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domingo, 25 de setembro de 2011

Acasos sem causa


Ela foi embora definitivamente. Não tinha pressa, nem lerdeza, não tinha desleixo, nem diligências, não tinha humildade, nem soberba. Apenas passou, naturalmente, com suprema e involuntária discrição. Dobrou a esquina e continuou o passeio, deixando rastros que eu não ouso perseguir. Meu último ato perante ela foi um simples e conformado esticar de pescoço, me apoiando na moldura da janela de minha casa. Janela atrás da qual contemplei outrora toda a trajetória da passante pela rua que nos fez comuns sob um mesmo destino.

Mas o que tínhamos efetivamente de comuns foi eu tê-la amado perdidamente e ela ter sido indiferente. Cumprimos o destino dado por sabe-se lá que deus casual, ao qual paguei com duas ou três lágrimas de um choro quase simulado, e ainda achei bastante. Queria ao menos que a estória terminasse com lição moral, mas nem isso foi possível. Perdi meu tempo vislumbrando transeuntes, e quanto a isso não há vingança que me valha. A tarde já começava a embaçar em tons cinzentos, e eu decido-me sair por aí afora, de preferência em esquina diversa daquela em que a menina sumiu.

Mas a cidade não é um mar de novidades para um olho curioso. A cidade é simplesmente um mar, mais repleta de coisas para ver do que de olhos para olhar. No meio desse caos, quem poderia resgatar alguma singularidade? As ruas são igualmente repletas de gente igual na aparência. Igual na aparência não porque não são singulares individualmente, mas porque são gente, e portanto massa indistinguível. Eu também me incluo, apesar de meu pretenso olhar deslocado. Os transeuntes se cruzam sem olhos para o outro, julgando que sua imagem é mais importante que o seu vislumbre. Mas o outro também pensa o mesmo, e então a cegueira termina empatada. O problema das ruas é que elas são feitas para se passar, e pode acontecer o acaso curioso de alguém nos observar de alguma janela e nós nem ao menos notá-lo. Alguém que teve a consideração de nos distinguir da massa fluente, e que perdera seu tempo nesse esforço inútil. Pensando nisso, paro na calçada e observo os prédios ao redor. Talvez eu tenha pensado errado, pois não há ninguém de olhar solidário dedicado para mim. No máximo, há uma velhinha me visando com desprezo, talvez imaginando alguma coisa maldosa a meu respeito. Continuo a andar pelas ruas, procurando alguma coisa que procurar.

Algo curioso nessas ruas são aqueles bares com vitrines. Vidro transparente que lembra um pouco janelas, mas que são vislumbres de via dupla, ao contrário das janelas. Os clientes do bar são tão contempladores quanto contemplados, e nisso é que está o barato das vitrines. Então, se há no bar aquele grupo de amigos prodigalizando alegria, sabemos que além de se alegrarem espontaneamente eles também querem divulgar a imagem de sua satisfação e observar as reações ensejadas pela imagem. Também é assim com aqueles casais de pombinhos, que não se bastam com se amarem intimamente e precisam propagandizar o seu amor. Gosto de me deparar com essas lojas de prazer humano, que também são igualmente repletas de gente igual, mas que começam por encenar um microcosmo da intimidade. Intimidade essa que não se contenta com a pura e simples privacidade, e precisa vir à tona dos comércios humanos para exibir a sua máscara de felicidade.

Mas quase ninguém não costuma reparar que existem aqueles bares discretos, sem vitrines, cuja entrada é cerimoniosa e gradual. Estaco na frente de um desses estabelecimentos singelos, e começo a imaginar a sua clientela. Neles, o comércio humano deve se fazer com outros valores que não aqueles da propaganda descarada. Pessoas se reunindo em torno de alguma virtude ou vício comuns, pouco se importando com o rumor alheio que circula pelas ruas. Frequentar algum desses lugares deve ser uma outra forma de inquilinato, compartilhando uma casa que parece ser de todos e ninguém, sempre aberta para quem se permitir cumprir algumas poucas formalidades. Quantos encontros previsíveis e imprevisíveis devem ocorrer nesses lugares! Quantos amores atados e quebrações de pau devem acontecer! Talvez em algum desses bares eu encontrasse aquela menina passante, e nesse encontro ela tivesse algo mais a me reservar além de sua indiferença. Mas não ouso entrar no estabelecimento, deixo a questão em aberto, e continuo a percorrer outras ruas.

Mas qual não é minha surpresa ao ver a questão solucionada numa vitrine de bar luxuosíssimo... A minha antiga passante, devidamente acompanhada, prodigalizando sorrisos, tão pouco discretos quanto verdadeiros. Juro que foi um vislumbre inesperado, pois talvez eu esperasse mais daquela menina, talvez fizera dela uma imagem do que ela não podia ser. Sei apenas que aquele deus casual que tanto me ironiza novamente me pregava uma de suas peças, e fazia do meu passeio descompromissado um novo inferno particular. Acho que exagero, pois o meu ciúme era muito mais encenado do que assumido visceralmente. Caso contrário, eu tacaria um pedregulho na parede de vidro, picharia muros alheios com mensagens obscenas, gritaria pelas ruas palavras de ordem, atearia fogo em monumentos públicos. Porém, eu não sou um rebelde sem causa. Causa eu efetivamente não tenho, mas ao menos não sou rebelde. Visto isso, volto para o ponto onde comecei a minha estória, pago o acaso com mais duas ou três lágrimas, acho a moeda excessivamente cara, e retorno para minha casa.

Fecho a janela, tranco todas as portas, enclausuro-me no quarto. Nada de interessante a fazer senão inventar algum interesse. Escrevo algumas linhas, com a intenção de implodir o mundo, mas elas devêm impotentes. Acabam resultando neste texto, que no máximo atesta o meu ridículo desnudado, magricelo e feioso. Desisto de continuar, deito na minha cama e tenciono dormir. Faltou orar para o meu deus sacana, mas acho que ele não se importa com minha preguiça. Não há experiência, não há aprendizado, não há esperança. Também não há remorso; quando muito, há um gosto amargo e um riso debochado e secreto. Fecho os olhos e as luzes se apagam junto com o meu cansaço. Devo acordar no dia seguinte, e melhor seria não guardar lembrança nenhuma de nenhum sonho.

sábado, 3 de setembro de 2011

Noite, veredas, clausura, devir e aurora


I

Na noite eterna de insônia em que se estende meu tempo, guardo reminiscências de um sono que nunca houve. Sempre foi tão bom dormir, quando o sonho era tudo... Agora, a minha lucidez é tão completa que não sobra nenhum ânimo para a sensatez. As minhas palavras são luzes de velas bruxuleando enquanto o Sol não quer chegar. Nunca vi o Sol, mas imagino que ao menos ele exista, pois sinto o rumor de um dia caloroso nas dobras de meu sono reminiscente. Sonho a aurora que redimirá minhas toscas palavras, dando-lhes o merecido silêncio no apagar de todas as velas.

II

Não sei de onde vim, muito menos para onde irei. Despertei subitamente em meio à viagem, no meio da estrada, portando em mãos uma mensagem para um destinatário desconhecido. Tento lê-la, mas seu código é indecifrável para mim, e em última instância nem me diz respeito. Um pouco mais à frente, a estrada se bifurca em veredas, as quais mais à frente também se bifurcam, e assim até o infinito. Começo desde agora a penhorar a minha alma em minhas escolhas, mas desde sempre sei que nunca me salvarei. Apesar de tudo, creio na transcendência.

III

Seria preciso ainda uma última vez inventar a consciência da escravidão para só então fazer surgir a necessidade de liberdade. Antes disso, a minha imobilidade era toda potência, tanto capaz de não legar nenhuma revolução quanto capaz de legar todas elas. Mas quando circunscrevo a minha clausura, aí percebo que estou preso, e talvez nunca mais saia dessa condição, se não aprender também a inventar a liberdade.

IV

Mas não é de uma só vez que se nasce e se morre, todas as horas guardam o espanto pelo novo e a extrema despedida. No seio de Gaia os seres estão indo e vindo interminavelmente, e suas formas renovam a cada instante o apelo de vida, assim como se degeneram no mesmo esforço desse sopro anímico. Individualmente, só resta afirmar o milagre que é a permanência, sabendo-se que a ruína espreita a cada novo dobre de sino. Em relação aos outros, nos resta cumprimentá-los pela novidade de sua presença, terminando com um longo abraço que celebre a seguida e indefinida ausência. E assim fazermos dizendo oi! e adeus! no mesmo gesto, sem saber o que será do próximo instante, sempre incerto. Mas sabendo que um dia nos encontraremos todos para todo o sempre no seio de Gaia.

V

Deus sorriu no sorriso presente de uma criança. Acho que eu fui a única testemunha do absoluto, e tenho a responsabilidade de não ignorá-lo. Num mundo de solidões que lado-a-lado se arraigam, ninguém espera de ninguém o mínimo ato de redenção. Mas eu guardei o riso daquela criança, e é isso que eu agora lampejo no meu sorriso. Não quero recompensas, agradecimentos nem distinções. O que é dado de presente é pra ser guardado no fundo da alma. Até que emirja espontaneamente o mimo, da maneira natural que deve ser. Essa é a única forma que eu encontro de honrar o gesto com que fui salvo, perante Deus. A minha forma de ser criança por trás de um rosto cheio de rugas. Um sorriso dado para o infinito, salvando o mundo desde sempre condenado.