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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Futuro astronauta


“O que você vai ser quando crescer?” Assim me perguntaram uma última vez na porta de saída da infância. Eu mesmo já respondera em tantas ocasiões: “Oras, eu quero ser astronauta!” E ninguém mais ousava me importunar com uma questão semelhante. Mas eis que surgiu de novo a pergunta capciosa, e havia algo no seu tom que me obrigava a respondê-la com seriedade. Eu respondi qualquer coisa que me veio à mente, e, pelo conteúdo conveniente da resposta, todos fingiram acreditar na sua suposta verdade, e puderam dormir tranquilos como se após um grande problema resolvido. A roda do mundo voltava a girar nos seus eixos, mas eu é que não consegui ter sono nunca mais. Também vivi aquela resposta como se fosse verdade, e adentrei sem coragem o labirinto dos dias ostentando na mão minha credencial de: “serei isso!”. Não preciso dizer que me desencontrei pelas inumeráveis bifurcações do labirinto; nem que minha identidade perdeu-se desbotada na curva de um calabouço qualquer. Claro que a imposição da pergunta nunca foi má vontade das pessoas que não viveriam a minha vida por mim. Afinal, todos acreditam que a resposta figure como uma espécie de guia pelas noites eternas e solitárias do labirinto. A má consciência não é de ninguém mais senão somente e intensamente minha. E é defronte de uma esquina qualquer da vida que eu sinto ressoar o absurdo daquela pergunta inaugural, e o absurdo ainda maior da resposta que eu dei. Por que eu não podia ser um futuro astronauta pelo resto de meus dias?

Mas eu já havia caído no calabouço do minotauro, onde uma guerra se acirrava em torno da necessidade de autoafirmação. Ainda me recordo quando fui jogado nessa arena a lutar pelo meu quinhão de carne. Anos batalhando para preservar meu coração me obrigaram a carregar no peito um coração de pedra. O mínimo senso de humildade e resistência já abrigava o contrapeso de uma ambição feroz. Pois vivia-se sempre à sombra dos heróis canonizados, e era preciso dar não menos que o seu gigantesco exemplo. E já sentindo o rumor de uma derrota foi preciso apelar para uma afirmação. Inutilmente eu empunhei uma espada e gritei contra o mundo: “Eu sou!” Mas a batalha já estava dada, e o meu gesto soou como ridículo. Devidamente, fui enquadrado na pecha da puberdade, e desde então o miasma se estampou na minha testa. Tomar parte numa guerra entre deuses é um ótimo atalho para sair da arena fatalmente ferido. Logo após baixar a poeira na consciência, eu me questionava por que insistir em levantar a voz contra tal turba furiosa. Antes de participar do embate, era preciso uma razão previamente concebida e calmamente arquitetada, algo como uma apoteose. Mas diante disso minha única resposta era o silêncio. Continuamente fui intimidado pelo Olimpo, e a partir daí eu aprendi a ser dissimulado.

Mas o cinismo só escolhia ser cínico na hora em que essa era uma opção viável. Nas outras horas ele revirava o ideal de elaborar a estratégia perfeita para vencer a guerra. Em silêncio o cinismo buscava resolver todas as contradições de sua postura, para depois vir à tona do embate social exibindo sua casca de coerência. No fundo, ele era um frustrado pela ambição de unidade, que nunca iria conseguir reunir as peças do quebra-cabeça e, desde já admitindo sua derrota, costumava aparecer nas circunstâncias mais impróprias para dizer que o mundo não tinha jeito mesmo. O cinismo saíra da guerra tristemente mutilado, e agora queria vingança.

No entanto, nada disso tinha a ver com futuras astronavegações. O que eu era para os outros como máscara se distinguia claramente de minha íntima nudez. A má consciência da identidade me pesava numa coisa que não era minha, que eu assumia como minha apenas para me livrar do peso talvez maior de ser eu. Despido dos andrajos da guerra, eu não me achava como unidade, mas como colagem de elementos diversos, que ninguém nunca suspeitaria encontrar juntos, de uma beleza que não estava dada pelo rumor da batalha. E foi então que eu passei a ter certeza de que meu ofício verdadeiro era ser um futuro astronauta.

Por mais que eu procurasse, nunca encontrei um manual de como ser um futuro astronauta. Talvez porque o manual de como ser um futuro astronauta seja a consciência de que não há um manual de como ser futuro astronauta. Se eu abro algum livro de ciência em busca de informações astronômicas mínimas que sejam, começo a desistir de meu ofício futuro. E em meio a essa incerteza, começo a ouvir o grunhido do minotauro me chamando a não fugir da realidade, cuspindo do alto impropérios olímpicos, que pouco ou nada tem a ver com futuras astronavegações.

De fato, eu não fujo nem pretendo fugir da realidade, apenas conservo um canteiro de obras onde me abrigo de sua estupidez. Perdido no incontornável meio do labirinto da identidade, não sobra para mim o exemplo de Teseu, que pela ajuda feminina premeditou todos os futuros perigos e amarrou um barbante na entrada do labirinto. Para mim, o labirinto não tem entrada, e muito menos haverá uma saída. A consciência é um acordar de súbito no meio da busca, sem conseguir lembrar o que se buscava nem como se viera parar ali. Não tenho um álibi concreto para escapar do calabouço do minotauro, nem ousaria criar a ilusão de um ideal originário nem de um ideal de apocalipse. O labirinto vai sobreviver à minha morte, e não há ambição que possa vencê-lo. Me engaje eu ou não na guerra que supostamente escolher, nós todos já nascemos sob o rumor da batalha, e já nascemos escravos, impuros e injustos. Eu não pretendo reinventar a roda do mundo, pretendo apenas conservar o meu eterno canteiro de obras.

“O que você vai ser quando crescer?” É a pergunta que eu me faço todo dia ao levantar da cama. Não ouso mais respondê-la, nem misturá-la ao ruído brusco das guerras em que me perco. Há um lugar sedimentado pelas ruínas do tempo, onde minha ambição nem minha vingança não poderão habitar. Lugar indiferente a toda lida movida pela inveja e pela avareza que me jogam contra a realidade. Lugar de potências, alheio a narrativas de início ou de fim. Onde não faz sentido a nostalgia de um mundo que cresceu à minha revelia. Onde não faz sentido o imediatismo que ofusca a visão de outros horizontes. Há um lugar onde o saber e o ignorar são os dois lados de uma mesma moeda, em que eu contemplo no espelho somente a moldura de minha imagem. E é uma moldura plástica, que pode ser dobrada, esticada e rasgada de infinitas maneiras. Moldura que não cabe em nenhuma categoria, justamente porque todas categorias nela cabem, e todas por ainda inventar. Essa talvez seja a minha travessia para o espaço sideral, cujo traçado nunca mais será refeito, legando para mim o esforço de dizer se ele foi belo, ou se foi algo qualquer que o justifique.

Destarte, eu serei astronauta quando eu crescer. Não me permito gastar meu presente em estudos de astronomia, nem ao menos levar a sério qualquer notícia sobre atividades da NASA. Esses que são astronautas de fato talvez nunca mais serão astronautas quando crescerem. Acredito ingenuamente que ninguém perdeu a inocência no caminho, apenas se esqueceu de cultivá-la algumas vezes. Por um instinto de afirmar que a luta é mais premente, o seu cultivo foi empurrado para um nicho idealizado. Talvez ele devesse se infiltrar na vida inteira, sem qualquer prejuízo para a luta. Mas então começo a querer demais...

E venho para a borda do meu céu, pensando nas estrelas, e sei que estou nessa sozinho. Haverá tantos outros futuros astronautas por aí, mas nunca vou conhecer nenhum deles. Um futuro astronauta o é somente para si mesmo, antes que os outros venham estragá-lo com um rótulo qualquer. Reservo a amizade para os amigos, e procuro ter o mínimo de ilusões. E tenho o meu mapa sideral, em cuja superfície desdobra-se a universalidade do indivíduo. Em que planejo futuras astronavegações, alimentando a minha parte de homem que não se contenta em ser um simples bicho de terra.

Utopias natimortas


Um passo atrás naquilo que sou, para pôr o devir em perspectiva, em seu inexorável movimento. Olhar para os quereres no passado, e não reconhecê-los mais como meus, reconhecê-los estranhos, como se de outra pessoa. A usina de vontades disparatadas colapsando, explodindo em fragmentos inúmeros, transtornando territórios estrangeiros, espalhando sua contaminação. Recolho os pedaços explodidos com uma desculpa na boca, eles não são meus pois já não são eu, mas são meus por terem me sido.

No entanto, eu quis. Quis me afirmar alguma coisa. Quis me definir estudante universitário, morador do subúrbio do Rio de Janeiro, ex-militar, ex-sonhador de sonhos impossíveis, mundano, rotineiro. Quis posar de guerreiro da batalha do real, mecanismo do movimento urbano pendular, contra o qual sustentasse uma silenciosa sublimidade. Quis politizar o animal de andar ereto, derivando de seus atos a estabilidade de um paradigma coerente, seja qual for, que os justificasse sem mais culpa. Quis apontar dedos para tudo mais que me contrastasse, quis ajuizar morais, sem antes viver em toda a extensão a verdade de certas palavras. Quis prometer tal vivência para o dia em que eu fosse gente grande, para o dia do nunca mais.

Quis descascar-me para que me achasse o núcleo, que seria supostamente tão mais eu quanto qualquer das cascas. Quis tirar a máscara diante do espelho, para ver a face necessária, anjo ou demônio, ou qualquer outro monstro, e então teria de ignorá-lo para botar outra máscara. Quis desenterrar do peito o coração, desencavar seu imo, para que lá flagrasse a ubiquidade de uma motivação, um princípio, um fim. Quis destacar o melhor de mim, em contraponto ao meu alheamento sob a sombra da busca de outro, fantasma. Quis olhar-me de fora, ver-me a nuca, quis recortar uma imagem como modelo de um vir a ser. Quis não tropeçar em intermitentes precipícios.

Quis que alguém me enxergasse de um jeito especial. Quis cavar no asfalto do meu ser algum talento, alguma frase fulminante, algum indício de gênio. Quis que lágrimas pingassem no solo para semearem flores, a serem colhidas por olhos também em lágrimas. Quis publicar o mais íntimo de mim, supondo que se tratasse de algo comunicável, ignorando que no palco das vaidades os personagens encenassem à revelia de um diretor, de um dramaturgo, à revelia da arte. Quis arquitetar formas em jardins de beleza, esculpindo contra o pano de fundo de uma pretensa experiência. Quis não me fragilizar, diante da indiferença total, com a evidência do fracasso, o estertor de cada impulso irrealizado. Quis que a dor não finasse no ponto cego do absurdo de existir. Quis achar sentido para a vida.

Quis arrebatar-me para fora do olho do furacão. Quis flanar pela cidade tóxica, contemplando a vida de indigentes, enquanto experimentava a fome apenas por nome. Quis fugir da casa dos pais, varar por ruas sem identidade, sem pertencimento, trazendo de bagagem os espólios de um anterior conforto. Quis retornar para casa, pródigo filho, sabendo que o pai já não era o mesmo, que o abraço já não era o mesmo. Quis evitar a ferrugem de sorrisos, escovando os dentes com a tinta de uma afetada etiqueta. Quis suportar a presença de outros animais, quando o atroz animal que em mim habita mal consegue suportar a si mesmo. Quis cercar a contingência do mundo com a gaiola de uma qualquer segurança, quis olhar para o abismo sem que o abismo olhasse para mim. Quis me solidarizar com a miséria, por detrás de um muro que dela me separasse. Quis amar e sair ileso do amor.

Quis que o mundo se curvasse ante a presença inaugural de uma vontade. No entanto, dispersa a fumaça de cada querer, o que resta são destroços de uma fragilidade inelutável. O projeto se transfigurou durante a realização. O espectro de intenção degenerou-se em miragem. Tudo que quis em algum momento me abandonou, deixando a só impressão da procedência divina de cada querer. Incógnitos deuses deliberam no palco do mundo por meio de homens, conquanto os não reconheçamos mais, conquanto agora sejam anônimos, migrados para debaixo da terra. Vontade é o nome que então os nomeia, precária ficção que a uma só origem reduz a agonística de turbulências subterrâneas. Com quantos caprichos não se faz uma vida! caprichos que nem são da posse do caprichoso, que mal perseveram ao longo de um dia. Mirando seus atos, o homem fareja traços de si, mas neles só encontra equívocos, acúmulos de uma indistinguível alteridade. Seu rosto se dissolve e refaz, no deserto do tempo, como as dunas da movediça areia, como as formas periclitantes de um sonho. Em vão articula o nome de seu querer, mas ao dizê-lo já não o quer mais, ao realizá-lo não mais lhe pertence. Não há significado que resista na ausência do signo.

Também não existe o homem sem máscara. Escolho, ou penso escolher, o adereço com que saio para a rua, e nesta hora o espetáculo se reconstrói sem ressentimento. Estarei pelo mundo recolhendo fragmentos explodidos da vontade. Escutarei pelas paisagens o rumor de alguma perfeição nostálgica. Buscarei o rosto daquele anônimo que me originou, cravando em mim a assimetria e a inquietude. Apontarei em direção ao infinito, esperando aportar em ante-salas do absoluto. Estou sozinho, calcando sob meus passos sedimentos de utopias natimortas. Contenho os sonhos perdidos e os sonhos por ainda sonhar. Ajeito a máscara, e levemente tangencio o círculo da vida.

Sobre o ato de caçar borboletas


Meu esforço intelectual, na verdade, é no sentido de aprender a ignorar solenemente os sistemas literários.

Palavras são borboletas colhidas num gesto brusco contra o ar. Borboletas que empalhamos em livros para nossa coleção inútil de erudição. Onde resta a força criadora do voo? No aquém-além da escrita mil borboletas descrevem mil compassos de mil voos, para o deleite do inarticulável. Mas os sistemas caçam palavras, e nelas apenas subsiste o rastro. Os sistemas se esforçam para emprestar muletas às borboletas mortas. E nós visitamos o museu para aprender o que é voar.

Quem devo ler? Meus amigos, meus inimigos ou os cânones? Tal questão quer abolir a incerteza dos encontros. Deveríamos ler como se em presença de um intruso, que chuta as portas com que isolamos nossos segredos. Mas para ler costumamos nos trancar na sala de estar, e depois saímos de encontro ao mundo, brandindo polêmicas na arena bárbara das vaidades humanas. Antes de ler deveríamos aprender a ouvir. Não havia livros quando as pessoas conversavam ao pé do ouvido, repetindo a meia dúzia de palavras ditas durante a consumação do amor. Quando da criação da escrita, escondemos sua origem em infinitas variações do mesmo tema. E inventamos as questões de afinidade, rivalidade e transcendência, para que o homem não morresse de tédio. Quem sabe ouvir ouve o mesmo burburinho de sempre, cada vez mais exaltado pela violência do tédio. E mesmo assim consegue fazer brotar um sorriso de canto de boca, porque se sabe tão igual quanto quem grita com palavras.

Leio para reconhecer o outro, o qual só posso ler como versão de mim mesmo nuançada em cor diversa. Carrego o texto no meu peito e apalpo o alheio coração pulsante. Leio com o egoísmo de achar que fora eu quem escrevera todas as linhas. Leio com a humildade de me saber escrito por elas. Quem vai desbravar por mim os mundos por detrás das páginas? Mundos que nos falam quando o rumor do mundo não é bastante.

Palavras são as bolhas que se desprendem de um mar em ebulição. Quantos monstros devem morar nas profundezas? Quantas pérolas? Mas os sistemas submergem dentro de seus submarinos (não os de Júlio Verne, mas aqueles de verdade e sem janelas), e fazem subir à tona o periscópio, que tem a burra virtude de enxergar a superfície através de lentes estratégicas, e cegar-se para o fundo onde dorme o indizível.

Os sistemas fazem a autópsia no cadáver da escrita. Lidam com um corpo que não tem mais função. Proclamam que o ofício de carniceiro pretere todos os outros. Subvertem o caos da natureza numa sala de operação. E gargalham, mastigando um pedaço de carne entre os dentes.

Que tem a ver com os sistemas o horror e o encanto de nascer e morrer? Talvez a vida seja curta demais para tanta soberba. Coitado de quem vê o sol fugir pelo horizonte enquanto erige sistemas. Mais uma borboleta se debate na palma de minha mão, mas desta vez eu a devolvi para o crepúsculo. Devemos dar à vida as criaturas de seu próprio reino. Devemos dar-lhe poesia. Porque a vida é anterior a qualquer sistema.

Quem é você?



Perguntas quem eu sou? Se alguém veio aqui realmente procurar-me, achará talvez, quando muito, fagulhas que transbordaram da forja diária e violenta em que se gastou o cinzel dos dias no monólito do ser, seja lá o que isso seja. E se ainda insistir em perseguir aquele vulto fantasma, perceberá que ele possui habilidade em dobrar a esquina e esfumaçar em algum beco labiríntico. Alguém me diz casualmente: “Ah, eu vi você por aí, perambulando”, e eu respondo: “Mas como pode? Eu nasci hoje!”

Nasci hoje? Na verdade, não. Ainda não. Na esteira do tempo que atravessei até então, talvez eu consiga recolher alguns destroços dessa vagueza chamada eu para construir o insosso projeto de ser. E aí eu direi que sou aquilo de que gosto, aquilo que faço, aquilo com que sonho, aqueles quem amo etc. Mas eu prefiro não me levar tão a sério, e digo com a maior irresponsabilidade: “Em breve eu serei”.

E a minha vida busca atualizar continuamente o serei, lançando o espelho contra a parede e recolhendo os cacos, os quais eu torno a lançar e recolher. Eu sou aquela flor ainda em botão, através da qual todos passam questionando a utilidade. Certa flor a meu lado abriu-se na mais espalhafatosa beleza; uns transeuntes a viram, comentaram o espetáculo e foram para casa, insensíveis. Pobre flor! não quero ser ela. Eu ainda não sou, e a minha beleza é portar toda a potência.

Por isso, minha seta aponta para o infinito. Por que eu deveria convergir-me, poligonalmente? Há tantos polígonos nesse mundo, tanta gente quadrada, triangular, pentagonal, tantos espetam... Por que eu deveria ser mais um, gastando boa parte da paciência para polir-me as arestas? Acho melhor não: minha seta aponta para o infinito. E eu tenho a esperança de que onde o infinito se escapa, longe, muito longe desse mundo, lá ele se encurve, tangenciando algo que talvez sejamos, eu e todos nós. E nessa curva que o infinito faça eu pressinto olhos corajosos abertamente sorrindo e chorando diante o desafio da vida. Não sei o que eu sou, mas sei que quero ser isso.