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domingo, 20 de março de 2011

Sorriso de criança



Uma criança sorriu, na esquina de mais um dia abafado como tantos outros. Os astros não conjugaram nenhum destino, nenhuma borboleta bateu asas de tempestade, nem ao menos os passantes esbarraram um olhar. Realmente, nada havia que fazer daquela flor que brota do asfalto, quando um jardim de plantas enxertadas cresce na casa de cada cidadão de bem. Cada um guarda para si a devida cota de indiferença, até porque a brutalidade se tornou banal. Talvez já tivéramos visto um sorriso semelhante estampado na tela de nossa tevê. Mas então, ele aparecera de maneira tão conveniente, quase obscena, que não nos restava nada mais além de apagar o aparelho, e ir dormir.

Um sorriso de criança não pode ser desmontado e projetado. Não é somente “sorriso”, tampouco somente “criança”. Também não é a soma dessas duas coisas. Aparecido numa singularidade irrepetível, ele emergiu como para atestar o quanto a vida é rara, e preciosa dentre o oco daquilo tudo que condicionou a própria vida. Um sorriso de criança não é o símbolo de algum passado idealizado que obviamente não mais retorna. Não é a máscara de inocência, a tábula rasa em que se inscreve a queda para o mundo. Um sorriso de criança desde sempre existiu, pois habita ao longo das duas bordas do infinito. Ele não perdeu nem ganhou nada, pois não tiramos nem demos nada para ele. Um sorriso de criança é feito da matéria do silêncio, e contém o argumento cabal de absurdidade de toda guerra. Não guarda a mínima lembrança do Éden, e não precisa lutar para restaurar ou manter qualquer suposta origem pura.

Um sorriso de criança é um segredo feito de não-palavras, a dádiva de uma cumplicidade nascida na contemplação desse sorriso. A criança que sorri mal sabe o que sorrir significa. Quem a vê supõe que sabe o significado, mas não quer estragá-lo com algum comentário a respeito. É preciso não tocar sua delicadeza, para que não se desfaça a mágica. Um sorriso de criança são castelos de areia, que desmoronam ao mero assoprar. E no entanto, são moldados no mesmo sopro que os arruína, derivado do milagre com que às vezes o acaso molda castelos com mãos de vento. Um sorriso de criança é uma imagem imemorial, erguida do chão do tempo pelo brilho que mal dura um mero instante.

Um sorriso de criança não precisa de solidariedade. Não pede nada, nem nada espera de quem o veja. Um sorriso de criança é o maior atestado de inutilidade que há. Ele não tem que ver com o mundo que não o vê. Mas quem não o vê não sabe que perde o mimo de vê-lo. Não sabe que perde a chance única de se tornar também um inútil. De dentro desse caos insano onde cada coisa busca loucamente ter uma finalidade, uma utilidade, um pragma, o sorriso de criança repousa como promessa inversa. Ele iluminou a nossa vida inteira, mas a gente é feita de uma cegueira fundamental. E sonhamos com aquele breve estalo de luz que nos redima.

Um sorriso de criança é um evento no espaço-tempo que incontornavelmente não mais voltará a acontecer. Portanto, um tesouro, uma relíquia perdida. Talvez no futuro surja uma ciência que, tomando para si o peso dessa consciência, ambicione catalogar todos os sorrisos de criança que eventualmente aconteçam, como fazem com as línguas de povos isolados. A boa intenção de tal ciência será indubitavelmente inegável, mas ela carregará o cheiro mofado de páginas empoeiradas, sem nenhum sorriso de criança no meio delas, como toda ciência faz afinal.

Em vista desse dilema, apenas resta para quem busca sorrisos de criança o simples buscá-lo, e talvez perder a vida inteira sem ao menos se deparar com um. Não há manuais que prevejam esse encontro, não há fórmulas. Debaixo desse céu, inumeráveis sorrisos de criança sorriram para os que tiveram olhos para vê-los, mas a maioria fora ignorada. E assim continuará a lida na terra, sem ao menos se aperceber o quanto a vida é rara, o quanto é preciosa. Sem se aperceber que um sorriso de criança pode ser o imenso sentido do qual ela tanto carece.

2 comentários:

  1. Daniel, que fantástico! Tenho uma queda por esse tema e fiquei muito feliz com um texto tão belo sobre o assunto...

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