar o ensimesmamento que é tão pouco produtivo e ainda menos saudável. E a propósito da saúde, seguindo os conselhos de seu mestre, entende que todos os problemas da filosofia se resumem e disfarçam na questão da nutrição, e crê que o único direito humano inapelável é o direito de não passar fome, não importa de que, mas principalmente de comida. Ele agradeceria a Deus pela sua barriga cheia se Deus existisse, mas na falta do transcendente agradece mesmo ao boi que lhe doou o bife para este momento, e não maldiz o verme que o comerá depois da morte. Fora desses mínimos rituais, agora ele sabe que na vida pouco mais importa, e que se esquecendo disso muita gente gasta nervos de maneira inútil, perdendo calorias que talvez pudessem engordar um ideal menos subnutrido de humanidade, com que os dias de hoje se acostumam tão precipitadamente.

No seu silêncio ele perdoa tudo aquilo que sufoca seu horizonte, e promete nada menos que o mundo inteiro por conquistar, apesar de tudo. Sabe de antemão ser impossível tal conquista, e no entanto a projeta como única possível dignidade para adiante de seus vinte e quatro anos cheios de sonhos atrofiados e esperanças mutiladas. O suicídio espreita a cada nova e velha esquina, mas ele vê-se vivo ainda hoje e concebe que a vida é dádiva, dada pelo acaso universal para não ser esperdiçada com a dúvida sobre seu valor, visto ser ela um vazio preenchido por valor que só se afirma pela fé, imanente no desconsolo com que o ser humano se acha no mundo e apesar disso insiste em caminhar sobre seus próprios pés.

Esse é o pequeno suspiro biográfico de uma criatura em formação, que talvez pouco importe justamente por pouco fazer falta, como toda criatura e toda biografia afinal. Suspiro no duplo sentido de processo respiratório e anseio pelo sublime, que nos dois casos não se bastam em si, como partes de um ciclo maior que se repete interminavelmente desde e para sempre. Agora falta a expiração, em que o ar gastado foge para fora do corpo, e o sublime se embate contra o oco da natureza. Gerando um vento que mistura e despedaça as palavras organizadas em texto, que um dia pretenderam referir à vida. A parte que faltava do ciclo a ser completado, e repetido indefinidamente para além. Deixando rastros de pequenos nadas e pequenos milagres, que se distinguem apenas na ambição e no poder de serem um destino, e se misturam na poeira do tempo de que nada pode ambicionar fugir.

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