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sábado, 3 de setembro de 2011

Noite, veredas, clausura, devir e aurora


I

Na noite eterna de insônia em que se estende meu tempo, guardo reminiscências de um sono que nunca houve. Sempre foi tão bom dormir, quando o sonho era tudo... Agora, a minha lucidez é tão completa que não sobra nenhum ânimo para a sensatez. As minhas palavras são luzes de velas bruxuleando enquanto o Sol não quer chegar. Nunca vi o Sol, mas imagino que ao menos ele exista, pois sinto o rumor de um dia caloroso nas dobras de meu sono reminiscente. Sonho a aurora que redimirá minhas toscas palavras, dando-lhes o merecido silêncio no apagar de todas as velas.

II

Não sei de onde vim, muito menos para onde irei. Despertei subitamente em meio à viagem, no meio da estrada, portando em mãos uma mensagem para um destinatário desconhecido. Tento lê-la, mas seu código é indecifrável para mim, e em última instância nem me diz respeito. Um pouco mais à frente, a estrada se bifurca em veredas, as quais mais à frente também se bifurcam, e assim até o infinito. Começo desde agora a penhorar a minha alma em minhas escolhas, mas desde sempre sei que nunca me salvarei. Apesar de tudo, creio na transcendência.

III

Seria preciso ainda uma última vez inventar a consciência da escravidão para só então fazer surgir a necessidade de liberdade. Antes disso, a minha imobilidade era toda potência, tanto capaz de não legar nenhuma revolução quanto capaz de legar todas elas. Mas quando circunscrevo a minha clausura, aí percebo que estou preso, e talvez nunca mais saia dessa condição, se não aprender também a inventar a liberdade.

IV

Mas não é de uma só vez que se nasce e se morre, todas as horas guardam o espanto pelo novo e a extrema despedida. No seio de Gaia os seres estão indo e vindo interminavelmente, e suas formas renovam a cada instante o apelo de vida, assim como se degeneram no mesmo esforço desse sopro anímico. Individualmente, só resta afirmar o milagre que é a permanência, sabendo-se que a ruína espreita a cada novo dobre de sino. Em relação aos outros, nos resta cumprimentá-los pela novidade de sua presença, terminando com um longo abraço que celebre a seguida e indefinida ausência. E assim fazermos dizendo oi! e adeus! no mesmo gesto, sem saber o que será do próximo instante, sempre incerto. Mas sabendo que um dia nos encontraremos todos para todo o sempre no seio de Gaia.

V

Deus sorriu no sorriso presente de uma criança. Acho que eu fui a única testemunha do absoluto, e tenho a responsabilidade de não ignorá-lo. Num mundo de solidões que lado-a-lado se arraigam, ninguém espera de ninguém o mínimo ato de redenção. Mas eu guardei o riso daquela criança, e é isso que eu agora lampejo no meu sorriso. Não quero recompensas, agradecimentos nem distinções. O que é dado de presente é pra ser guardado no fundo da alma. Até que emirja espontaneamente o mimo, da maneira natural que deve ser. Essa é a única forma que eu encontro de honrar o gesto com que fui salvo, perante Deus. A minha forma de ser criança por trás de um rosto cheio de rugas. Um sorriso dado para o infinito, salvando o mundo desde sempre condenado.

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