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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Num quintal do universo



Num canto de quintal de aspecto abandonado, meu cachorro se debate tentando manter metade de seu corpo levantada, numa luta de rastejar contra o chão e se equilibrar nas patas dianteiras. Ele já é velho em seus dezessete anos, e neste dia ele acordou com a pata traseira imobilizada, limitando sofregamente seus movimentos. Semana anterior, meu outro cachorro morreu, resultado de uma mosca que deixou suas larvas no olho do anfitrião, as quais o devoraram silenciosa e cruamente. Agora, o companheiro restante se mortifica com a falta. No quintal escuro de fim de tarde, o cachorro se arrasta e geme baixinho, enquanto um enxame de mosquitos pousa sobre seu corpo para sugá-lo sistematicamente.

A imagem me causa extrema pena, a mim, que tenho uma própria balança para medir o valor da vida. Aquela criaturinha que morou durante tantos anos na casa de meu tempo agora emana uma aparência de decrepitude e iminente morte. Sinto isso, e esmago com a palma das mãos quantos mosquitos consigo, imaginando fazer algum bem.

Mas do alto de alguma estrela insuspeita, talvez algum deus me observe e ache graça da minha atitude. Talvez o deus ache por bem me esmagar na palma de sua mão divina e arremessar minha carcaça na órbita de algum planeta morto.

A despeito disso, aqui na Terra a vida respira ainda o seu potencialmente breve momento de existir. Sem valor, sem escala, sem pena. Brutalmente animada, fragilmente atada, diversa. Viva.

Um comentário:

  1. esse blog menciona mais "deus" do que qualquer outra coisa, ainda que de maneira cética, mas menciona... rs

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