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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sobre o ato de caçar borboletas


Meu esforço intelectual, na verdade, é no sentido de aprender a ignorar solenemente os sistemas literários.

Palavras são borboletas colhidas num gesto brusco contra o ar. Borboletas que empalhamos em livros para nossa coleção inútil de erudição. Onde resta a força criadora do voo? No aquém-além da escrita mil borboletas descrevem mil compassos de mil voos, para o deleite do inarticulável. Mas os sistemas caçam palavras, e nelas apenas subsiste o rastro. Os sistemas se esforçam para emprestar muletas às borboletas mortas. E nós visitamos o museu para aprender o que é voar.

Quem devo ler? Meus amigos, meus inimigos ou os cânones? Tal questão quer abolir a incerteza dos encontros. Deveríamos ler como se em presença de um intruso, que chuta as portas com que isolamos nossos segredos. Mas para ler costumamos nos trancar na sala de estar, e depois saímos de encontro ao mundo, brandindo polêmicas na arena bárbara das vaidades humanas. Antes de ler deveríamos aprender a ouvir. Não havia livros quando as pessoas conversavam ao pé do ouvido, repetindo a meia dúzia de palavras ditas durante a consumação do amor. Quando da criação da escrita, escondemos sua origem em infinitas variações do mesmo tema. E inventamos as questões de afinidade, rivalidade e transcendência, para que o homem não morresse de tédio. Quem sabe ouvir ouve o mesmo burburinho de sempre, cada vez mais exaltado pela violência do tédio. E mesmo assim consegue fazer brotar um sorriso de canto de boca, porque se sabe tão igual quanto quem grita com palavras.

Leio para reconhecer o outro, o qual só posso ler como versão de mim mesmo nuançada em cor diversa. Carrego o texto no meu peito e apalpo o alheio coração pulsante. Leio com o egoísmo de achar que fora eu quem escrevera todas as linhas. Leio com a humildade de me saber escrito por elas. Quem vai desbravar por mim os mundos por detrás das páginas? Mundos que nos falam quando o rumor do mundo não é bastante.

Palavras são as bolhas que se desprendem de um mar em ebulição. Quantos monstros devem morar nas profundezas? Quantas pérolas? Mas os sistemas submergem dentro de seus submarinos (não os de Júlio Verne, mas aqueles de verdade e sem janelas), e fazem subir à tona o periscópio, que tem a burra virtude de enxergar a superfície através de lentes estratégicas, e cegar-se para o fundo onde dorme o indizível.

Os sistemas fazem a autópsia no cadáver da escrita. Lidam com um corpo que não tem mais função. Proclamam que o ofício de carniceiro pretere todos os outros. Subvertem o caos da natureza numa sala de operação. E gargalham, mastigando um pedaço de carne entre os dentes.

Que tem a ver com os sistemas o horror e o encanto de nascer e morrer? Talvez a vida seja curta demais para tanta soberba. Coitado de quem vê o sol fugir pelo horizonte enquanto erige sistemas. Mais uma borboleta se debate na palma de minha mão, mas desta vez eu a devolvi para o crepúsculo. Devemos dar à vida as criaturas de seu próprio reino. Devemos dar-lhe poesia. Porque a vida é anterior a qualquer sistema.

4 comentários:

  1. Vou fazer propaganda do seu plog... tá lindo

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  2. Meu texto preferido!!! Vc escreve com a alma, com tudo o que vc tem de mais forte e peculiar. Amo a sua maneira de escrever genuinamente descompromissada com o público. Eu sinto vc no texto.Vc é um escritor, daqueles que quase já não se fabricam mais. rsrs...
    Bjão,amigo...Parabéns!!!
    (vizinha,amiga e fã)

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  3. Neuza:

    obrigado pelo seu apoio incondicional, também pela nossa amizade eterna. Você é sempre suspeita para dizer algo a respeito; mas como eu sou orgulhoso, eu finjo que não é.

    Acho que faz quase quatro meses que escrevi esse texto, e já sinto o quanto ele é controverso. Se me pus nele inteiramente, é preciso me reinventar. Mas é bem melhor que seja assim. Não teimar, para não dar com burros nágua. E não secar a paciência de ninguém. Isto é, se alguém, além de você, me lesse... (rs)

    Beijão...

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  4. Gostei muito Daniel!!!
    me orgulho muito de ser sua companheira de monitoria e amiga..
    aliás.. essa nossa dupla arrasa hein!!!
    =]

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