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segunda-feira, 25 de abril de 2011

O jogo da esperança e da derrota


Venho para frente da tela escrever a palavra derradeira, aquela que redimirá a intenção súbita que me pôs na frente dessa mesma tela. Tenho-a quase na ponta dos meus dedos, fico por instantes na iminência de teclá-la, mas desisto. Sua nitidez imediata na lembrança se desbota, restando-me apenas um borrão de alguma mensagem indecifrável. Como um Prometeu que manuseia uma tocha que se apagou, aspiro a fumaça de alguma ciência abortada. Mas ainda permaneço em frente à tela e, na falta da palavra redentora, escrevo o necrológio de minha patética derrota.

E tu, meu também desencantado leitor, tu não vieste quase que aleatoriamente de encontro ao meu texto na esperança de flagrar-lhe a palavra derradeira? Vieste à procura de um sentido? E agora que o meu texto desde já confessa sua incompetência, vais desistir dele? Ou vais perder teu tempo com um derrotado? Mas alguma vez em algum outro texto num fortuito momento de tua vida encontraste a bendita palavra redentora? Ou como leitor experiente compartilhas comigo um certo ceticismo para com palavras? Tu, meu maltratado leitor, também não alimentas uma vulgar expectativa de que a próxima linha te revele o segredo inefável do universo? E sempre deploras quem te frustra essa esperança?

Então talvez nós tenhamos em comum um amor triste ao nosso compartilhado momento de luto. Talvez somente nos reste reconhecer esse momento como desgraçado milagre. Vejamos: eu, numa borda de rio caudaloso, lancei o olhar ao céu em busca de uma sublimidade, e declinei os meus refugos correnteza abaixo. Tu, na outra borda do mesmo rio, lançaste a rede à procura de uma estrela, e recolheste meus detritos. Sim! temos em comum o mesmo rio e o mesmo lixo... e o mesmo sonho que ficou ainda por realizar.

Mas talvez o milagre ainda maior desse encontro seja o legado que daremos para o nosso desencanto. Podemos pôr definitivamente os pés no chão, na certeza de que a vida é muito mais interessante do que um mero simulacro de palavras. Ou podemos ter saudades daquele sublime, e tantas vezes até vislumbrar na terra algum reflexo estelar. Seja como for, o sonho murcho projetou em nós a sombra de seu reino encantado, e nós tivemos de virar as cinzas de sua expiação. E talvez até venhamos crendo em que é sempre melhor sonhar um sonho derrotado do que não sonhar sonho nenhum. E então jogamos novamente o jogo da esperança e da derrota.

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