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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Quem é você?



Perguntas quem eu sou? Se alguém veio aqui realmente procurar-me, achará talvez, quando muito, fagulhas que transbordaram da forja diária e violenta em que se gastou o cinzel dos dias no monólito do ser, seja lá o que isso seja. E se ainda insistir em perseguir aquele vulto fantasma, perceberá que ele possui habilidade em dobrar a esquina e esfumaçar em algum beco labiríntico. Alguém me diz casualmente: “Ah, eu vi você por aí, perambulando”, e eu respondo: “Mas como pode? Eu nasci hoje!”

Nasci hoje? Na verdade, não. Ainda não. Na esteira do tempo que atravessei até então, talvez eu consiga recolher alguns destroços dessa vagueza chamada eu para construir o insosso projeto de ser. E aí eu direi que sou aquilo de que gosto, aquilo que faço, aquilo com que sonho, aqueles quem amo etc. Mas eu prefiro não me levar tão a sério, e digo com a maior irresponsabilidade: “Em breve eu serei”.

E a minha vida busca atualizar continuamente o serei, lançando o espelho contra a parede e recolhendo os cacos, os quais eu torno a lançar e recolher. Eu sou aquela flor ainda em botão, através da qual todos passam questionando a utilidade. Certa flor a meu lado abriu-se na mais espalhafatosa beleza; uns transeuntes a viram, comentaram o espetáculo e foram para casa, insensíveis. Pobre flor! não quero ser ela. Eu ainda não sou, e a minha beleza é portar toda a potência.

Por isso, minha seta aponta para o infinito. Por que eu deveria convergir-me, poligonalmente? Há tantos polígonos nesse mundo, tanta gente quadrada, triangular, pentagonal, tantos espetam... Por que eu deveria ser mais um, gastando boa parte da paciência para polir-me as arestas? Acho melhor não: minha seta aponta para o infinito. E eu tenho a esperança de que onde o infinito se escapa, longe, muito longe desse mundo, lá ele se encurve, tangenciando algo que talvez sejamos, eu e todos nós. E nessa curva que o infinito faça eu pressinto olhos corajosos abertamente sorrindo e chorando diante o desafio da vida. Não sei o que eu sou, mas sei que quero ser isso.

Um comentário:

  1. Daniel, seus textos são maravilhosos! Agora entendo sua escolha. Parabéns!!!

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