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sábado, 6 de agosto de 2011

Pobre esmola


“Quando o fim se aproxima, já não restam imagens da recordação, só restam palavras. A pobre esmola que me deixaram as horas e os séculos.”
Borges, “O imortal”, O Aleph

Sofro já de uma velhice antecipada, pois começo a alimentar aquela clássica antipatia pelas imagens, inclusive as do meu passado, que me vêm atenuadas por camadas de esquecimento e saudosismo. O futuro eu nunca saberei o que seja, mas sei que se parece com uma espiral eidética de sonhos que ainda exalam do meu corpo jovem. O presente é um palco onde se encena a tediosa luta pela salvação da alma contra o seu comércio pelos mercados do mundo. Eu sei que também vou morrer, e espero que não tarde tanto ao ponto de me faltarem até as palavras, quando já nem mais sobrarem as imagens na cegueira. As palavras são o que ainda e sempre me sustentam, e por elas eu amargo um triste amor ingrato.

Ingrato amor porque é assim que deve ser, visto a natureza desses seres infiéis. Se as imagens gozam a suspeita de não passarem de um simulacro arquitetado para entorpecer nossos sentidos, as palavras não nos cansam de implodir sua promessa de verdade, revelando que por baixo delas não havia nada essencial, estrutura oca sempre a nos remeter a outros repositórios de vazio. Infiéis não porque nos traem, mas porque são sinceras até demais, jogando violentamente contra a nossa cara o absurdo que é a esperança de verdade, esse sonho íntimo que alimentamos em busca de nos afirmar no mundo. Infidelidade contra aquilo que nos faz humanos, contra a máscara que é preciso vestir para se identificar com algo, algo que pouco importa qual seja, importa apenas que seja encenado segundo as regras mais ou menos fixas de um jogo convencional. Amo as palavras porque elas estão sempre e traiçoeiramente recriando aquele jogo, e esse ofício marginal cabe muito bem para o espírito nômade de alguém que é incapaz de vestir satisfatoriamente qualquer máscara que seja.

Mas um grande amor só é grande se convive com larga margem de perdas. E na velhice antecipada também venho perdendo alguns afetos, principalmente entre amigos. Eles já não podem entender a indigência orgulhosa do meu nomadismo, essa insistência em ficar trocando de máscaras inadvertirdamente, ironizando tudo e todos. Eles sempre levam a sério minhas blagues, acham que eu estou dinamitando seus respectivos fundamentos, eles acham que deveras possuem fundamentos. E eu até tento tantas vezes botar uma máscara e brincar o jogo da situação, mas não dura muito tempo. Lá vou eu deixando escapar algumas palavras, ofendendo quem eu não queria, a troco de quase nada. Meus amigos com razão me acusam de não saber jogar, e até eles fazem questão de rotular minha inaptidão para essas coisas. Acabo rindo de meus próprios desacertos, e finjo pedir perdão para os poucos amigos que me sobraram. Tanto quanto eu eles costumam ter um coração bastante grande, ou pelo menos grande o bastante para fingir acreditar no meu perdão. É a forma que encontraram de me atribuírem uma máscara, esperando piamente que talvez me sirva. Mas como sempre, não me serve, e de novo escapo para o terreno inóspito da diferença.

Ainda um dia as palavras me levarão sozinho para um deserto onde beber a fonte da imortalidade. E por esse amor eu morrerei de sede a caminho do infinito, extasiado pela última ilusão de verdade desmentida pela palavra. Mas até lá eu permaneço habitado pela multidão de seres que as palavras me urdiram nessa busca por me conhecer distintamente dos que me habitam. Não posso ser um nem posso ser todos, justamente porque estou no meio-termo de ser muitos. As palavras me deram um sonho que apenas podia ser sonhado se fosse impossível de realizar-se. Me deram uma solidão populosa, uma multidão solitária. Não sei se maldigo ou agradeço essa dádiva, mas sei que não consigo mais viver sem essa fé desencantada. Não conto as horas do meu dia, porque nesse reino palavroso o tempo pouco faz sentido. E por isso sofro já de uma velhice antecipada, justamente porque descobri a fonte de uma eterna juventude. Até quando nem palavras mais sobrarem na cegueira absoluta que nos cabe a todos nós.

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